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Minha história

"Minha mulher morreu 10 dias após o parto e eu crio minha filha sozinho"

Arquivo pessoal
Daniel com Nina: tutoriais no youtube para arrumar o cabelo da filha Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

14/08/2018 04h00

O missionário Daniel Ferreira, 30, foi da alegria ao luto ao comemorar a chegada da filha e a morte da esposa, Juliana de Almeida, dez dias depois do parto. A missionária sofreu um aneurisma e teve morte cerebral aos 28 anos de idade. Aqui, ele fala sobre a perda da mulher e os desafios de ser pai solo:

“A gravidez da Juliana não foi planejada, foi uma surpresa quando descobrimos que ela estava de três meses. Ela fez o pré-natal certinho, mas na fase final da gestação, ela teve pressão alta e intensas dores de cabeça. Ao completar oito meses, ela teve um pico de pressão e foi internada. A Nina nasceu prematura no dia 11 de abril de 2016.

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Estávamos felizes com a chegada dela, nossa família estava completa. Minha esposa estava adorando a maternidade. Um dia antes de sofrer o aneurisma, ela me disse que estava tudo ótimo, que tinha aprendido bastante coisa sobre os cuidados com o bebê.

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Imagem: Arquivo pessoal

No dia 19, eu viajei de Natal para Fortaleza com um amigo para buscar a minha sogra, que ficaria conosco por alguns meses para ajudá-la. Antes de sair, eu percebi que ela estava cansada e abatida. Ela disse que tinha acordado de madrugada para amamentar. Ela me abraçou, me beijou e me desejou boa viagem.

No caminho, eu liguei para saber como elas estavam, a esposa do meu amigo -- que tinha ficado com elas -- falou que a Juliana estava dormindo e não acordava. Ela se mexia, mas não abria os olhos. Eu liguei para o meu pai, ele chamou o SAMU e eles foram para o hospital. Eu entrei em desespero, fiquei aflito, mas meu pai me tranquilizou falando que ela estava tendo acompanhamento médico, que era para eu seguir a viagem. À noite ele me ligou pedindo para eu voltar o quanto antes, porque a médica precisava conversar comigo.

Após a morte da minha esposa, tive medo de não conseguir ser pai

Nós voltamos para Natal e eu recebi a notícia de que ela tinha sofrido um aneurisma. Fui visitá-la, peguei nas mãos dela e fiz uma oração. A médica me explicou o caso e disse que ela não tinha chances de sobreviver. Dois dias depois um laudo confirmou a morte cerebral. Era como se alguém tivesse amputado as minhas pernas. Estava vivendo um pesadelo.

Me ajoelhei e pedi a Jesus para me dar forças para cuidar da minha filha. Eu pensava que eu não ia conseguir ser pai. Eu tinha medo do futuro. Não conseguia ficar sozinho com a Nina, porque pensava na minha esposa e sentia falta dela. Deus foi confortando meu coração e as coisas foram melhorando.

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Imagem: Arquivo pessoal

Precisei adaptar minha rotina para cuidar da Nina. Consegui uma licença da faculdade de Música e tinha horários mais flexíveis do meu trabalho como missionário na ONG JOCUM (Jovens Com uma Missão). Minha mãe e minha madrasta me ensinaram a dar banho, mamadeira, a trocar roupa e fralda. Minha sogra se mudou para Natal para ajudar na criação da neta.

Também assumi os afazeres domésticos. Lavo roupa, limpo a casa, vou ao supermercado. Para cozinhar, procuro receitas na internet, peço ajuda nos grupos de WhatsApp e ligo para algumas pessoas pedindo dicas. Eu sigo à risca as orientações da nutricionista e da pediatra da Nina.

Brinco de boneca e assisto tutoriais para arrumar o cabelo da Nina

Eu e a minha filha passamos a maior parte do tempo juntos. Ela está com dois anos e quatro meses. Nos divertimos bastante. A gente desenha, brinca de massinha, assiste TV, canta, brinca de boneca. Eu vejo tutoriais no YouTube para arrumar o cabelo dela. É difícil ser pai solo. Procuro fazer o meu melhor, mas admito que não tenho as mesmas habilidades e superpoderes que as mulheres têm.

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Imagem: Arquivo pessoal

Meus maiores desafios na paternidade são questões relacionadas à vaidade e ao corpo. A primeira vez que eu arrumei a Nina para sair, coloquei uma calça jeans e uma blusa preta. Uma pessoa a confundiu com um menino e disse meu filho era lindo. Uma outra situação foi quando ela saiu das fraldas e eu não sabia a direção correta para higienizá-la quando ela fazia xixi e cocô. Um dia ela apontou para os mamilos dela e perguntou o que era. Eu expliquei e ela olhou para o umbigo e falou que tinha três peitinhos. Falta um referencial feminino a ela.

Desde pequena eu mostro fotos e falo para ela que a mamãe Juju está no céu. Teve uma fase em que ela me chamava de mãe porque via as outras crianças chamando as mães e as imitava. Agora ela sabe que eu sou o papai.

Minha missão como pai é criar minha filha para ser independente e sábia

No início, foi difícil eu me interessar por uma outra pessoa. Imaginava que nenhuma mulher iria querer se relacionar com um homem viúvo e com uma filha. Achava que ia ficar solteiro para sempre. Há oito meses conheci a Emely e começamos a namorar. Ela é missionária na mesma ONG que eu. Temos planos de nos casar no ano que vem.

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Daniel, Nina e atual namorada dele, Emely Imagem: Arquivo pessoal

Eu nunca vou desempenhar o papel de mãe para a Nina, mas como pai, tenho um amor inexplicável por ela e a missão de criá-la para ser uma menina de respeito, independente, segura e que tenha sabedoria para discernir o certo do errado”.

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