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Política

Eleição afeta relação de parentes: "Meu pai me excluiu do grupo da família"

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Eleições estão abalando as relações familiares Imagem: Getty Images

Amanda Serra

Da Universa

06/10/2018 04h00

Em tempos de polarização política, a pergunta que não quer calar é: será que o Natal em família está garantido depois dos grupos de WhatsApp?

Julia* foi excluída do grupo da família por questionar o pai, jornalista e professor, sobre a propagação de notícias falsas na rede social. Eles não estão se falando e ela “não tem ideia” de como será o fim de ano. Patricia* votará escondida do pai porque está com medo que ele tenha um infarto caso saiba que seu candidato é diferente do dele. Já Heloísa cansou do discurso de ódio do tio e disse que sairia do grupo porque não tinha espaço suficiente para receber as mensagens do trabalho.

Confira como a eleição 2018 tem afetado as relações afetivas e familiares:

"Não tenho ideia de como será o Natal. Meu pai me excluiu do grupo da família"

O grupo da minha família existe há alguns anos, mas desde o impeachment da Dilma [Roussef - PT] tentei sair do grupo por conta das mensagens ofensivas, que iam além da política. Como imagem da ex-presidente de pernas abertas no posto de gasolina, uma caricatura dela nua, tomando um pé na bunda. Nisso, saí do grupo, mas logo depois meu pai me adicionou novamente.

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Com o avanço das eleições, o marido da minha prima começou a mandar (muitas) notícias falsas. Estava ignorando e tal, mas aí percebi que meu pai também começou a enviar uns conteúdos falsos. Fiquei em choque. Porque ele é jornalista, trabalhou 10 anos na CBN [rádio], é professor universitário. Durante toda minha formação, sempre me orientou a checar as fontes, a ouvir o outro lado, se questionar sobre os fatos. E aí quando vi que ele estava enviando coisas mentirosas, fiquei em pânico.

Nisso, mandei uma reportagem investigativa falando sobre as ‘fake news’ [notícias falsas] que existem nos grupos pró-Bolsonaro, cerca de mil por dia, e sabemos que não existe tudo isso de notícia por dia, e a moda de dizerem que as notícias reais que são mentirosas. Pra quê fui enviar isso? Virei a petista, que defende o ‘ladrão mor’ [referência ao ex-presidente Lula]. Meu pai começou a responder em nome de todos e retruquei: ‘Cansei de ficar em silêncio nesse grupo enquanto vejo vocês enviando vários absurdos'.

Aí, ele deu a seguinte resposta: ‘Se você vai em uma igreja e a pregação começa, você fica em silêncio; o mesmo ocorre no terreiro de candomblé. E respondi: ‘Acho essa resposta muito representativa. Porque você está tratando política como religião e não enxergo dessa forma. Política a gente discute, não é uma questão de fé ou irracionalidade.

Estou aqui para pontuar meu ponto de vista. Aliás, não entrei nessa igreja, tentei sair, mas trancaram a porta da catedral e estão me obrigando a ouvir o sermão. ’ Até que meu pai disse: ‘vou poupar você de ouvir a nossa besteira e a gente as suas besteiras.’ Me excluiu. 

A política sempre foi muito apaixonante no Brasil, mas a maioria das pessoas está tratando como algo passional. Eu e ele não estamos nos falando e duvido que nos falemos tão cedo. Acho que deve aparecer perto do aniversário dos netos (tenho gêmeos que vão fazer 1 ano em novembro). Quanto ao Natal, não tenho ideia. Júlia, publicitária, 35 anos, SP.

“Meu pai disse que não serei mais filha dele caso não anule ou vote no candidato dele”

Sempre tive uma relação ótima com o meu pai, que apoiou minha carreira como atriz a vida toda, inclusive financeiramente. Mas o ódio ao PT está tão amplo e difundido, que deixou as pessoas cegas, inflexíveis. Ninguém escuta outras opiniões. 

