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Minha história

"Fui estuprada aos 6 anos, mas vivi achando que havia sido só um pesadelo"

Arquivo Pessoal
Ivana Cabral sofreu abusos e violência. Hoje, é coach, empresária no ramo do agronegócio e ajuda mulheres em condições de vulnerabilidade Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

07/10/2018 04h00

Diferentes casos de abuso uniram quatro mulheres de quatro partes do Brasil em um livro. “As Iluminadas” (editora Qualitymark) narra abusos sofridos por Sabrina, Carine, Ivana e Edilaine e mostra a guinada que cada uma deu na própria vida para enfrentar as lembranças. Hoje, o quarteto toca o projeto social de mesmo nome, que ajuda mulheres em situação de vulnerabilidade a encarar traumas e a se livrar de violências. Conheça a primeira história da série.

A goiana Ivana Cabral, de 40 anos, foi vítima de diferentes abusos. Sofreu racismo por parte da bisavó, cresceu em um ambiente de violência doméstica, foi estuprada na infância pelo sócio do pai, agredida pelo ex-marido e subjugada pela família do atual. Hoje, tem três filhos, está terminando a segunda faculdade -- “Psicologia era meu sonho”, conta à Universa – e acredita que expor todas as dores da juventude é necessário para ajudar outras mulheres que passam por situações similares.

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“Não tinha uma noite em que eu não sonhava com aquele banco de madeira. Durante o dia, eu desmaiava, sentia fortes enjoos e dores de cabeça. Eu tinha um sonho que me atormentava, que me fazia sentir dor física. Meus pais não percebiam. Minha mãe só se importava com meu pai, que era mulherengo. Ele a agredia e eu não tinha para onde fugir. Sou filha de pai negro, e, por isso, minha bisavó materna não me reconhecia como bisneta. Eu passei toda a minha infância implorando pelo amor dela, mas a única coisa que ela me dizia era que eu “fedia a preto”, era “cruza de preto com branco”. Que era feia e suja. E eu acreditei.

Eu achava mesmo que era suja. Tinha nojo de mim. E, mal sabia eu, que não tinha culpa de nada. Meu pai me levou à oficina que ele comandava, quando eu tinha seis anos. Disse que faríamos um passeio, nunca me esqueci do quão feliz eu fiquei naquele dia. Ele era ausente, então, receber a notícia de que teríamos um dia juntos fez meus olhos brilharem. Meu pai gostava muito de mim por eu ser morena como ele. Só que quando chegamos à oficina, apareceu um imprevisto de trabalho e ele precisou sair. Pediu que o sócio dele, que estava lá, cuidasse de mim até ele voltar. Disse que não demoraria. Nunca demorou tanto.

O sócio do meu pai pegou na minha mãozinha e pediu que eu o seguisse até a sala dele. Chegando lá, sentou em um banco de madeira, me colocou em seu colo e me estuprou. 

Nunca contei a ninguém. E, um alerta aos pais: a maioria das crianças não conta. Por isso, prestem atenção nos seus filhos. Minha mãe não se atentou aos meus sinais. Eu tinha pesadelos todas as noites, desmaiava diariamente, sentia enjoos e fortes dores de cabeça. Eu chorava muito. Hoje, eu a perdoei. Perdoei, também, minha avó e o sócio do meu pai. Ainda nos cruzamos pela cidade. Fácil não é. Mas eu já não me culpo.

Antes disso, me casei. Aos 13 anos, engravidei de um homem de 27 e saí de casa. Fiz de tudo para fugir do ambiente hostil da casa dos meus pais e acabei reproduzindo a vida que eu levava lá na minha nova rotina. Meu marido me agredia, como meu pai fazia com a minha mãe. Quando transamos pela primeira vez, ele percebeu que eu não tinha hímen. Perguntou se eu era virgem e eu disse que sim, que achava que tinha nascido sem a membrana. Ele passou a me ameaçar. Dizia que se eu terminasse com ele, contaria aos meus pais que eu não casei virgem. Eu morria de medo, imagina? Era uma criança.

Só fui entender o que tinha acontecido comigo aos 19 anos, em um retiro espiritual. Eu oscilava entre realidade e sonho, achava que o abuso era só um pesadelo que me atormentava todos os dias. E foi essa a verdade que contei à psicóloga que me atendeu no retiro. Ela percebeu. Me perguntou: “Ivana, isso não foi um sonho, não é? Isso aconteceu com você?”. Eu gritei e chorei. Finalmente, soltei o grito que estava entalado na minha garganta desde aquele dia.

Meu pai nunca soube do que aconteceu. Ele morreu antes de eu decidir contar. Minha mãe, de primeira, não acreditou em mim. Achava que era mentira, já que eu escondi durante toda a vida. As pessoas próximas a mim só souberam da violência que sofri na infância quando lancei o livro. Aguentei meu trauma calada por anos. Depois do retiro, descobri que precisava encará-lo; que doeria, mas eu não tinha outra alternativa. Foi quando descobri, também, que não podia mais me sujeitar a qualquer tipo de violência. Me separei. Fui embora sozinha, sem estudo, sem dinheiro, sem apoio da família e com dois filhos.

Às vezes, não tínhamos o que comer. Com muito esforço, consegui fazer faculdade de Sistema de Informações, onde conheci meu atual marido. A família dele, rica, do sul de Goiás, não foi com a minha cara. Enfrentei racismo de novo, mas decidi que não abriria mão de um amor por questões sociais das quais eu discordava. Quando decidimos nos casar, meu sogro pediu que passássemos por cima do passado. Me casei como uma princesa, do jeito que eu sempre sonhei, aos 30 anos. Em uma cerimônia bonita, com um belo vestido e lua de mel fora do País. O segundo sonho era fazer faculdade de psicologia. Também consegui.

Precisei gritar minha dor para mim mesma para conseguir me perdoar e perdoar quem me fez mal. Não significa que eu esqueci, mas que dei um novo significado ao trauma. Minha motivação de vida é ajudar outras mulheres a fugirem da violência e ressignificarem as próprias dores. É para isso que acordo todos os dias."

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