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Minha história

"Eu me tornei mãe da minha mãe. Ela tem Alzheimer"

Arquivo Pessoal
Fabiana Costa (à dir.) largou tudo e foi morar com a mãe, Maria Conceição, diagnosticada com Alzheimer Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

15/09/2018 04h00

Ao receber o diagnóstico de que a dona Maria Conceição, 82, estava com Alzheimer, Fabiana Costa, 51, renunciou a tudo: abandonou a casa, o emprego e foi morar com a mãe para cuidar dela. Nesse depoimento à Universa, ela compartilha os desafios e conta como dribla as dificuldades:

“Antes da doença, minha mãe era uma mulher lúcida, saudável e ativa. Criou os cinco filhos, cuidava da casa, das finanças. Era a alma da nossa família.

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Os primeiros sinais do Alzheimer se manifestaram através de esquecimentos e repetições. A primeira situação foi um dia em que ela se perdeu no bairro, a duas quadras da casa dela, voltando da casa da minha filha. Um vizinho a encontrou perdida. Um outro comportamento, que se tornou recorrente, era ela contar a mesma coisa várias vezes, como se fosse a primeira.

Ela tinha lapsos de memória: não lembrava se tinha tomado os remédios e pedia marmitex porque não sabia mais cozinhar. Quando eu fazia alguma comida que ela tinha me ensinado, ela dizia que estava uma delícia e que nunca tinha comido aquilo. Às vezes, algum conhecido a cumprimentava na rua, ela respondia, mas depois comentava comigo que não conhecia aquela pessoa.

Minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer em 2013, aos 78 anos de idade. Não contei para ela da doença para preservar o bem-estar dela e para ela não entrar em depressão. Meu pai tinha demência. Ficamos anos sem conversar, mas a enfermidade deles nos aproximou e nos reconciliamos. Abandonei meu negócio próprio e passei a cuidar dos dois durante o dia.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Após a morte do meu pai, fui morar com a minha mãe e me tornei cuidadora dela

Em 2015, a condição da minha mãe piorou com a morte do meu pai. Eu renunciei à minha vida e fui morar com ela. Inicialmente, meu marido não aceitou, mas depois me acompanhou. Foi uma adaptação difícil. Deixei para trás minha casa, minha rotina, parei de sair com meus amigos, de ir a eventos sociais, mas, acima de tudo, prevaleceu o meu amor por ela.

Eu fiz um curso de cuidador de idoso para atender melhor as necessidades dela. Eu me tornei mãe da minha mãe. Eu não a trato de forma infantilizada, mas tenho todos os cuidados que uma mãe tem com um filho pequeno. Eu controlo a medicação dela, a ajudo a tomar banho, a trocar de roupa, coloco comida para ela no prato. Ela consegue comer e ir ao banheiro sozinha.

Minha mãe tem alucinações com bichos; me machuca vê-la nessa situação

Hoje, ela tem 82 anos, está no nível intermediário da doença e tem muita confusão mental. Ela tem alucinações com bichos: cobras, morcegos, galinhas. Às vezes, ela grita de tanto medo. Teve uma vez que ela falou que estava cheio de minhoca debaixo do guarda-roupa. No primeiro momento, eu tento trazê-la para a realidade, com jeitinho. Eu falo que não tem, mas quando ela insiste na ideia e começa a se alterar, eu entro na imaginação dela e concordo. Pego a vassoura e digo que vou tirar os bichos. Ela se acalma e fala que eles foram embora. Eu evito contrariá-la para ela não ficar agressiva, depressiva e não achar que está ficando louca.

Outra situação comum é ela dizer que não está na casa dela, arrumar a mala e perguntar que horas nós vamos embora. Já aconteceu de ela acordar e não me reconhecer. A memória dela está comprometida. Se eu falar que hoje é meu aniversário, por exemplo, ela me vai me abraçar e me parabenizar. Passados cinco minutos, se eu repetir a mesma informação, ela me vai me felicitar novamente.

Me machuca vê-la nessa situação. Eu choro de tristeza, escondido dela. Eu queria ter minha mãe de volta. Eu lamento porque gostaria que ela estivesse desfrutando da velhice dela com saúde.

Não é fácil, mas quando a gente cuida de alguém com amor, aprendemos a ter paciência

Trato minha mãe como se ela não tivesse a doença. Há cuidadores que relatam que não contam as coisas para o paciente, alegando que ele vai esquecer. É verdade, mas eu conto as novidades para ela, porque é uma forma de estimulá-la a conversar e a interagir.

O paciente de Alzheimer é uma caixinha de surpresas: hoje sabemos como ele está, amanhã, não. Eu sempre fui impaciente, mas quando a gente cuida de alguém com amor, aprendemos a ter paciência. Não é fácil, a rotina é cansativa e muitas vezes nos sentimos sozinhos.

Criei duas páginas no Facebook “Alzheimer, Eu e Minha Mãe” e “Alzheimer, Grupo de Apoio Anjos que Cuidam”, onde mostro a minha rotina com a minha mãe, compartilho a superação de cada obstáculo vencido e troco experiências com outros cuidadores.

Antes da minha mãe ficar doente, eu guardava mágoa, era uma pessoa rancorosa, reclamava. Hoje, eu encontrei o bem no mal de Alzheimer porque me transformei como pessoa. Sou mais paciente, mais calma e mais humana.

Independentemente do estado da minha mãe, valorizo o fato de ela estar comigo. Ela pode esquecer as coisas, mas eu lembro de tudo por ela. Eu sou a cabeça, as pernas, os braços dela. Nós somos duas em uma”.

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