Meu pai não entende nada de política, mas aderiu o discurso comum, como: ‘tem que colocar um louco lá, porque só assim será possível quebrar o sistema político do Brasil'. Ele ainda reproduz notícias falsas, comentários clichês como ‘minha bandeira não é vermelha’. Não é o eleitor fascista, que tem ódio e encontrou um espaço para se revelar, mas o analfabeto político que reproduz o que ouve.

Nas últimas vezes em que conversamos, ele disse que se eu votar no Haddad [Fernando, do Partido dos Trabalhadores] no segundo turno, ‘não serei mais filha dele’. Achei muito absurdo porque um pai que sempre me apoiou, nunca pressionou a nada, pelo contrário, falando que se não votar no candidato dele ou anular não serei mais filha dele. É muita cegueira!

Minha irmã e minha mãe estão com medo que ele enfarte e pediram para que não conte que vou votar no segundo turno. Na verdade, vou dizer que justifiquei e votarei escondida.

Meus pais não têm rede social, mas chegou no ouvido do meu pai que eu, meu marido e minha filha de três meses fomos na passeata ‘Mulheres Unidas contra Bolsonaro’ e ficou furioso, a ponto questionar a ajuda financeira que já me deu.

Ele anda muito nervoso porque perdeu muito dinheiro nos últimos e atribui todo fracasso profissional no PT. Não consegue assumir que muito do dinheiro que perdeu foram de escolhas mal feitas, negócios errados. Transfere a culpa ao partido. Não tem a ver com a gestão, mas sim, com teimosia em fazer negociações nos momentos errados. E aí ele está em um momento profissional difícil novamente, então, acha que se o PT vencer, vai falir de vez.

A gente só está se falando porque neguei que ia votar no PT. Minha mãe votará no candidato dele, pois está com medo real do meu pai infartar. Minha irmã não votará no segundo turno, pois votaria no Haddad em uma possível disputa com Bolsonaro. Ela irá para praia para evitar confusão. Patrícia, 36 anos, atriz, São Paulo.

“Disse que meu celular estava com a memória cheia para não receber mais mensagens de ódio”

Meus pais e minha irmã tendem a ser pessoas politicamente mais conservadoras, mas apesar de divergências aqui e ali, não há votos para Jair Bolsonaro em casa.

Em casa, a gente costuma conversar muito civilizadamente sobre política e ninguém quer ver gente morrer por ser gay, por ser mulher, por ser negro. Ou perder direitos sociais por isso.

Mas meu tio não é assim. O que é surpreendente, porque foi uma pessoa que militou pela democracia durante a Ditadura Militar brasileira (1964 – 1985). 

E eis que meu tio começou a enviar dezenas (e não é força de expressão) de mensagens no grupo da família com conteúdo de ódio e pró-Bolsonaro. Meu pai nem abre, meu primo também não, mas incomodava muito a mim, minha irmã e minha mãe. Minha irmã porque tende a querer debater o assunto, dar argumentos porque não acredita que o sujeito dizer que ‘quem vota pelo PT tem que morrer’ seja algo razoável.

Fico com estômago virado, de verdade, de ver alguém que amo falar em ódio, em morte, em intolerância com gays, negros e mulheres. Sou mulher. Grandes amigos meus e da minha família são outras mulheres, negros e negras, gays. Eles são bem-vindos na minha casa e na minha vida. Enfim, acho inconcebível que uma pessoa que se diz ‘da família’ não olhe ao seu redor, só veja o próprio umbigo.

E demonstre tão pouca consideração pelo ser humano em geral, porque afinal, somos de todo o tipo de forma, cor, religião, orientação. Então, disse que meu celular estava com a memória cheia e que não conseguia mais receber as mensagens de trabalho que me enviavam e por isso ia sair do grupo. Estou livre até a eleição. Só volto depois do segundo turno (28/10). Heloísa, jornalista, 32 anos.

*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

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