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Política

Brasileiras no exterior: ofensas online diante das eleições presidenciais

Arquivo pessoal
A psicóloga Yara Nico, que atende brasileiros vivendo no exterior Imagem: Arquivo pessoal

Debora Komukai

Colaboração para Universa, em Melbourne, Austrália

06/10/2018 04h00

Domingo, dia 30 de setembro de 2018. Na frente da State Library, um dos ícones da cidade de Melbourne (Austrália), se escuta uma jovem gritando "estar fora do Brasil não me faz ser menos brasileira". As pessoas ao redor, que participam de um evento contra Bolsonaro, aplaudem. E os murmurinhos deixam transparecer que a frase dita abraça a todos ao redor mais do que qualquer ideologia. Segundo pesquisa apresentada pela Receita Federal, em 2011 o número de saídas definitivas do Brasil foi de 8.170 pessoas para 21.701 em 2017, um crescimento de 165%.

A frase foi um desabafo público feito pela advogada Nanda Duarte. A bolsista de mestrado na área Desenvolvimento Social, na Universidade de Melbourne, na Austrália, conta que tem recebido críticas e ataques pelas redes sociais ao publicar sua opinião política. "Dizem que não sabemos mais sobre como é morar no Brasil, pois não estamos lá. Antes de vir para cá, eu trabalhei quatro anos na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Eu sei o que é trabalhar e viver no Brasil. Dói ver pessoas que pensam assim. A nossa cidadania e realidade não ficam na fronteira", diz Nanda.

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Atendendo consultas de forma online e presencial, a psicóloga Yara Nico trabalha com brasileiros que moram em diversos cantos do mundo. Yara conta que cerca de 85% dos pacientes desabafam algo relacionado à política no Brasil. " Isso já tinha se iniciado antes. Porém, hoje em dia, as pessoas dizem ficar deprimidas só de abrirem as redes sociais. Não importa se você mora dentro ou fora do Brasil, esse sentimento, que já existia antes, está crescendo ainda mais."

"Nunca me senti tão brasileira"

Arquivo pessoal
Suzy Abreu mora há dois anos na Austrália com o marido Imagem: Arquivo pessoal

Às 19h de uma quarta-feira, com um café em uma mão e um ar de cansaço, a engenheira civil Suzy Abreu, que mora há dois anos na Austrália, conta que também recebeu mensagens dizendo que ela não sabia o que estava dizendo em relação à situação no Brasil, pois não morava mais no país."Eu nunca me senti tão brasileira para falar a verdade. Tão engajada. Porque o que eu mais quero é que o Brasil melhore, para eu voltar para casa." 

A quilômetros de distância da terra natal, as entrevistadas relatam a “escuridão” de sentimentos ao acompanhar o clima pré-eleições pelas redes sociais. “Por que não é apenas o voto que faz a mudança. Tem o abraço, a conversa, ficar do lado de quem se importa com o cenário político e dos jovens. Tudo isso influencia muito. Por que, eu sei que tem muita gente que está no Brasil mas sabe menos do que quem não está. Daí, o que adianta?”, diz Nanda.

Assim como a Suzy, que recebeu um "convite de patrocínio" da empresa onde trabalha para poder prolongar seu visto na Austrália, Nanda também se divide entre duas realidades. Sentimentalmente elas querem voltar para o Brasil com um currículo mais forte, para implantar o que aprenderam no exterior. Porém, também contam estar com medo das consequências das Eleições.

Volta ao Brasil vira 'Plano B'

"Nunca tivemos o plano de ficar por aqui. Nunca quisermos morar fora. A ideia inicial era aprender inglês", lembra Suzy. Porém, ela diz que se alguém perguntar hoje se ela voltaria para o Brasil, diria sem pensar: "Não". "E seria pelo cenário político no Brasil. Eu, como cidadã de origem pobre, filha de negra e nordestino, não me vejo tendo condições emocionais e psicológicas de voltar nessa situação."

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Camila Finotti e o filho Ibrahim moram no Canadá Imagem: Arquivo pessoal

O choro do pequeno Ibrahim, brasileiro que mora no Canadá, ecoa durante a entrevista. Sua mãe, Camila Finotti, especialista em Saúde Pública e conselheira ativa de projetos sociais, está há sete meses vivendo longe de casa. Camila conta que a possibilidade de morar novamente no Brasil será um “plano B” para a família. Tudo depende do candidato e propostas que irão prosperar nessas eleições. "Caso o vencedor tenha uma agenda mais progressista, sim, dai voltaríamos", desabafa.

De uma forma ainda mais delicada, Camila se reparte entre a saudade, a razão de estar em um país que transmite mais estabilidade e as dificuldades de uma mãe imigrante. Ainda com a voz de Ibrahim ao fundo, Camila diz que "aqui preciso criar um filho em uma nova cultura, que eu mesma não conheço, que eu preciso conhecer junto com ele. Aqui eu não tenho uma rede de apoio, só existe isso no Brasil. Então, é bem difícil. Acho que ninguém quer sair do seu próprio país, isso vem de uma necessidade".

Mulheres divididas

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A advogada Nanda Duarte faz mestrado em Melbourne, na Austrália Imagem: Arquivo pessoal

No final da entrevista, a mesma voz que gritou para cerca de 200 pessoas em um pais que mora há menos de um ano, conta que se sente "no escuro"ao acompanhar toda situação de longe. "Para a gente aqui isso não afeta nada. Mas, e o outro que está lá? Tenho amigos, família, que deixei no Brasil", explica Nanda. "Isso dá medo, porque não podemos ajudar com muito estando aqui. Isso faz eu me sentir impotente."

Mostrando as fotos das afilhadas que deixou no Brasil, Suzy diz que o sentimento que carrega agora é "agridoce". "Eu quero voltar para estar com a minha família. Eu não pensaria em imigrar se o cenário político no Brasil tivesse uma saída. Vale ficar aqui e deixar a minha família lá de uma forma ruim, independentemente do resultado das Eleições? Ou seria melhor voltar para ficar com eles, mas ficar também em uma situação ruim?"

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