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Jout Jout: "Não vou me associar a nenhum partido, só quero ensinar a votar"

Reprodução/Instagram
Para Jout Jout, sociedade precisa participar mais da política Imagem: Reprodução/Instagram

Talyta Vespa

Da Universa

09/09/2018 04h00

A youtuber Julia Tolezano, a Jout Jout, não gosta do complicado. Falar de política, até então, nem entrava na pauta de assuntos abordados no canal, seguido por quase 2 milhões de pessoas. Só que, aos 27 anos, ela mudou. “Estou pronta para falar. Ao ver essas notícias desesperadoras a respeito das eleições, percebi que não dava para adiar”, contou à Universa. Toda a semana, ela lança um vídeo diferente que discute o sistema – e não candidatos ou propostas. A série "Era uma vez um voto" terá 10 episódios e está no quinto vídeo.

Julia não se expõe politicamente — nem para responder quais foram as notícias que a incomodaram. O que ela quer é que as pessoas deixem de "cagar para política", porque, segundo ela, a apatia piora as coisas.

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De onde surgiu a ideia de mesclar seus vídeos com uma série sobre política? 

O tema nunca foi pauta porque nem eu entendia política direito. Só que comecei a conviver com a Lígia [Stocche, do Movimento Acredito, que usa o debate público como tentativa de renovar a política], que também é roteirista do canal. Ela é tão boa e didática que explica conceitos políticos até para crianças. Aí juntou ano de eleição com essas notícias que nos deixam desesperados e eu pensei: “É agora, precisamos prestar esse serviço”. Tem muita gente que acha que é todo mundo corrupto então prefere deixar para lá, acha que está tudo cagado. Só que se todo mundo pensar assim, piora. Mas, para participar, é preciso entender o sistema. E são esses conceitos que apresento na série.

Quais notícias têm te desesperado nos últimos dias?
Ah, esses escândalos de corrupção... Meu trabalho é fazer com que as pessoas cobrem seus representantes. Sempre que vem à tona um escândalo de corrupção, significa que não tem gente de olho. E isso me desespera porque penso: “Meu Deus, será que não vai ter jeito?”

O canal "Jout Jout, Prazer" existe desde 2014. Por que a série surgiu só agora, depois de tantos escândalos?
Porque hoje estou pronta. Não vou falar sobre política com a minha família, mas com uma galera. Falar sobre política no Brasil é muito delicado, é um tema que enfurece as pessoas. A série aborda dois pilares: a defesa da democracia e a defesa dos direitos humanos – de todos os humanos, não apenas dos "humanos direitos". Eu quero que as pessoas debatam, por mais que não concordem. 

Diferente de outros vídeos da Jout Jout, a série tem cenário e figurino especial. Por quê?
Eu queria destacar esses vídeos no canal, que eles tivessem vida própria. Tanto que essas produções entram em dias diferentes e não às terças e quintas às 10h, como é o caso dos demais vídeos. Queria que o cenário criasse um cantinho próprio que diz: “Aqui a gente entra para falar de política, depois a gente fala do resto”.

Até a Manuela D’Avila, que se uniu à chapa do PT, comentou em um vídeo seu. Assusta ser associada a algum partido ou candidato?
Eu não vou me associar a nada. Se me associarem, não é problema meu. A gente controla o que fala e não o que as pessoas entendem. A ideia desses vídeos é dizer: “Você quer ser de direita? Quer ser de esquerda? Quer apoiar a ditadura? Fique à vontade porque esse é seu direito democrático". Com a ditadura menos, mas tudo bem (risos). Quero que as pessoas aprendam a votar no que acreditam e não por influência da mãe, do amigo, do tio. Se faz sentido para o cara privatizar tudo, beleza, mas ele precisa saber as consequências disso tanto para ele como para o Brasil.

Você falou de três poderes no último vídeo. Acha mesmo que caminham separados, na prática, no Brasil?
Ai, vamos pular essa parte?

Algum dos vídeos já foi eficaz na educação política de um leigo?
Eu tenho recebido muitas mensagens. Não são duas, três, são inúmeras mensagens de pessoas dizendo que não conseguiam discutir política em casa, mas agora conseguem. Outras afirmando que acreditavam que o voto não era importante, mas agora perceberam que é, e estão desesperados lendo plano de governo e propostas dos candidatos. Um seguidor me disse que conseguiu fazer o pai, que apoiava a ditadura, mudar de ideia. Eu nunca pensei que o resultado seria tão positivo.

Temos um cenário em que as mulheres podem decidir essa eleição. O que você acha que isso muda no resultado?
Será que eu sei responder a essa pergunta? Acho que não consigo, desculpa.

Você é uma das principais influenciadoras atuantes hoje. De onde você acha que vem a identificação das pessoas com o que você diz?
Meu canal fala de obviedades, ele faz as pessoas se darem conta de coisas óbvias. Eu digo: o fato de o seu corpo ser diferente de um padrão de perfeição não quer dizer que você é horrível. E aí as pessoas se exaltam: “Nossa, verdade, não tinha me ligado, caraca!”. Eu não dou informações novas, relembro as pessoas do que elas já sabem.

