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Tocofobia: o medo extremo de engravidar e dar à luz gera pânico e tem nome

Getty Images
Imagem: Getty Images

Jacqueline Elise

Colaboração para Universa

05/10/2018 04h00

A primeira coisa que costumamos fazer quando uma mulher informa que está grávida é parabenizá-la. Mas, para algumas pessoas, qualquer contato com os temas “gestação” e “parto” tem o potencial de gerar uma reação completamente oposta: a notícia pode causar enjoo, aflição e até crises de pânico.

Ter receios e medos relacionados ao processo de engravidar é normal, e muitas mulheres têm compartilhado cada vez mais seus anseios sobre a maternidade umas com as outras e também nas redes sociais. Mas quando a simples menção ao tema faz com que alguém tenha sintomas extremos de mal-estar, pode ser que haja um motivo mais sério por trás. O medo exacerbado de gravidez e dar à luz só foi documentado recentemente, mas tem nome: tocofobia.

Adolescência e traumas

A tocofobia foi formalmente reconhecida em janeiro de 2000, quando o British Journal of Psychiatry (Periódico Britânico de Psiquiatria), da Universidade de Cambridge, publicou um estudo relatando 26 casos do transtorno. O documento foi o primeiro a classificar a fobia na literatura médica. Estima-se que, atualmente, a tocofobia afete 14% das mulheres no mundo, segundo a Nordic Federation of Obstetrics and Gynecology (Federação Nórdica de Obstetrícia e Ginecologia).

No documento do Periódico Britânico de Psiquiatria, a fobia é qualificada em dois graus diferentes: tocofobia primária, quando o pavor da gravidez se instaura antes mesmo da pessoa passar por uma gestação; e tocofobia secundária, que aparece após um procedimento de parto traumático.

No primeiro caso, costuma aparecer já durante a adolescência. "Se desencadeia, normalmente, por alguma situação que a pessoa ouviu falar: um parto em que a gestante morreu, um filme com uma cena chocante ou alguma história da qual tomou conhecimento", explica a psiquiatra Ana Paula Carvalho, certificada pela organização americana IBLM (Conselho Internacional de Medicina do Estilo de Vida, da sigla em inglês). No segundo, o transtorno pode aparecer após casos de violência obstétrica, aborto espontâneo ou parto prematuro. 

É possível que a aversão seja um sintoma de depressão pós-parto em algumas situações. O transtorno também é mais comum entre mulheres que tiveram sua primeira opção de parto (natural ou cesárea) desrespeitada na hora do procedimento. No geral, passar por um trauma é o gatilho mais frequente para o surgimento da tocofobia.

Sensação de desespero

“Se eu vir um vídeo de parto, por exemplo, nem precisa ser muito explícito, mas é o suficiente para me arrepiar e minha pressão cair.” A gerente de marketing Malu Lopes, de 30 anos, tem aversão às ideias da gravidez e de dar à luz há muito tempo, mas nunca soube que seu desconforto poderia ser um transtorno específico. Ela diz que “desde sempre” sentia enjoo, ânsia, mal-estar e uma sensação de desespero quando alguém aborda o assunto “gravidez” perto dela.

“Fui percebendo [a fobia] aos poucos, porque toda vez que eu escutava alguém contando sobre gravidez, parto, ou quando alguém compartilha vídeos sobre gravidez ou nascimento, todo mundo fica super emocionado e eu sempre quase desmaiava”, relembra. Malu não sabe precisar quando começou a ter essas reações, e até o momento da entrevista não fazia ideia da existência do termo “tocofobia”. Mas descobri-lo a fez entender que ela não está sozinha.

“Ao mesmo tempo que posso ser julgada como ‘sensível demais’ por passar mal com isso, sou julgada como ‘insensível demais’ já que ser mãe é algo tão ‘bonito, milagroso’. Ela conta que já se desesperou ao achar que corria risco de engravidar mesmo quando estava sem vida sexual ativa. “Não havia a menor possibilidade, mas mesmo assim eu ia lá e comprava um teste de farmácia ‘só pra ter certeza’, porque me causava uma ansiedade horrível”, diz. Ela pensa que, se mudar de ideia e decidir ser mãe, prefere adotar uma criança. “Gestar não é uma opção para mim”.

