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Mapa da mina

Ela criou um cursinho que ensina português na balada e fatura R$ 1 milhão

Divulgação
Imagem: Divulgação

Por Daniela Pessoa

Colaboração para Universa

04/09/2018 04h00

Quando se formou em letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cíntia Chagas, de 35 anos, sabia que sua vida não seria fácil, mas não imaginava o que estava por vir. “Eu tinha vergonha de falar que queria ser professora de português, porque a realidade da profissão no Brasil é péssima”, admite. No início, ela ganhava 300 reais por mês para corrigir 1.000 redações de alunos por semana. A fim de pagar as contas, chegou a trabalhar em seis cursinhos pré-vestibulares ao mesmo tempo. Como estava sempre pisando no acelerador para não se atrasar, colecionou uma penca de multas de trânsito. E foi demitida dez vezes de diferentes empregos.

Seu jeito “brincalhão demais” não era bem visto pelos coordenadores e colegas. “Eles me chamavam de palhaça, diziam que sala de aula não era circo e que eu precisava mudar”, lembra a professora de redação. Hoje, ela é uma das mais disputadas por pré-vestibulandos de medicina em Belo Horizonte (MG). Isso porque, em 2008, decidiu abrir o seu próprio cursinho pré-vestibular, o Cíntia Chagas Língua Portuguesa, onde ensina técnicas de texto a jovens entre 16 e 25 anos com (muitas) piadas e paródias, como a da canção “10%”, de Maiara & Maraísa –na versão de Cíntia, a música fala sobre colocação pronominal.

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Já teve também o funk da crase e o do imperativo. “A minha característica marcante é o humor. Estudar não precisa ser chato”, defende. “Também conto meus ‘causos’ para ilustrar as aulas, como quando briguei com um namorado por causa de gramática. Fui parar de roupão no meio da rua sem nada embaixo. Os alunos se identificam. Eles não sabem se estão tendo uma aula ou ouvindo uma história”.

“O fracasso nunca foi uma opção”

Hoje, a educadora fatura um milhão de reais por ano. “Para vencer, tive de me esforçar em dobro. Além de quebrar as regras, precisei romper o estereótipo da mulher que, por ser bonita e vaidosa, não pode ser inteligente. O fracasso nunca foi uma opção para mim”, desabafa Cíntia, que lança em 15 de outubro, ainda, o seu primeiro livro, "Sou Péssimo em Português (Harper Collins)". Em pré-lançamento no site da Amazon, a obra ficou em terceiro lugar entre os títulos mais vendidos da casa em apenas 24 horas.

O prefácio é assinado pelo padre Fábio de Melo. “Quando ele tem dúvida de gramática, sempre me manda mensagem no WhatsApp”, diverte-se Cíntia, amiga de longa data do pároco. No pescoço, ela exibe com frequência um pingente de ouro no formato da cruz.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Com apenas três alunos, o cursinho Cíntia Chagas Língua Portuguesa começou a funcionar, há dez anos, em salas sublocadas. “Eu não conseguia nem pagar o aluguel”, lembra a empreendedora. O segredo foi a persistência e o investimento em marketing. Cíntia raspou o tacho de suas economias, que à época somavam R$ 10.000, e encomendou uma logomarca descolada, além de cadernos e apostilas com design moderno. Atualmente, a fila de espera de alunos aguardando uma chance de aulas com a mestra é de dois anos. “Trabalho com o conceito de curso-boutique. Não atendo mais do que seis turmas com 14 pessoas cada, e eu mesma dou todas as aulas”, explica.

