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Minha história

"Fui abusada por uma freira. Ela dizia que era uma forma de cura"

Arquivo Pessoal
Carine sofreu abusos quando criança e, hoje, ajuda mulheres em situação de vulnerabilidade Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

13/10/2018 04h00

Diferentes casos de abuso uniram quatro mulheres de quatro partes do Brasil em um livro. "As Iluminadas" (editora Qualitymark) narra abusos sofridos por Sabrina, Carine, Ivana e Edilaine e mostra a guinada que cada uma deu na própria vida para enfrentar as lembranças. Hoje, o quarteto toca o projeto social de mesmo nome, que ajuda mulheres em situação de vulnerabilidade a encarar traumas e a se livrar de violências. A Universa vai contar a história de todas as autoras em uma série de matérias. O relato da Ivana foi o primeiro. Conheça a história de Carine.

Carine não tinha nem 18 anos quando decidiu abandonar a vida no interior da Bahia para se dedicar a Deus em Botucatu, no interior de São Paulo. O avô, figura masculina mais presente na vida da jovem, morreu quando ela tinha 16 anos. Ele liderava o clã evangélico familiar onde Carine cresceu.

Ela se decepcionou com a igreja evangélica após a separação dos pais e, por isso, decidiu ir para o convento. 

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No mesmo período, ela começou a namorar um homem que a forçava a barra para ter relações sexuais com ele. “Eu era virgem e só queria fazer sexo depois do casamento”. As decepções conjuntas se juntaram a um câncer de ovário que surpreendeu a menina. Ela entrou na menopausa ainda adolescente. No convento, conviveu com a pedofilia por parte de uma freira.

“Entrei no convento com a intenção de me isolar do mundo. Éramos 23 meninas, dormíamos no mesmo quarto. À noite, quando íamos dormir, uma freira nos abraçava e acariciava. Algumas eram levadas para o quarto dela. Eu sempre estudei e, em um momento em que não se falava sobre pedofilia, eu já sabia que tinha algo errado acontecendo ali.

A gente fazia trabalhos paralelos ao convento. O meu era um projeto social em escolas nas favelas com os que eram considerados os piores alunos. Diariamente, eu me reunia com usuários de drogas, meninos envolvidos com o crime, para tentar levar a palavra de Deus. Como era um trabalho difícil, todos os dias eu me reunia com uma psicóloga para passar o relatório dos alunos. Foi ela a primeira pessoa a saber dos abusos da freira.

Decidi perguntar às meninas o que acontecia quando ela as levava para o quarto, até então, nunca tinha acontecido comigo. Elas me contaram que a freira dizia que as meninas estavam carentes, que não tinham sido amamentadas quando bebês. Uma delas me disse: ‘Ela age como homem’. E um dia a vítima fui eu. Ela veio até a minha cama, me acariciou e me levou para o quarto. Repetiu o processo comigo alegando que era uma “cura intrauterina”. Eram gestos de casal, uma carícia sexual. Mesmo virgem, eu sabia que aquilo não era cura de jeito nenhum. Ela gerava carência nas meninas, principalmente das mais novas, de 13 e 14, para suprir a dela. 

Comecei a perceber que o comportamento das vítimas começou a mudar quando a frequência dos abusos aumentou. Muitas cortavam os cabelos, deixavam de se cuidar. Queriam ficar parecidas com meninos, queriam ser invisíveis.

Depois de um ano e meio, não aguentei mais. Disse à psicóloga que abandonaria o convento. Ela me apoiou e sugeriu que eu contasse a verdade, mas não tive coragem. Tive uma conversa com a madre superiora e pedi para sair. Uma semana depois, liguei e revelei o motivo. Apontei, inclusive, quem eram as meninas que foram abusadas. A entidade temeu que eu contasse isso a alguém, por isso designou um frei para me acompanhar por alguns meses. Eu me calei. Só revelei o que aconteceu quando lançamos o livro.

Eu me libertei do convento, fiz faculdade de Direito em São José do Rio Preto, onde trabalhei por dois anos. Voltei para a Bahia e, depois de seis meses morando lá, recebi uma proposta de trabalho na Angola. Me casei e tive um filho contrariando meu corpo – menopausado desde os 16 anos.

Eu me ausentei do mercado por causa de uma depressão, assim que meu filho nasceu. Quando voltei, iniciei os trabalhos dentro da mudança comportamental. Fiz um curso de coaching e fui para Ohio para a especialização. Foi lá que conheci as meninas e descobri que nossas histórias poderiam ajudar outras mulheres.

Com o lançamento do livro, tivemos oportunidade de fazer palestras gratuitas para mulheres em situações de vulnerabilidade. Foi uma alegria. Há convites aqui da Angola, do zumbi dos Palmares... É uma forma de mostrar que dá para enfrentar os traumas e dar um novo significado a eles.

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