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Violência contra a mulher

Médicos repudiam, em passeata no Rio, violência contra as mulheres

Alana Gandra

Da Agência Brasil

17/10/2018 09h05

Os 11 mil médicos participantes do congresso mundial da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (Figo) saíram em passeata hoje (16) pelas ruas do entorno do Centro de Convenções Riocentro, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, para manifestar posição contrária à violência praticada contra as mulheres e em defesa de excelência para a saúde física e mental feminina. O congresso se estenderá até o próximo dia 19.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência contra mulheres e meninas é um problema de saúde pública no planeta. A OMS estima que 35% das mulheres ao redor do mundo sofreram casos de violência física ou sexual do parceiro íntimo ou violência sexual sem relação com o parceiro ao longo de suas vidas. As mulheres que foram física ou sexualmente abusadas por um parceiro têm 16% mais probabilidade de dar à luz a um bebê com baixo peso ao nascer.

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Além disso, têm duas vezes mais probabilidade de sofrer aborto, quase duas vezes mais probabilidade de apresentar depressão e 1,5 vez mais probabilidade de adquirir uma doença sexualmente transmissível, como a Aids, em comparação a mulheres que não sofreram violência praticada pelo parceiro.

Agressões

Falando à Agência Brasil, o presidente da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que representa a Figo no país, César Fernandes, reconheceu que a violência contra a mulher ainda está muito presente no mundo todo, desde os países mais desenvolvidos até os menos desenvolvidos. "Nós, no Brasil, não estamos à margem dessa violência contra a mulher. Ela existe entre nós também. Tanto a violência física, como a violência emocional, que pode se fazer, por exemplo, por falta de reconhecimento de todos os direitos das mulheres".

Fernandes afirmou que essa violência, muitas vezes, ocorre de forma escondida, subterrânea, no cotidiano, seja no trabalho, seja em casa. Pode ser sob a forma de agressão física por parte do companheiro ou pelo não acolhimento que se faz necessário durante vários períodos da vida da mulher, como a gravidez, parto, puerpério, ao longo dos trabalhos de educação e criação dos filhos.

"Não precisa ser aquela violência em que a mulher fica cheia de hematomas, ou como é em alguns países, em que a violência se faz, por exemplo, por meio da mutilação sistemática dos seus genitais, com a retirada do clitóris durante a infância ou adolescência, com total desrespeito aos direitos reprodutivos e sexuais dessas mulheres", explicou.

Declaração

A violência contra a mulher é um dos temas oficiais do congresso mundial da Figo. Como resultado dos debates ocorridos até agora durante o evento, os médicos presentes divulgaram hoje (16) uma declaração conjunta com a OMS contra a violência praticada contra o sexo feminino.

Os profissionais se comprometeram a empreender ações individuais e coletivas de apoio a esforços que abordem a violência contra as mulheres. As entidades integrantes da Figo deverão trabalhar no sentido de implementar o Plano de Ação Global da OMS para fortalecer a resposta de sistemas de saúde a violências contra mulheres e meninas, bem como adotar medidas de defesa, legais e educacionais, entre outras, para tornar a violência contra a mulher inaceitável a todos os indivíduos e grupos na sociedade.

A declaração salienta também a necessidade de alocação de recursos para a prevenção da violência contra mulheres, disponibilizando de forma ampla e tornando acessíveis serviços para as vítimas de violência. Os obstetras e ginecologistas participantes do congresso se comprometeram também a desenvolver e implementar diretrizes ou protocolos nacionais para disponibilização de cuidados de saúde de qualidade para mulheres que sofreram violência, em atendimento às diretrizes da OMS.

A atenção às vítimas de violência deve ser incluída no currículo de todos os prestadores de cuidados de saúde, incluindo saúde reprodutiva, treinamento especializado de ginecologistas e obstetras e nos programas de educação contínua para prestadores de cuidados de saúde.

Os médicos destacaram ainda a urgência de colaboração com autoridades de cada país, organizações não governamentais, entidades médicas, profissionais de outras áreas de saúde, setor privado e a imprensa, no sentido de prevenir e abordar as consequências de violência contra a mulher. É preciso também que haja uma rede de segurança eficaz para mulheres que sofreram violência, destaca ao documento.

Foi recomendado ainda aos obstetras e ginecologistas que garantam que as sociedades integrantes da federação internacional incluam a violência contra a mulher como um tema obrigatório de seus congressos nacionais, com envolvimento de formuladores de políticas voltadas para a proteção das pessoas do sexo feminino, sobretudo as vítimas de violência, bem como de tomadores de decisão. Os profissionais da área da saúde devem também garantir que seu próprio ambiente de trabalho permaneça livre de assédio e abuso.