Quando o cuidado com métodos contraceptivos vira obsessão

Luana*, 31, lembra que, quando era criança, queria muito ganhar um irmão mais novo, mas não conseguia ficar feliz ao ver a mãe grávida. “Não gostava de passar a mão na barriga como todo mundo fazia. Uma vez meus pais me deram uma Barbie grávida e eu prontamente tirei a barriga, que desencaixava, e escondi em algum lugar. Acho que só não joguei fora porque tinha um bebê dentro, mas eu detestava ver a tal da Barbie com “aquele barrigão”, que era como eu pensava na época”, lembra.

A aflição com a gravidez não melhorou com o passar do tempo. “Eu sempre senti um certo desconforto físico, que eu qualifico como nojo, embora não ache que essa expressão seja a melhor. Acho que percebi que era um problema quando, em uma roda de conversa com amigos, revelei isso e as pessoas pareceram escandalizadas e, algumas, até preocupadas comigo”, conta.

A angústia gerada pelo assunto da gravidez é tanta que Luana tem pesadelos com gestação, evita conversar sobre isso, e se preocupa mais do que o normal com métodos contraceptivos. Ela sempre utiliza mais de uma contracepção combinada -- nunca dispensa a camisinha e também toma anticoncepcional hormonal -- mas já chegou a recusar transas e ter crises de ansiedade por ter atrasado a pílula. "Meu medo dos métodos falharem é grande e ainda permanece."

O transtorno ainda é um tabu?

Para o psicólogo Michael Zanchet, que faz parte do corpo médico do programa de acompanhamento para gestantes Kinder Kur,  do Centro Médico de Longevidade e Spa Kurotel, assim como acontece com outros transtornos, a tocofobia é intimamente ligada à quadros de transtorno de ansiedade: “a base é a insegurança e o medo de errar, então esse processo está realmente interligado. E a causa e os sintomas mais associados à ansiedade, como ataque de sudorese, taquicardia e falta de ar, estão relacionadas às fobias também”, explica.

Ele também acredita que falar sobre tocofobia é difícil por conta da desinformação -- "ainda é um termo bastante novo" -- e também pelo medo das pessoas fóbicas se abrirem. 

A incidência de tocofobia, segundo o médico, se dá mais em gestantes, mas pessoas que nunca engravidaram também estão suscetíveis a se identificar com este medo caso tenham passado por algum trauma. “Receio a qualquer procedimento cirúrgico, como a cesárea, ou as próprias dores do parto, toda pessoa vai ter. A grande questão é o grau de sofrimento que isso gera na antecedência ao parto ou até mesmo ficar muito bloqueada para o processo de gravidez", diz.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

“Meu medo se confirmou”

A artesã Aline Saad, de 35 anos, viu sua gravidez do filho Arthur, agora com três meses, virar um pesadelo. Ela conta que sempre teve pavor do parto e não gostava de tocar no assunto. Quando a gestação chegou no sexto mês, ela decidiu encarar um parto normal. Com 39 semanas, já no nono mês, ela foi internada para realizar uma indução. Foi aí que o pânico se instalou.

“Eu não tinha dilatação nem contração. Apenas uma forte cólica depois de vários comprimidos." Quase 24 horas depois da internação, com muitas dores e sangramento, a obstetra realizou uma cardiotocografia e confirmou que o feto já estava em sofrimento. Aline, já em pânico, implorou para que fosse feita uma cesárea. A médica acatou ao pedido, mas logo veio outro problema: depois de sete tentativas, a anestesia local não fazia efeito. Após horas em trabalho de parto, Aline foi entubada e, desacordada por uma anestesia geral, deu a luz à Arthur.

Aline tem encontrado apoio ao compartilhar sua história com outras gestantes, mas afirma que não pretende ter outro filho tão cedo. 

Como tratar a tocofobia?

Segundo o Dr. Zanchet, a melhor forma de lidar com a tocofobia é buscando um tratamento psicológico e também psiquiátrico para casos mais graves. “O interessante é fazer um acompanhamento interdisciplinar, principalmente em termos de psicoterapia, para entender as causas emocionais que geram essa ansiedade e poder dar o suporte adequado pra quem tá acompanhando a parte de gestação, para que no momento do parto a pessoa esteja preparada para este processo”.

Ele avalia que o mais indicado seja a pessoa tocofóbica buscar profissionais que sigam a linha cognitivo-comportamental, “que vai trabalhar a influência desse pensamento disfuncional, as emoções e o que gera a causa comportamental da tocofobia”, segundo ele. Quando há um diagnóstico de tocofobia durante a gravidez, o psicólogo reforça que o acompanhamento com ginecologistas e obstetras também é recomendado, sem esquecer da psicoterapia.

Conselho Internacional de Medicina do Estilo de Vida

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