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Violência contra a mulher

Mulheres com deficiência contam: fui contratada, mas a empresa me desprezou

Arquivo Pessoal
Simone Monteiro é deficiente visual monocular e trabalha como assistente de biblioteca Imagem: Arquivo Pessoal

Beatriz Santos e Letícia Rós

Colaboração para Universa

21/08/2018 04h00

Pessoas com deficiência ainda enfrentam dificuldades e preconceitos no acesso ao mercado de trabalho. Uma pesquisa de 2017, feita pela pela i.Social — consultoria especializada na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho – em parceria com a Catho, apontou que a maior parte das empresas contratam pessoas com deficiência com foco unicamente no cumprimento da Lei de Cotas, de 1991.

Dos profissionais de RH entrevistados, 60% declararam que pessoas com deficiência sofrem preconceito no ambiente de trabalho, seja proveniente de colegas, gestores ou até mesmo clientes. Estas mulheres sabem bem o que é isso e contam suas experiências no mercado de trabalho.

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“A deficiência física representa uma má qualificação de serviço”

“Nessa empresa que me discriminou, eu fiquei sete meses. Fui contratada como assistente administrativa e, quando eu cheguei, não tive suporte algum. Meu gerente não falava comigo e nem mesmo os outros colegas. A única pessoa que falou comigo foi a responsável pelo RH. Eu já tinha muita experiência na área administrava, mas, ainda assim, não recebia trabalho. Eu sentava na mesma baia que o meu chefe, mas ele apenas distribuía entre outras pessoas tarefas que poderia estar fazendo.

Eu ficava ociosa oito horas por dia. Em determinado momento, cansada de ficar sem fazer nada, eu comprei um curso e comecei a estudar para concurso público durante o trabalho. Mas eu sabia que não dava para levar essa situação por muito tempo, porque era constrangedor, e pedi demissão. Infelizmente, nas empresas pelas quais passei, a deficiência física representa uma má qualificação de serviço. O que eu faço, nunca vai ser o suficiente, sempre vão achar que tem alguém sem deficiência que faz melhor.” Simone Monteiro da Cunha, 46, assistente de biblioteca. É deficiente visual monocular.

“Eu era sempre enviada para cuidar do arquivo”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

“Eu trabalhei dois anos no RH de uma empresa e as tarefas eram divididas entre as funcionárias, mas não eram passadas para mim. Eu era sempre enviada para cuidar do arquivo, o que impedia que eu me desenvolvesse. Quando fui contratada, sabiam que eu não tinha experiência na área, mas me admitiram. Só que, no dia a dia, eu era assediada moralmente, gritavam comigo e me maltratavam de muitas formas.

A situação era tão ruim que muitas pessoas perceberam e denunciaram para o gerente, que ficava em outra cidade. A pessoa que mais me destratava, que era uma analista, foi dispensada durante as minhas férias. Mas eu acabei pedindo para sair pouco tempo depois, porque continuava sendo deixada de lado. Depois disso, fiquei cinco anos em outra empresa e, agora, estou desempregada.” Kelly Tavares Dias, 31, assistente administrativa. É deficiente auditiva.

“Ouvi minha chefe dizer que eu não precisava estar lá”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

“Comecei a trabalhar em 2006, na área de RH, em uma empresa que não estava preparada para contratar PCDs, apenas estava sendo pressionada pela lei. Eu cheguei e ouvi minha chefe dizer, para outras pessoas, que eu não precisava estar lá, que eu podia ir embora. Mas eu comecei a procurar trabalho e acabei sendo direcionada para a seleção de outros PCDs.

Só que se não tinha atividade para mim, que dirá para os outros. Eu tive de insistir e aprender a buscar pessoas com deficiência para as vagas que abriam, ao identificar atividades que elas realmente poderiam desempenhar. Acabei ficando quatro anos nessa empresa e, desde então, já passei por outras quatro companhias, sempre em programas de inclusão, para evitar que aconteça com outros PCDs, o que aconteceu comigo. Eu acompanho as pessoas com deficiência dentro da empresa para verificar a adaptação dela e ajudo o gestor a lidar com esses profissionais.” Marília Gentili Pereira Rebelo, 34, analista de RH. Tem hemiparesia direita, paralisia cerebral que atinge o lado direito.

“Se eu não fosse trabalhar, eles nem notavam”

“Fui contratada por uma multinacional. Eu seria uma ponte entre o RH, que ficava em outro estado, e o escritório de Minas Gerais, possibilitando que os empregados pudessem sanar comigo dúvidas sobre a relação de trabalho e sobre questões pontuais do cotidiano.

Eu também auxiliaria a empresa a ministrar treinamentos aos colaboradores, atender fiscalizações dos órgãos competentes, manter relações sindicais e auxiliar nas homologações, dando baixa na carteira profissional, por exemplo. Mas na prática, eu não fazia nada. Logo que entrei, fiquei dias ociosa apenas cumprindo horário.

Em determinado momento, algumas tarefas sem grande destaque me foram delegadas, mas logo fui deixada de lado de novo. Eu poderia ser útil se houvesse um acompanhamento efetivo da minha liderança, só que não ocorreu. Se eu não fosse trabalhar, eles nem notavam. Dois anos depois, fui demitida e hoje procuro emprego.” Vivian, 34, analista de RH. É deficiente física por uma escoliose com atrofia nas pernas, que exige o uso de muletas para locomoção.

O que diz a Associação Brasileira de Recursos Humanos

“A pessoa com deficiência é igual a qualquer funcionário, com os mesmos direitos e obrigações, considerando suas limitações físicas. O PCD também é um ativo da empresa, tem que gerar retorno para o negócio como qualquer colaborador. Compete a empresa criar um ambiente de relacionamento interpessoal para evitar constrangimentos e criar um ambiente físico que permita a acessibilidade. Os dirigentes da empresa devem passar para o RH a missão de criar políticas para integração e patrocinarem as ações. O deficiente que se sentir prejudicado pela empresa, pode recorrer ao setor de fiscalização do Ministério do Trabalho”, fala a conselheira da ABRH-SP, Fátima Farias.

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