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Minha história


"Conheci 92 países gastando pouco e ajudo mulheres a fazerem o mesmo"

Arquivo pessoal
Gilsimara Caresia no Caminho de Santiago Imagem: Arquivo pessoal

Beatriz Santos e Marina Oliveira

Colaboração para Universa

2018-08-18T04:00:00

18/08/2018 04h00

Gilsimara Caresia, 38, é jornalista e turismóloga. Começou a viajar sozinha aos 22 anos e nunca mais parou. Já esteve em 92 países que não lhe renderam apenas as fotos de sua conta no Instagram, mas maturidade emocional e coragem para mudar de carreira. Hoje, ela é dona de uma agência que organiza excursões de viagens com autodescoberta só para mulheres. Os roteiros são para locais como a Índia, onde ela ficou por nove meses, e Santiago de Compostela (Espanha). A seguir, ela conta um pouco de suas vivências. 

"Faço parte de uma família humilde. Nunca tivemos aquela experiência de viajar em família para o exterior. Morávamos na Praia Grande, litoral sul de São Paulo, então, nossas férias eram ali na praia, mesmo, e pronto. 

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Aos 22 anos, eu já trabalhava em banco e juntei um dinheiro para trocar de carro. Então, minha mãe sugeriu que eu fizesse uma viagem para fora do país, em vez de gastar no carro. Na época, minha melhor amiga tinha se mudado para Portugal. Decidi fazer um mochilão por alguns países europeus e me hospedar na casa dela. Fiquei um mês viajando e conheci Portugal, Itália, França e Espanha. A partir daí, viajar se tornou um propósito de vida. 

Trabalhei no banco por 17 anos e, viajando apenas durante as minhas férias, eu conheci 50 países. Eu sempre otimizei o dinheiro: se dava para ir por terra, eu ia. Já fui para o Peru de ônibus, com dois amigos e uma garrafa de rum. Também já saí de Manaus e fui para a Colômbia de barco onde eu dormia em rede. Fiz a América Latina toda por terra. Se eu tinha que pegar aéreo, eu usava milhas. Cansei de dormir em rodoviária ou comprar passagens de viagem durante a noite para poder dormir a viagem, porque eu não tinha hotel ou hostel para ficar. Nunca fiz roadtrip mesmo, que é alugar um carro e sair dirigindo, porque o gasto para fazer esse tipo de viagem sozinha é muito alto. 

Em 2015, eu estava bastante estressada e desanimada com a vida profissional. Eu cheguei onde eu queria, mas uma hora aquilo ficou vazio. Como era concursada, tirei uma licença não remunerada para dar a volta ao mundo. Planejei ficar um ano viajando, mesmo sem saber se o dinheiro ia dar. Acabei viajando por dois anos. 

Arquivo pessoal
Gilsimara em excursão organizada por ela Imagem: Arquivo pessoal

Comecei por Londres e aí fui decidindo na hora os próximos destinos --eu usava muito o site Skyscanner, que busca voos em promoção. Eu escolhia o lugar mais barato e ia. Fiquei sete meses na Europa, depois fiz Ásia, Oceania e África. Quando cheguei na Austrália, eu voltei e fiz China e Filipinas. No final da viagem, reuni 40 países.

A primeira vez que eu saí do país eu não falava nenhum idioma, além do português. Cheguei a estudar em escola de inglês por seis meses, mas tive que parar porque minha mãe não conseguia bancar. Hoje, porém, sou fluente em espanhol e inglês por causa das viagens e porque eu gosto de assimilar culturas, então, leio muitos livros em outras línguas e também vejo filmes. Como eu também trabalhei em outros países, o contato com outras línguas é o tempo todo, e eu fui me desenvolvendo. 

Sobre se colocar no lugar do outro

Viajar é criar empatia por um povo que você não entedia antes, perceber como as pessoas pensam e mudar a própria perspectiva. Na Rússia, por exemplo, me falaram mal das pessoas, mas, quando eu cheguei lá, precisava pegar um trem, só que não achei caixa eletrônico internacional e eu não tinha um centavo na carteira. Parei uma russa perguntando se ela podia me ajudar a encontrar o caixa mais próximo. Ela se ofereceu para pagar meu trem, em vez disso. Quando cheguei no destino final, ela ainda desceu comigo e me ajudou a achar um caixa, não para que eu pudesse pagá-la, mas para que eu não ficasse ali naquela situação. Foi incrível da parte dela.

