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Autoestima

Alexandra Gurgel: "Homens querem a gorda na cama, mas ninguém pode saber"

Arquivo Pessoal
Alexandra Gurgel, do canal Alexandrismos, lança livro sobre body positive Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

22/09/2018 04h00

A infância da youtuber Alexandra Gurgel, do canal Alexandrismos, "foi apavorante". Desde os nove anos, ela faz uso de remédios para emagrecer. Na escola, forçou-se ao papel da "gorda valentona": fazia bullying e batia nas crianças. "Precisava me proteger", diz ela à Universa. "A pressão por ser magra vinha de todos os lados. Da escola, da família, dos meninos. Eu não me encaixava. Viver não era bacana".

O processo de aceitar o próprio corpo começou há três anos, quando conheceu o feminismo. "Me forcei a entender que não tinha nada de errado comigo". No canal, Alexandra fala de como começou a se respeitar, de gordofobia, de body positive, assuntos abordados também no livro que a jornalista vai lançar no dia 29, em São Paulo. "Pare de se odiar" é uma aula de como combater e como lidar com a gordofobia. 

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Em que momento começou sua relação de ódio com seu corpo?
Na infância. Desde os nove anos, eu vivia no endocrinologista tentando emagrecer, tomando fitoterápico. Era comparada com meus irmãos, com primos, com colegas da escola, eu era a única gorda em todos esses lugares. Não me via na TV, nem nas revistas. Aprendi desde pequena que minha vida só começaria depois que eu emagrecesse, já que eu só seria bonita, só arrumaria um namorado, se fosse magra. Dormia a maior parte do meu tempo livre para não pensar em comer, ingeria laxante e diurético em dosagens altíssimas. Vivi uma vida de compulsão, anorexia, bulimia, depressão, tendências suicidas. Eu não me encaixava em nada, viver não era bacana para mim.

Qual foi a pior lembrança da sua infância?
Aos 15 anos, sofri minha primeira rejeição amorosa. Eu morava em um condomínio e era apaixonadinha por um menino. Ele sabia. Um dia, ele me chamou para ir até a garagem e tentou me beijar. Naquele momento, pensei: “Meu sonho está acontecendo”. Quando ele chegou perto da minha boca, disse: “Nem por um Big Mac”. Um amigo dele saiu de trás de um carro e disse: “Sacanagem, você é muito fraco”. Eles apostaram um Big Mac que o menino me beijaria. E em uma época em que o sanduíche custava R$ 9. Naquele momento, decidi virar freira.

O convento foi uma tentativa de se encaixar?
Sim. Como ninguém me queria, decidi que me casaria com Jesus. Eu comungava e me confessava todos os dias. Nem o padre aguentava. Ele dizia: “Vai ser jovem, não aguento mais você aqui todos os dias”. Eu pensava: “O padre não me entende!”. Fui para o convento e disse que queria ser freira. A primeira regra, o celibato, nem mexeu comigo. Para mim, nem gostava de sexo. Só dei para trás quando soube que não poderia ver meus pais, nem ter um celular.

O que fez com que você sentisse vontade de se matar?
Quando fiz 23 anos, em 2012, minha mãe me deu uma lipoescultura de presente. O médico tirou nove litros de gordura do meu corpo, injetou parte na bunda, parte no peito. Fiquei com o corpo da Kim Kardashian. De uma hora para a outra, as pessoas começaram a gostar de mim, a me respeitar. Aquela não era eu. Andava na rua e era assediada. Na balada, pensei que seria paquerada, mas passei a ser agarrada. Pensei: “É isso que eu ganho sendo bonita?”. Minha vida mudou drasticamente. Aquela não era eu. Passei três meses sem entender o que estava acontecendo, até que tentei me matar.

Quando você acordou, depois da tentativa de suicídio, qual foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça?
Pensei: “Preciso entender o que aconteceu. Quem sou eu e por que quase acabei com a minha vida? Comecei a ler, pesquisar, tentar viver sem me apegar a padrões. Voltei a engordar. Ainda demorou três anos para que eu conhecesse o feminismo. O feminismo me trouxe uma visão de mundo de que eu não era culpada; de que não tinha nada de errado comigo. E aí, eu, finalmente, aprendi a aceitar meu corpo. Hoje eu me amo para caralho. Do jeito que sou. Escondi meu braço por anos, por vergonha. Hoje, saio com ele à mostra e ainda fiz uma tatuagem. Demorou, foi difícil, mas finalmente me encontrei e me aceitei.

