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Mães e filhos

"Fiz 40 anos e quero ter filhos": veja os caminhos para realizar esse sonho

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Tem muitas maneiras de realizar o sonho de ter um filho Imagem: Getty Images

Christiane Ferreira

Colaboração da Universa

08/09/2018 04h00

Fazer 40 anos é um marco para a mulher, envolto em algumas crises comuns conforme a idade vai aumentando. Uma das mais difíceis é quando há o desejo de ter filhos.

A matemática e o relógio biológico são implacáveis. Mensalmente, a mulher separa de 500 a 800 óvulos para escolher um único para ovular. Aos 15 anos, são 400 mil óvulos disponíveis; aos 35, 50 mil; aos 37, 25 mil; aos 40, 13 mil. Até acabar.

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De acordo com o andrologista Lister Salgueiro, também especializado em reprodução assistida, da Clínica Fértilis, o maior problema é a qualidade dos óvulos. “Aos 25 anos, a cada dez óvulos que a mulher produz, três não têm qualidade, ou seja, vão abortar, não será possível engravidar ou ainda terão algum problema. Com 40, a cada dez, oito não terão qualidade”, afirma o especialista.

Mas mesmo se comprovadas as dificuldades naturais em engravidar, o que pode ser atestado por meio de dosagens hormonais e ultrassonografia, há diversas opções para que a maternidade seja realizada.

Opções para quem tem dificuldade de engravidar 

Coito programado: há uma estimulação da ovulação. O ciclo é monitorado e a relação sexual precisa acontecer no dia da ovulação. É utilizado em casos em que o fator de infertilidade é mínimo e tem perto de 18% de chance de engravidar.

Fertilização In Vitro: para a Fertilização In Vitro (FIV) é preciso tomar medicações que bloqueiam o sistema hormonal ao mesmo tempo em que se usam estimuladores da ovulação. O procedimento consiste em coleta dos óvulos maduros, que levados ao laboratório, são fertilizados com os espermas. Essa fertilização pode ser natural, quando os espermas são colocados com os óvulos; ou são injetados diretamente dentro do óvulo por uma técnica chamada ICSI (Injeção intracitoplasmática de espermatozoides). Dias depois, quando os embriões estão em crescimento, são transferidos ao útero. O custo varia de R$ 15 a R$ 25 mil.

Ovodoação: A doação de óvulos é realizada no Brasil há mais de uma década. É legal desde que não haja fins comerciais e seja anônima. Portanto, a doadora não saberá a identidade da receptora e vice-versa. A doadora será estimulada para um ciclo de fertilização in vitro, que resultará na coleta de vários óvulos, dos quais metade (doação compartilhada) será doado para uma outra mulher que não tem mais capacidade de produzi-los.

“A doação de óvulos é uma atitude generosa. O anonimato é total. A lei proíbe que se revele a identidade das crianças nascidas por meio dessa técnica. As doadoras não podem conhecer as crianças e vice-versa. A equipe médica realiza a seleção da doadora de óvulos que procura garantir a maior semelhança fenotípica com a receptora”, afirma afirma o médico Arnaldo Schizzi Cambiaghi, diretor do Centro de reprodução humana do IPGO.

A idade máxima para as mulheres que desejam se submeter às técnicas de reprodução assistida é de 50 anos, segundo o Conselho Federal de Medicina.

Adoção: solteiras, viúvas, transexuais, casadas... o estado civil e a orientação sexual não importam. Na adoção, é preciso que a pessoa tenha mais de 18 anos e diferença de 16 anos do adotado. A legislação não estabelece data máxima para adotar.

Segundo Chyntia Barcellos, especialista em direito de família, consultora em diversidade para empresas e membro da Comissão da Diversidade Sexual e Gênero do Conselho Federal da OAB, o primeiro passo é procurar o Juizado da Infância e Juventude da sua cidade e procurar saber dos documentos necessários para dar início ao processo, que deverá ser feito por meio de um pedido ao juiz por defensor público ou advogado particular. Só depois de aprovado há inscrição no cadastro local e no Cadastro Nacional de Adoção. É possível encontrar informações no site do Conselho Nacional de Justiça.

“Também é obrigatória a participação em um curso preparatório e ainda existe uma avaliação psicossocial da pessoa ou casal com entrevista e visita domiciliar. O perfil mais procurado, de criança branca recém-nascida, pode levar até cinco anos de espera. Menos exigências, como aceitar crianças negras, deficientes, casais de irmãos ou irmãs pode adiantar a adoção para até três meses”, explica a advogada.

Barriga de aluguel: a gestação por substituição ou cessão temporária de útero, conhecida como barriga de aluguel, é permitida no Brasil, mas obedece as regras da Resolução 2.168/2017 do Conselho Federal de Medicina e deve acontecer quando existe um problema reprodutivo diagnosticado, segundo a advogada Chyntia Barcellos, especialista em direito de família. A doadora do útero pode ser uma parente consanguínea – mãe, avó, filha, irmã, tia, sobrinha e prima. É preciso buscar um médico ou uma clínica especializada em Reprodução Humana ou algum centro clínico público que ofereça esse serviço.