Na China, quando precisava de ajuda, eu parava as pessoas na rua, falando em inglês e, por mais que eles não entendessem nada, tiravam o celular do bolso e usavam o tradutor para se comunicarem comigo. E sempre me ajudavam! 

Viajar me fez entender que, apesar de eu me considerar independente, eu preciso das pessoas e isso não afeta a minha autonomia. 

O encantamento pela Índia

Arquivo pessoal
Gilsimara no Taj Mahal Imagem: Arquivo pessoal

Já fui seis vezes para a Índia, só este ano já estive lá duas vezes. A primeira vez foi para ir atrás do Sri Prem Baba [mestre espiritual], queria conhecê-lo e participar do festival das cores [o Holi é uma das festas mais populares da Índia e acontece anualmente entre fevereiro e março]. Fiz alguns cursos de autoconhecimento e, quando acabou o meu tempo de visto, eu estava viciada no aprendizado que a Índia traz. 

Um brasileiro que eu conheci era figurante em Bollywood e me chamou para participar de um filme. Trabalhei por cinco dias e, ao final, um agente perguntou se eu não queria fazer o que ele fazia, quer dizer, chamar pessoas para figurar nos filmes. Eu aceitei. Eu ficava na rua falando com as pessoas. Foi um aprendizado, porque eu aprendi a ouvir 'não'. Imagina o que é você andar pelas ruas chamando pessoas para serem figurantes de um filme? Muitas nem param para te ouvir. E eu precisava disso, precisava aprender a lidar com negativas, para praticar e aceitar os 'nãos' da vida. 

A índia me tirou da zona de conforto, jogou na minha cara um espelho para mostrar todos os preconceitos que eu tinha, o quanto pessoas menos favorecidas que eu conseguem viver de forma boa e sem reclamar. Eu tive receio no início, claro, mas, hoje, eu levo mulheres para conhecer o país com a minha agência de turismo. 

Desenvolvimento pessoal

Arquivo pessoal
Gilsimara no Monte Everest Imagem: Arquivo pessoal

Eu sempre me considerei muito masculina, sabe? Não no sentido de orientação sexual, mas porque eu relacionava o masculino com ser durona, algo que sempre admirei em mim. Mas quando fui para o Nepal, eu reconheci a força do feminino. Andei sozinha por dez dias para chegar na base da montanha Annapurna. E pensei: se eu cheguei até aqui, eu chego no Everest. E, de fato, depois eu cheguei na base do Everest. 

Eu entendi que a mulher não é frágil. Eu precisava reconhecer a minha força como feminina e também quebrar a ideia de que as mulheres são chatas, são sempre competitivas umas com as outras e que não aguentam determinadas situações. Eu confrontei tudo isso nessa experiência. 

Há quatro meses, tive o desfecho desse entendimento. Voltei da Etiópia, onde subi um paredão com um cara, e lembro de ele me perguntar se queria mesmo subir, que seria uma subida difícil e eu encarei, tranquila. Quando descemos, ele disse que eu era a mulher mais forte que ele tinha conhecido. Nada paga ouvir isso. 

Quer viajar sozinha?

Para planejar uma viagem, depende de como você quer viajar. Tem que escolher os gastos que quer ter. Eu, por exemplo, viajava de Blablacar [aplicativo para encontrar caronas de longas distância], que na Europa bomba há muito tempo. Cheguei a fazer uma viagem de 12 horas com carona. Todas as viagens que eu faço são meio que um mochilão. Eu vou meio sem rumo e me ajeito pelo lugar, mas isso não quer dizer que essa seja a única e mais correta forma de viajar.

Eu tenho duas irmãs. Uma delas consegue fazer uma viagem de quatro meses gastando X e, com a mesma quantia, a outra faria uma viagem de apenas um mês, e isso não está errado. Cada pessoa tem que viajar como gosta. Eu gosto de passar perrengue e me desafiar, mas nem por isso todos têm que ser assim.

Eu acho que as mulheres que pensam em viajar sozinhas não têm que apressar nada. Se ela não se sente pronta para viajar para perto ou longe, não vá. Comece de maneira confortável a lidar com isso: vá ao cinema sozinha! Ações pequenas já fazem a maior diferença. Se questione sobre os seus medos, é diferente ter medo de sentir que não está pronta. Tem que identificar o que é medo real e o que medo emocional. 

Outra dica importantíssima é: só dê ouvidos para quem já foi, ouça experiências reais, esses, sim, vão saber te contar o que você irá ou não experienciar. Vão existir depoimentos diferentes? Sim. Cabe a cada pessoa analisar se vale a pena ou não."

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande um resumo do seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.