O que o público do seu canal pode esperar do livro?
A ideia do livro foi unir diversos temas recorrentes no meu canal, todos baseados na minha história de vida. Falo de gordofobia, problemas de autoestima, de como aprendi a me amar, de como o padrão oprime as pessoas. Recebi alguns convites de editoras, mas a maioria queria que eu escrevesse minha autobiografia. Eu tenho 29 anos, fala sério, né? Como sou jornalista, fui editora de texto no Rio por anos, achei que seria baba. Mas, quando comecei, me desesperei. Foi difícil, mas valeu a pena.

Como sua família, que te pressionou durante toda a vida para estar em um padrão, lida com seu corpo hoje?
Demorou muito, mas minha mãe me aceitou e eu a aceitei. Eu a considerava um monstro, achava que ela não gostava de mim. Quando comecei o canal, ela se recusava a acompanhar. Não gostava, achava que eu era uma feminista maluca que queria falar merda na internet. Hoje, eu não a culpo. Fizemos uma viagem juntas esse ano e, pela primeira vez, estar com ela por mais de três horas foi bastante prazeroso. Me abri, apresentei meu trabalho a ela. O feminismo salvou minha relação com a minha mãe.

Hoje, você se considera 100% livre da gordofobia?
Não. Me livrei da gordofobia em relação ao meu corpo, mas é uma luta diária não ser gordofóbica com os outros. Passei o ano de 2016 sem ficar com ninguém. Em 2017, decidi sair para dar uns beijos. Fui para o Tinder e percebi que meus matches só eram com homens magros e brancos. Eu tinha aquele conceito de que de gorda, já bastava eu. E aí descobri que precisava me desconstruir para aceitar o outro. Comecei a dar like em homens gordos, negros, e, hoje, minha preferência é por eles.

Como você desconstrói a ideia de que ser gordo significa não ser saudável?
Eu conto o exemplo da minha vida. Ser magra, para mim, não era ser saudável. Para ser magra, eu precisava me entupir de laxantes, tive anorexia, comia 800 calorias por dia em uma dieta restritiva que não proporcionava ao meu corpo os nutrientes que ele precisava. Isso é ser saudável? Hoje, eu não como muito, nem como tanta besteira. Faço exercício físico, tenho uma alimentação saudável e balanceada, e não emagreço. Tem genética envolvida, sabe? Não faz sentido atribuir ser gordo a ser doente. Você lembra quando a Nara Almeida postou uma foto de biquíni e algumas pessoas disseram que queriam ter câncer para terem um corpo parecido com o dela? Fala sério!

Existe uma fetichização do corpo gordo?
Claro. E o problema do fetiche com gente gorda é que você se torna um objeto. Existe uma clara diferença entre tesão e fetiche. Tesão é o que eu, por exemplo, sinto por homens gordos. É uma preferência. Quero andar com eles de mãos dadas na rua, entende? O fetiche, não. Ele quer você, meia noite, na cama dele, sem ninguém saber. No Tinder, uma vez, eu dei match com um cara e a primeira coisa que ele me mandou foi: “Oi, sou comedor de gorda”. Esses caras não te tratam como uma mulher normal, mas como uma mulher gorda.

O que é a solidão da mulher gorda e em que situações ela se manifesta?
Ela se manifesta a vida inteira. Somos excluídas socialmente desde a infância, no colégio. Ninguém se interessa pela gorda, a gente precisa se esconder atrás de estereótipo. Eu, quando criança, me escondi na “gorda valentona”. Praticava bullying, batia nos outros. Eu precisava sobreviver no colégio, sabe? A mulher gorda aprende que vai ter que ficar sozinha mesmo, com o comedor de gorda, sendo lanchinho da madrugada. Aprende que não vai ser assumida. E aí você começa a se questionar, a colocar em prova até a própria sexualidade. Não cabemos nos lugares, nas roupas nos desejos dos caras... A sociedade é cruel.

Você criou a marca Toda Grandona, que faz roupas e organiza festas. Por que a ideia de investir em um selo gordo?

Criei a marca junto ao Bernardo [Boechat, do canal Bernardo Fala] e Caio [Cal, do Caio Revela]. A criação tem a ver com identidade. O Bernardo é DJ, então decidimos fazer uma festa para juntar pessoas gordas, para mostrar que pessoas gordas vão para a balada. Organizamos a primeira festa em São Paulo e tivemos um público de mais de 500 pessoas. O número só cresce. Para o primeiro evento, criamos uma camiseta com o nome da festa e a galera amou. Estamos investindo e vendendo muito. Há peças lisas e estampadas. Gordo não consegue achar camisa lisa, cara, sem ser aquelas de toalha de mesa que minha avó usa. O nome da marca é em homenagem à música “Toda Grandona”, das meninas do rap plus size. Com a festa, o cachê delas aumentou muito. Finalmente estamos conquistando espaço.

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