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Carreira e finanças

Ansiedade e vício no trabalho: o lado negativo de ser influenciador digital

Reprodução/Instagram/@jeskagrecco
Jessica Grecco, 29, se viu cobrada a falar de vida pessoal para seguidores Imagem: Reprodução/Instagram/@jeskagrecco

Natália Eiras

Da Universa

10/10/2018 04h00

Ser pago para postar em suas redes sociais onde comer, como se vestir e como usar o cabelo parece ser uma vida dos sonhos. Mas o filtro do Instagram esconde a ansiedade e depressão, transtornos que, de acordo com especialistas, são consequências da pressão que influencers sofrem ao compartilhar a vida com seus seguidores.

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“O peso da influência é custoso psicologicamente”, explica à Universa a psicoterapeuta Ana Paula S. Simões, que atende, em seu consultório em São Paulo (SP), alguns criadores de conteúdo. “Eles sabem que têm milhares de seguidores e que aquelas pessoas estão acompanhando o tempo todo”, fala a especialista. E, às vezes, os seguidores acabam extrapolando a linha que separa a vida profissional da pessoal do influencer.

Uma das criadoras da página do Facebook “Indiretas do Bem”, a publicitária Jessica Grecco, 29, terminou um namoro e começou a emagrecer mais ou menos na mesma época, mas ela não estava interessada em falar sobre nenhum dos dois assuntos no seu Instagram, onde é seguida por cerca de 28 mil pessoas. No entanto, alguns seguidores começaram a cobrar explicações sobre o que estava acontecendo em sua vida privada. Foi a primeira vez em que Jessica sentiu na pele a pressão de estar em evidência. “Fiquei bem mal na época, porque sentia que eu ‘devia’ algo para essas pessoas, mesmo sendo algo superpessoal”, diz a jovem.

Os seguidores se sentem à vontade para tomar este tipo de atitude por estarem sempre acompanhando de perto os influencers. “É criada uma pseudointimidade”, explica Antonio Carlos Amador Pereira, professor do curso de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). “Não se cria um vínculo com a pessoa concreta, mas com um personagem que eles imaginam que a pessoa seja. Aí surgem expectativas em cima dela”, complementa.

“Muita gente acompanha a vida dos criadores de conteúdo como se fosse um BBB e levam tudo o que acontece ali como a realidade, mas não é bem assim”, conta Jessica Grecco. “É preciso atender as expectativas de quem segue, seja para se posicionar politicamente até para dar satisfações sobre pontos muito delicados da sua vida pessoal que às vezes ele não gostaria de falar”, diz.

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A publicitária Carol Rocha, 30 anos, deixou de ser criadora de conteúdo quando percebeu pressão Imagem: Reprodução/Instagram/@tchulim

Os influencers passam por questões muito semelhantes a de celebridades. “O criador de conteúdo tem que ter muita responsabilidade em tudo que fala, mas é muito complicado porque essa responsabilidade não é muito clara, porque você não é uma celebridade de fato, mas também não é um total desconhecido”, opina a publicitária Jessica Grecco.  

Enquanto celebridades são famosas por terem uma profissão como atriz ou apresentador de TV, influencers são conhecidos pela persona que eles são na internet. E a confusão entre o que é este personagem digital e o que é a pessoa real é, de acordo com Ana Paula S. Simões, umas das maiores questões dessas pessoas. “Como a vida pessoal complementa a vida profissional, eles se perdem nessa divisão”, explica a especialista.

Segundo Simões, o fato de terem que “vender” um fragmento da sua vida real para marcas os fazem ter um conflito eterno. “Eles precisam, por exemplo, aceitar fazer fotos com um sapato que não usariam na vida real porque este é o trabalho deles”, fala a psicoterapeuta. “Muitos vêm ao meu consultório porque estão em um dilema sobre se aquela é a verdade que eles querem dizer”.

E, por não saberem exatamente onde acaba a vida profissional e começa a pessoal, é comum os influencers ficarem “viciados” em trabalho. “As redes sociais estão no celular, então eles acabam misturando o horário de trabalho com o livre. Estão sempre checando o que as pessoas estão falando sobre o conteúdo deles e se elas estão curtindo”, complementa Simões.

