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De Dilma a Naomi Campbell: peruqueira judia cobra até R$ 12 mil por peruca

Gabo Morales/UOL
A judia ortodoxa Yaffie Begun ostenta sua peruca com luzes Imagem: Gabo Morales/UOL

Amanda Serra

Da Universa

23/09/2018 04h00

Angélica, Dilma Roussef, Eliana Tranchesi, Glória Perez, Gisele Rodriguez, irmã mais nova do jogador de futebol Alexandre Pato, Naomi  Campbell, Raquel Ripani e Suzana Gullo são algumas das famosas que já usaram as perucas de Yaffie  Begun, a maior peruqueira do Brasil. Os motivos são variados - estéticos, artísticos, religiosos ou por conta de doenças – pacientes com câncer representam 85% da clientela da americana. Os preços variam de R$ 6 mil a R$ 12 mil e as peças são personalizadas, ajustadas na cabeça e idênticas ao cabelo natural de cada um.

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Angélica com a peruca de Yaffie para o ensaio da revista "Joyce Pascowitch" Imagem: Divulgação

“Criar perucas é meu chamado na vida. Como mulher, judia, mãe de seis filhos e esposa de um rabino, me sinto incrível de ter meu próprio negócio. Consegui entrar em um mundo que nunca imaginei e me sinto poderosa e muito orgulhosa”, afirma Yaffie, que apesar de morar no Brasil desde 1989, não perdeu seu sotaque de Nova York (EUA) e mistura palavras em português e inglês com naturalidade.

Sorridente, com olhos delineados, unhas pintadas de vinho e batom nude, ela foge do estereótipo de uma judia ortodoxa -- ainda que siga todos os mandamentos da religião, inclusive, cobrir o cabelo com peruca em público. Aliás, isso é algo que realmente incomoda a artesã, como prefere ser chamada - “Não me vejo como empresária. Meu trabalho é movido pelo amor e de fato, é bem artesanal.”

Gabo Morales/UOL
Imagem: Gabo Morales/UOL

“As pessoas acham que porque sou religiosa é o meu marido quem manda. E isso não é verdade. Há um companheirismo muito forte entre nós, nossas decisões são tomadas juntas, somos parceiros no trabalho e na vida. Ele nunca disse ou insinuou que eu era menos que ele. O papel da mulher judia não é dentro da cozinha com os filhos. A gente pode trabalhar, e deve, e isso vale para qualquer mulher. You can do it (Nos podemos fazer isso), women's  power (poder das mulheres -- tradução livre do inglês), diz em alto e bom bem-humorada, enquanto gesticula com o braço para cima e a mão cerrada.

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E foi graças ao talento e o boca a boca das amigas da religião que ficavam curiosas para saber como Yaffie tinha cabelos tão bem cuidados, que ela viu seu negócio se tornar o ganha-pão da família. O marido, o rabino Mendel, deixou a psicologia de lado e trabalha com a esposa. Uma das filhas que mora em Nova York cuida das vendas no atacado – as peças são vendidas em lojas selecionadas para que a qualidade não seja perdida. A família também exporta para Austrália e Londres.

A fabricação ocorre na China e os fios são buscados pessoalmente pela matriarca. Ela viaja uma vez por mês por regiões da América do Sul (não revela o local exato – “esse é o segredo do nosso trabalho”), checa cerca de 500 kg de cabelos naturais, seleciona 40 kg e envia direto para Ásia para serem confeccionados fio a fio. Já os tons mais claros, ela compra na Ucrânia. 

O showbusiness

Arquivo Pessoal
A modelo Naomi Campbell e Yaffie Begun Imagem: Arquivo Pessoal

Procurada pelos principais oncologistas e celebridades do país, Yaffie optou por manter o atendimento em seu apartamento no bairro de Higienópolis, área nobre de São Paulo, e em um escritório na Frei Caneca, zona central da capital. Ambos residenciais e discretos. “Foi a Eliana Tranchesi que me aconselhou a não abrir um salão ou uma loja. Porque isso tiraria a privacidade que os meus clientes procuram. Aliás, aprendi muito com ela. Ela faz falta”, afirma a americana, que se tornou amiga da dona da Daslu, morta em 2012, por conta de complicações decorrentes de câncer no pulmão.

