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Minha história

Pai, amigo, chefe e ex violentos: "Passei a vida fugindo de abusadores"

Arquivo pessoal
Cinthia nunca teve medo de denunciar seus agressores Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brunelli

Colaboração para Universa

30/09/2018 04h00

A rondoniense Cinthia Barros Braganhol nasceu e cresceu em um ambiente de violência. Quando ela tinha quatro anos, a mãe se separou do pai, que tinha comportamentos machistas. “Ele chegou a bater nela. Também não deixava minha mãe trabalhar fora”, ela conta. O que aconteceu depois disso foi uma série de encontros com homens violentos e relacionamentos abusivos que a levou hoje, aos 24 anos, a se tornar o braço direito da dona de uma casa que é voltada para o acolhimento de mulheres que tenham sofrido algum tipo de abuso, a Ayne Casa de Cultura, na Barra Funda, em São Paulo.

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“Até os oito anos, eu e minha irmã morávamos com meu pai no interior de Rondônia, em Ariquemes. Nessa época, minha mãe voltou de Sumaré, no interior de São Paulo, para me buscar. Ela já tinha outro marido. Deu a chave da casa dela para ele se mudar enquanto voltávamos de Rondônia.

O problema é que o cara também era meio agressivo, dava uns tapas nela de vez em quando. Eu cresci ali. Um dia, quando eu estava com 17 anos, estávamos todos na casa da irmã dele e em meio a uma discussão, ele acabou me dando um soco na cara. Quando chegamos em casa, minha mãe foi tirar satisfação. Perguntou por que ele havia feito aquilo na frente das outras pessoas. Ele bateu nela de novo.

Percebi que não queria aquilo para a minha vida, peguei minhas coisas e fui embora de casa. Minha mãe me disse para eu tomar cuidado e que estaria lá, caso eu precisasse. Fiquei um tempo morando em casas de amigos. Quando fiz 20 anos, fui morar em Floripa.

Assédio de um amigo

Passei a trabalhar no shopping da cidade, e estava indo tudo relativamente bem. Eu tinha um grande amigo, com quem eu passava muito tempo. Ele era um pouco mais velho, mas a gente era muito próximo, e frequentemente saíamos para beber.
Um dia, eu estava andando de skate e ele me ligou me chamando para ir na casa dele tomar uma cerveja e assistir um filme - nada que nós não tivéssemos feito antes, sem qualquer problema. Como ficou tarde, ele falou para eu dormir por lá, que no dia seguinte me levaria em casa para eu tomar banho e ir trabalhar.

Deitei no quarto de hóspedes, mas ele entrou e tentou me estuprar. Eu consegui afastá-lo e escapar porque ele estava muito bêbado. Resolvi fazer um boletim de ocorrência. Ele descobriu e me ameaçou de morte. Mandou uma mensagem dizendo que para mandar me matar, não gastaria nem R$ 150.

Fiquei com muito medo. Larguei toda a minha vida em Floripa, inclusive meu trabalho. Estava com passagem comprada para Barcelona, mas ainda faltavam dois meses para o embarque, então vim para São Paulo e fiquei na casa de amigos até ir pra Europa. Minha viagem foi muito legal, fiquei dois meses por lá. Trabalhei limpando hostel, ou casas. Conheci uma espanhola que me deixou ficar na casa dela durante um mês.

Um chefe abusador

 Voltei pra São Paulo e comecei a trabalhar em um restaurante. Fui garçonete por um ano e meio, quando fui promovida.

O dono do restaurante, no entanto, não cansava de dizer o quanto gostava de mim. Pegava na minha perna, me colocava no colo dele, me puxava para dar beijo no canto da boca. Pensei em processar, mas estava receosa de não conseguir outro emprego porque ele é influente nesse meio.

Nesse ínterim, conheci meu ex-namorado, numa festa no Parque do Ibirapuera. Ele me tratava muito bem, me dava presentes. Mas tinha problemas com drogas e era um pouco paranoico com ciúmes. Eu não podia usar algumas roupas, ele controlava meus horários e chegou a colocar um GPS no meu celular. Se eu demorasse cinco minutos a mais para chegar em casa do trabalho, ele achava que eu já estava traindo ele. Além disso, tratou uma grande amiga muito mal, só porque ela era solteira.

Fiquei com ele cerca de um ano, até que descobri que ele me traiu – e juntando todos esses comportamentos dele, terminamos.

Enquanto isso, meu chefe ficou sabendo por meio de prints de conversas em aplicativos, que eu tinha pensado em processá-lo por causa do assédio. Ele me chamou para conversar com a gerente geral, dizendo que não ficaria mais sozinho comigo porque eu estava inventando histórias absurdas e me perguntou se eu queria ser mandada embora. Eu aceitei.

Recebi todos os meus direitos e fiquei fazendo bicos para me sustentar. Passei a morar com uma amiga, que me apresentou a Simone [Vargas de Lima, dona da Ayne casa de cultura], ainda no início da estruturação da Ayne. Estou com ela desde então, participando dessa iniciativa. Trabalho aqui como auxiliar de escritório, mas ela me considera seu braço direito.

Ah! Processei o dono do restaurante e recentemente ganhei a causa. Serei indenizada, mas não posso falar o valor. Tudo isso me ajudou bastante, me fizeram ver um outro lado da vida e buscar um novo caminho. Hoje, eu procuro ver onde me sinto mais feliz, e não aceito mais qualquer coisa para minha vida.”

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