Aulão na balada e na academia

Festeira, a educadora uniu o útil ao agradável ao lançar, em 2015, o aulão solidário, em uma boate da capital mineira, com direito a telão e pista de dança lotada de mesas e cadeiras. Em meio ao som do DJ, shows, luzes que piscam e chuva de papel laminado, os alunos repassam todos os pontos aprendidos durante o curso em uma divertida –e criativa– sessão de revisão de conteúdo.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Para participar da aula-festa grátis, basta ser aluno, parente ou amigo de algum matriculado e levar uma doação de alimento. Encarnando divas como Beyoncé, Cíntia já lotou até a Wood’s, badalada boate sertaneja com filiais em várias cidades brasileiras. “Quando me dei conta, o evento estava enorme, com patrocínios de empresas como Red Bull e Forno de Minas”, conta. E tem ainda sorteio de prêmios como roupas grifadas e viagens internacionais com direito a acompanhante. “Nunca tive medo de ser ridícula. É preciso ter cara de pau”, aconselha.

Até o momento, foram mais de dez edições do aulão especial, com algumas variações. Uma delas aconteceu dentro de um cinema em São Paulo e a outra em uma academia de ginástica na capital mineira. Depois da lição, os estudantes escolhiam entre circuito de spinning, ioga ou dança. “Estudo e exercício físico têm tudo a ver. Malhar oxigena o cérebro”, pontua. Os pais dos vestibulandos aprovaram a empreitada. “Quem não quer ver o filho saindo de casa animadíssimo, em um sábado, para estudar?”, indaga a professora. Alguns pais, aliás, vão junto para se divertir e aprender.

Champanhe, casa própria e classe executiva

Metida a besta, como ela mesma se define dando risada, Cíntia sempre almejou um padrão de vida alto, que sua família nunca teve condições de proporcionar. A mãe engravidou quando ainda era muito nova, o pai sumiu e só reapareceu no fórum de justiça quando Cíntia tinha 15 anos e reivindicava o sobrenome paterno.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

“Prometi a mim mesma que, até os 30 anos, eu compraria um apartamento. O cursinho me proporcionou isso. Saí do aluguel e ainda viajo até três vezes por ano para o exterior, de classe executiva”, orgulha-se. Nova York e Roma são seus destinos preferidos. Como não teve a oportunidade de fazer intercâmbio, ao contrário de todas as coleguinhas de escola, decidiu pagar para si mesma, já mais velha, um curso de inglês nos Estados Unidos. Sua maior emoção, no entanto, foi visitar a vinícola do champanhe Veuve Clicquot, na França, uma de suas bebidas preferidas. Aliás, os alunos de Cíntia que são aprovados no vestibular com alto rendimento também experimentam uma dose de luxo. A professora costuma presentear os melhores com um passeio de helicóptero.

Pílulas de sabedoria no Instagram

Além de professora (e, agora, autora), Cíntia é colunista da rádio Jovem Pan, em São Paulo, dá palestras e workshops de reciclagem de português para empresas em todo o Brasil e já se arrisca no universo dos influenciadores digitais. “Eu preciso de desafio o tempo inteiro. Schopenhauer diz que, quando você alcança as suas metas, em seguida, vem a frustração”, filosofa.

Com mais de 110.000 seguidores no Instagram, a professora divulga vídeos bem-humorados com dicas para ninguém deslizar na língua portuguesa. Afinal, a gramática é uma ferramenta por meio da qual exercemos a nossa cidadania. Não dá para vacilar. Você sabia que o correto é dizer “estou em férias”, e não “de férias”, por exemplo? Ou que “Fabrício” não tem cedilha? Essa é fácil, mas foi “Fabríçio”, escrito errado, que mudou a vida de Cíntia, aos 7 anos de idade, e a fez se encantar pelo português.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Perdidamente apaixonada pelo amiguinho de classe, a pequena Cíntia, um belo dia, imbuiu-se de coragem, entregou uma carta de amor ao pretendente dentro do ônibus escolar e o viu rasgá-la em pedacinhos, bem diante de seus olhos, porque o nome do garoto estava escrito errado no envelope. “Ele disse: ‘Vai comprar um dicionário, sua burra’”. Cíntia sofreu, chorou, foi parar na psicóloga e pediu à avó, por quem foi criada, um dicionário de presente. Ganhou um Aurélio de respeito, daqueles com capa dura. “Brinco que o Fabrício despertou em mim a paixão pela língua. Nesse caso, outra língua: a portuguesa”.

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