Inclusive, foi Eliana que indicou Yaffie para Naomi Campbell, que possui alopecia – doença que provoca a queda de cabelo. A modelo comprou três perucas e posteriormente encomendou algumas faixas exclusivas que a americana produz para fixar a peça na cabeça -- sem cola. 

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Fato é que as duas estavam certas. Até por isso que Yaffie foi chamada diretamente pelo presidente do Hospital Sírio-Libanês em 2009 para atender Dilma Roussef, que na época era ministra-chefe da Casa Civil e estava com um linfoma. “Ele me ligou e disse que tinha uma paciente muito importante e pediu para eu ir até o hospital. Até então não conhecia a Dilma, não sabia quem era. Quando cheguei em casa, falei para o meu marido que tinha conhecido uma ministra e ele me contou que ela seria a próxima presidente do Brasil. Não acreditei”, lembra a artesã, que teve quatro encontros com a ex-presidente e cita a personalidade forte.

“No início fiquei assustada. Ela era um pouco brusca comigo, me chamava de 'menina'. Mas com o tempo fomos conversando e ela quis saber por que vim para o Brasil, comentou que comeu comida judia na Casa Branca quando esteve lá, se mostrou interessada na minha cultura”, diz Yaffie, que acabou se aproximando da petista. 

Sérgio Lima/Folha Imagem
Dilma Rousseff tenta se proteger do vento por causa da peruca, na base aérea de Brasília Imagem: Sérgio Lima/Folha Imagem

A judia lembra que quando viu as primeiras fotos de Dilma com sua peruca ficou preocupada com a aparência da peça, pois estava "completamente diferente de quando ela saiu daqui". "Ligava para ela e dizia: 'Dona ministra, a senhora precisa enrolar nos bobes', conta aos risos. 

Por conta do atendimento com hora marcada, de sua descrição e sensibilidade, Yaffie se tornou uma espécie de psicóloga para sua clientela. “Sinto que poderia ter algum diploma na área (ela é formada em pedagogia). Minha irmã morreu, vítima de leucemia, e acompanhei todo o processo de perda do cabelo e sei como isso afeta. Não é porque usamos perucas que não nos importamos com o nosso cabelo. Ver tudo isso de perto me deixou muito mais sensível”, afirma ela, que já se acostumou com o clima variado que se instaura em sua casa. “Tem cliente que chora, tem cliente que leva cinco amigas e fazem uma festa na sala”.

Peruca virou um acessório da moda?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Recentemente, a atriz Bruna Marquezine esteve em um evento baile beneficente promovido por Rihanna em Nova York com uma peruca loira e causou o maior burburinho. Segundo a especialista em cabelos, dentro do mundo artístico o uso da peça como acessório ou mesmo em premiações é algo muito comum.

“Deveria ser mais falado. Além de gerar interesse, quebra o tabu que as pessoas têm com peruca. Muitas pessoas ouvem o nome 'peruca' e associam isso a algo feio ou mesmo a uma doença. Tenho muitas clientes que compram porque querem mudar o visual sem de fato mudarem. É algo para usar em uma festa, no dia a dia, enfim, para ter ali no armário quando quiser. É bacana quando famosas como a Bruna ou mesmo outras atrizes e cantoras aderem o acessório em eventos”, diz ela, que ressalta sua satisfação profissional. "Faço um produto maravilhoso, que faz com que a mulher se sinta linda, confiante e poderosa. Tenho imensa gratidão pelo meu trabalho." 

Um dos diversos modelos criados por Yaffie

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