Pressão para se manter em relevância

Com o boom de sucesso de YouTubers e Instagrammers, muita gente começou a tentar a vida como criador de conteúdo como uma maneira “fácil” de ganhar dinheiro. “Mesmo tendo ótimo material, elas vão acabar se frustrando”, diz o psicólogo Igor Lins Lemos, de Recife (PE), que é especializado em vícios tecnológicos. “Existe uma cobrança para se obter sucesso, mas é difícil obtê-lo”.

A gerente de estratégia de conteúdo Carolina Rocha, 30, virou uma influencer há cerca de 10 anos, quando se tornou musa do Lingerie Day (data celebrada em julho, em que pessoas compartilhavam, nas redes sociais, fotos usando roupas íntimas na internet). Naquela época, as pessoas não a chamavam de influencer, mas de “famosinha na internet”.

De lá para cá, a jovem começou a trabalhar com publicidade, teve um filho e… decidiu deixar de ser uma influencer profissional. “Eu não estava mais criando conteúdo porque eu estava com vontade de falar, mas por sentir necessidade de colocar algo no ar”, narra. “Percebi que estava ficando muito ansiosa, ia dormir pensando em números, que eu tinha que colocar vídeo no ar”.

Reprodução/YouTube
Stella Dauer, do canal EuTestei, teve dois momentos em que a depressão e a ansiedade e afastaram do trabalho Imagem: Reprodução/YouTube

Plataformas como o YouTube e o Instagram “punem” os usuários que não publicam conteúdo com bastante periodicidade, diminuindo o alcance dos posts destes usuários. “É muito baseado em algoritmo, então acaba se tornando uma máquina de produção”, fala Carolina. “Você tem que se manter relevante por muito tempo”.

Criadora do canal do YouTube “Eu Testei”, onde faz resenhas de gadgets, Stella Dauer teve dois momentos em que se sentiu paralisada pela ansiedade e depressão e se afastou do trabalho na plataforma, atualmente sua principal fonte de renda. “É a necessidade de ser sempre criativo, de estar sempre criando, de ter de entrar nesse turbilhão de velocidade, de consumo, de influência”, fala Stella. Desde então, ela tem falado bastante sobre a saúde mental de criadores de conteúdo e chegou a participar de um painel sobre o assunto na edição de 2015 do evento YouPix Con

Solidão com milhares de seguidores

Por não precisarem bater ponto em um escritório, grande parte desses criadores de conteúdo trabalham sozinhos, em casa, o que torna a profissão bastante solitária. “Seu maior contato com o mundo é através de quem acompanha seu conteúdo, então a troca acaba criando a dependência”, fala Jessica. “É uma linha tênue entre a troca saudável e a cobrança em atender as expectativas das pessoas”.

E mesmo as mensagens nem sempre são tão positivas. “Por você ser um criador de conteúdo e estar ali exposto, a pessoa acha que tem o direito de te falar o que quiser, do jeito que quiser”, opina Carolina Rocha. “Críticas são sempre bem-vindas quando feitas de maneira correta e educada, todos precisamos”, complementa Stella.

É preciso, de acordo com Igor Lins Lemos, um certo equilíbrio e autoconhecimento para lidar com comentários maldosos e a cobrança de entregar conteúdo. “Eles precisam procurar fazer um acompanhamento terapêutico, além de ter uma rede de apoio para lidar com esses problemas”, fala o especialista. Para ele, influencers iniciantes são os que estão mais vulneráveis à pressão. “Eles não têm uma equipe para filtrar este tipo de coisa”, diz.

Mas se há tanta pressão assim, por que estas pessoas não deixam a profissão? “Há uma pressão psicológica no profissional, de não conseguir deixar aquele ramo porque está dando resultado”, explica Ana Paula S. Simões. Porém, o ego também é um fator importante. “Eles estão sempre querendo fazer mais e melhor”.

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