“Foi um dos tratamentos mais difíceis da minha vida”

A dentista Fernanda Neves, 41 anos, sempre teve o sonho de ser mãe, que foi sendo adiado pela conquista profissional. “Comecei a tentar no primeiro casamento, mas a relação acabou e não tive tempo de descobrir que eu tinha alguma dificuldade”, conta. No segundo casamento, aos 38 anos, Fernanda tentou engravidar de forma natural por um ano, sem sucesso.

Foi um longo período até descobrir a baixa ovulação. Decidiu partir para a fertilização. “Foi um dos tratamentos mais difíceis da minha vida, a gente não tem a menor ideia da realidade. São muitos exames, gastos e tentativas. A média de sucesso do procedimento varia de 30% a 50%, dependendo da idade. Acho que as mulheres têm que saber que é uma ilusão esse pensamento comum: a medicina está tão avançada que se pode ter filhos quando quiser. Não é bem assim.”

Ela se aplicava de duas a três injeções por dia para estimular a ovulação. Dores de cabeça, cólicas, asma, refluxo, ganho de peso, retenção de líquido foram alguns dos efeitos colaterais enfrentados. “Tive de interromper o procedimento várias vezes. Ninguém te conta a verdade nua e crua. Fora que gera uma enorme expectativa.”

Nessa busca pela maternidade, Fernanda e o marido decidiram pela adoção, mesmo se fizerem mais uma fertilização, que não está descartada. “Para mim o mais complicado é saber que posso vir a ter um filho daqui a cerca de quatro anos. E quando bate o relógio biológico a gente quer agora, o corpo pede”, afirma.

“A vida é aquela montanha-russa”

A frase acima é da assessora Malu Abib, 45 anos, que adotou, juntamente com o marido, as três irmãs: Gabriela, 7 anos; Rafaela, 6 anos; e Emily, 4 anos; o trio que ela carinhosamente apelidou de “Caverninhas”.

Depois de três tentativas de fertilização in vitro, Malu e o marido partiram para a adoção.  “Entramos na fila em uma cidade do interior pensando que seria mais rápido. Preenchemos aquele questionário dizendo o que queríamos ou aceitaríamos. É tão difícil, pois quando gestamos o filho ele vem pronto. E ali eu dizia que não tinha condições para adotar uma criança com alguma síndrome. Sentia que não era minha missão, mas me sentia culpada. Você começa dizendo que quer uma criança, mas a realidade do Brasil são os grupos de irmãos. E, em algum momento, é preciso ceder.”

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
 

Malu conta que durante o processo, que levou seis anos, teve uma experiência difícil. Chegou a conviver com dois irmãos, que não se adaptaram e acabaram voltando à família de origem. “Passei pela devolução, que ninguém fala, mas foi bem dolorosa”.

Depois desse baque, ela conta que encontrar “As Caverninhas” foi maravilhoso. “Elas são umas fofas, espontâneas e muito amadas. Mas não vou mentir: ter um trio é trabalhoso. Peço a Deus sempre força. Tem sempre uma emburrada, a outra eufórica e a outra chorando aos berros. Ao adotar é preciso praticar um certo desapego. A criança vem pronta. Você não escolhe nem o nome. Nem este pequeno prazer. Em compensação, a convivência é tudo e elas vão pegando nosso jeitinho em uma velocidade incrível”, derrete-se.

“Fiquei um ano pensando na ovodoação”

Paciente de Cambiaghi, a gerente comercial Luciana Correia Vuyk, 45 anos, que atualmente mora em Miami, nunca teve o desejo de ser mãe. Ela, que sempre pensou na carreira e em viajar, dizia que queria ser tia. Aos 40 anos casou-se e mudou para fora do Brasil.

Em um determinado momento ela conta que a “chave virou”. Foi então que tentou engravidar de forma natural até descobrir que tinha baixa quantidade de óvulos. A partir daí testou todos os tipos de tratamento e fez três inseminações artificiais que não deram certo. Aos 42 anos, procurou o especialista em reprodução e viu que sua quantidade de óvulos era de 0,3%, ou seja, as chances eram pequenas e o próprio médico aconselhou a ovodoação.

“Mesmo assim fiz mais três fertilizações para ter certeza que não tinha jeito. Fiquei um ano pensando na ovodoação. Demorei um ano para aceitar, pois as pessoas não falam muito sobre isso e eram muitas dúvidas.”

Ela e o marido escolheram a primeira doadora. Houve a implantação de dois embriões de cada vez, ambas não deram certo. Já cansada e desanimada, Luciana pensou em desistir, mas seu marido a incentivou a tentar mais uma vez.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Tiveram de começar do zero e escolheram uma nova doadora.  No fim de 2017 foram implantados dois embriões. Aí veio a felicidade do teste positivo e a gestação das gêmeas Gabriella e Isabella, que nasceram abril de 2018.

“Na gravidez estava em estado de graça. Depois de quatro anos de tentativas posso dizer que não me arrependo de nada. Eu tinha medo de que as crianças não nascessem com a minha genética, mas tive o apoio do meu marido, que foi o mais importante. Hoje as meninas são super saudáveis, são um presente.”

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