Que carreira  você queria seguir quando escolheu o jornalismo?
Eu sempre quis trabalhar com edição de livros, mas não passei no curso de produção editorial na UFRJ porque zerei em Física. Aí prestei jornalismo na PUC e, em todos os semestres, tive vontade de trancar a faculdade. Não tranquei. Meu diploma está bem enquadrado em alguma caixa por aí.

E qual foi o pulo da produção editorial para o YouTube? A faculdade te ensinou algo que você usa hoje?
Criei o canal para perder o medo das críticas, não imaginava que se tornaria minha profissão. Eu acredito que tudo o que acontece na nossa vida nos faz adquirir experiência, mas não tenho exemplos de coisas que aprendi na faculdade e carrego até hoje. A única coisa boa foi conhecer o Caio [Franco, seu ex-namorado e sócio], que conheci na PUC e está comigo até hoje.

Falando no Caio, como é a relação de vocês hoje? Dá mesmo para ficar amigo do ex logo depois do término? 
Claro que dá. A gente não tinha outra opção (risos). Somos muito parceiros, sempre fizemos tudo juntos. Foi difícil tirá-lo da caixinha de namorado e colocá-lo na caixinha de amigo, de sócio, sei lá. Mas nós, seres humanos, somos bem mais maduros do que imaginamos. É claro que há casos e casos. Se o relacionamento acabou com alguém machucado, não tem porque manter a relação. No nosso caso foi fácil.

Você não se enquadra em padrões de beleza nem se preocupa com maquiagem e afins na hora de gravar. Acha que isso é um respeito ao público?
Acho, mas só percebi essa importância depois de um tempo. A princípio, fiz os vídeos de cara lavada, bagunçada, porque se eu tivesse que passar base, delineador, colocar cílios postiços e um batom para finalizar antes de gravar, eu nunca gravaria. Teria uma preguiça gigante. Sei que tenho o privilégio de ficar desarrumada porque trabalho em casa, mas tento inspirar pessoas a não tentarem transformar o próprio corpo em busca de aceitação.

Com essa onda de body positive, acha que estamos evoluindo em termos de aceitação?
Estamos, e muito. É só olhar na rua. Pelas ruas de São Paulo dá para perceber o black power surgindo, as mulheres negras com suas tranças e cachos, caminhando tranquilas e felizes. A gente caminha a passos lentos, mas caminha.

Internet é território de haters, mas seu canal é território de lovers. Rola uma responsabilidade maior por agradar tanta gente? Uma preocupação de ter que continuar sendo amada?
Olha, preciso ver isso na terapia (risos). Mas, acho que a preocupação é maior do que ser ou não amada. Essas pessoas me deram permissão para influenciá-las e eu preciso honrar isso.

Ainda assim, há haters?
Eu quase não vejo. No máximo uma “Sua vaca feminista”, mas nem faz cócegas.

Então o canal não conseguiu cumprir o principal objetivo, que era te ensinar a lidar com as críticas?
Cumpriu. Não tenho haters, gente me xingando o tempo todo, mas recebo muitas críticas construtivas dos seguidores. Acontece principalmente quando faço um vídeo desconsiderando uma realidade que não conheço. Dia desses, produzi um conteúdo dizendo que, quando assediada, a mulher precisa fazer um escândalo para deixar o abusador constrangido. Muitas mulheres me procuraram dizendo que não podiam gritar nem espernear enquanto os parentes abusavam delas senão seriam mortas. “Não posso fazer escândalo quando meu padrasto me estupra”. Me chateia muito quando cometo esses erros, mas aprendo com eles, me redimo e sigo o baile.

Como é sua rotina de gravações? Tem momentos em que a inspiração não vem?
A rotina é uma bagunça. Às vezes, a gente senta, grava e edita um dia antes de publicar. Em outras, o processo dura duas semanas. Me preocupo em publicar nos dias e horários certinhos e me sinto um lixo quando não consigo. Sempre há momentos em que a inspiração não vem, e quando acontece, corro para a rua, me distraio com outras situações. Se ficar martelando, só piora.

Dá para ganhar dinheiro sendo youtuber?
Sim. Eu ganho um dinheiro que me permite viver bem, com conforto. Esse é mais um privilégio para a minha lista, já que não é uma realidade de todos os youtubers. A grana vem do próprio YouTube – a partir de um algoritmo que calcula uma porrada de coisa que eu nem sei o que é. Mas também recebo por publicidade, palestra, livro, post etc.

Ainda tem vontade de ser produtora editorial?
Não, não trocaria meu trabalho por nada. Se não existisse a profissão “youtuber”, eu provavelmente seria corretora de imóveis ou sanfoneira de uma banda de forró.

Há planos para projetos futuros?
Sim. A gente começa a falar de política e pega gosto pela coisa, né? Agora, quero fazer vídeos entrevistando e acompanhando a rotina de políticos que realmente pensam no povo, e não em ganhar uma graninha por fora. Quero encontrar pessoas que dizem: “Família, amigos, vou tirar quatro anos para me dedicar à população que me elegeu. Não me chamem para o bar porque estarei asfaltando essa rua. E não vou poder te dar um cargo na Secretaria de Cultura porque você não sabe nada de cultura, tá? Beijo, tchau.

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