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Minha história

"Tive minhas fotos espalhadas na internet por páginas anti-feministas"

Laura Reif

Colaboração para Universa

13/08/2018 04h00

Desde o início de 2017, a estudante de 22 anos Amanda Longatti tem que lidar com suas fotos pessoais sendo usadas na internet por páginas que promovem ódio ao movimento feminista. “Eu sou mundial. Acho que está na hora de virar youtuber e ganhar dinheiro com isso”, brincou a estudante de obstetrícia da USP (Universidade de São Paulo), quando descobriu que seu rosto está circulando em páginas anti-feministas em vários países por aí (Brasil, Estados Unidos, Rússia, Romênia, Ucrânia e Austrália são alguns deles).

Amanda, que é de Jundiaí, município do estado de São Paulo, está correndo atrás de terminar o curso superior na Itália e já teve o dia a dia interrompido por conta desse tipo de exposição pelo menos três vezes. Entenda a história no depoimento abaixo.

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“A primeira vez que essas fotos foram postadas não foi em uma página ‘anti-feminista’, não que eu tenha visto. Na verdade, foi em uma página chamada ‘Antes e Depois da Federal’. O intuito da publicação, ao mesmo tempo que era de desmerecer e desmoralizar o movimento feminista, tinha também essa pegada de mostrar como a gente muda depois da faculdade pública. Do tipo: ‘As pessoas entram na faculdade pública, se tornam feministas e o feminismo faz com que elas se tornem feias.’

Arquivo pessoal
A estudante postou foto durante processo de descoloração dos cabelos com corte que era novo na época Imagem: Arquivo pessoal

Logo que a publicação surgiu, reuni uma galera através de grupos feministas e da universidade e conseguimos tirá-la do ar até que tranquilamente. Era assim: uma foto minha, na qual estava superdentro dos padrões, com cabelo comprido, vestindo uma calça jeans e uma blusinha normal, ao lado de outra na qual eu estava no meio de um processo de descoloração de cabelo. Ele estava amarelo e eu estava parecendo, sei lá, um Super Sayajin [da animação japonesa Dragon Ball Z. Na história, personagens ficam com o cabelo loiro quando atingem certo nível de treinamento físico].

Quando as fotos foram publicadas, eu fiquei muito chateada. Não por mim, mas fiquei chateada pelas outras meninas. As postagens em que minhas fotos apareciam contam com vários ‘antes e depois’, expondo outras garotas. Eu sabia que grande parte delas pode não ter uma boa aceitação do corpo e de si, como eu. Isso pode destrui-las. Na real, era uma foto que eu postei zoando e estava de cabelo curto, descolorido.

Não faço ideia de como conseguiram minhas imagens, porque uma das fotos estava no meu Instagram, que é trancado. Acho que deve ter alguém por trás da página que me segue no Instagram. E aproveitaram-se dessa foto para desmerecer, desmoralizar e rebaixar o movimento feminista. E eu sempre deixei muito claro, em todas as redes, que sou feminista.

Eu descobri a publicação na ‘Antes e Depois da Federal’, em janeiro de 2017. Naquela época, eu achava que tirar do ar era a solução, então salvei as imagens para fazer uma denúncia, mas percebi que era muito complicado esse lance de processo com crimes virtuais, ainda mais porque eu teria que localizar o dono da página.

No mesmo ano, essas fotos caíram num programa de auditório norte-americano. Eu fui parar nos Estados Unidos! Por causa de uma foto idiota. O lance era mostrar esse ‘antes e depois’ como se fossem ‘culpa’ do feminismo. Um amigo que descobriu e mandou o link com o vídeo, mas não o tenho mais. Infelizmente, não lembro o nome do programa e admito que quando vi o teor dele, não assisti. Acho que não aumentar o número de visualizações é sempre a melhor saída. Tanto na internet, quanto no programa, o conteúdo era exatamente o mesmo, com as mesmas fotos, e havia fotos de outras meninas.

Após derrubar os primeiros posts por meio de denúncias no Facebook, a publicação com minhas fotos ressurgiu, agora em 2018, em uma página chamada ‘Anti-Feminismo’. 

Arquivo pessoal
A montagem que circula por vários países mostra uma foto antiga, à esquerda, ao lado da foto que Amanda postou brincando durante o processo de descolorir os cabelos Imagem: Arquivo pessoal

Admito que já estava cansada de lutar contra o inimigo, por isso resolvi ‘me unir’ a ele, e fiz um comentário no post com um agradecimento por eles estarem aumentando minha fama -- mas claro que era uma zoeira.

Resolvi compartilhar essa história em grupos do Facebook como o LDRV [‘Lana Del Rey Vevo’, grupo voltado ao público LGBT] e grupos feministas, pedindo ajuda com comentários positivos, de como, na verdade, eu havia ‘melhorado’. Não sei se as pessoas denunciaram o novo post, porque eu não denunciei. Acredito que o próprio moderador acabou excluindo minhas fotos, pois fui bloqueada pela página.

A publicação teve um alcance de umas mil curtidas e, apesar de ter me exposto dessa forma, nunca sofri ataques dos seguidores. Acho que a força e a união que nós temos, feministas e movimentos igualitários, é muito maior do que esses caras que seguem essas páginas e acredito que a maioria deles tem medo de se expor, principalmente após ver tudo que conseguimos fazer juntos. Tentaram desmoralizar um movimento com as minhas fotos, que não estavam dentro do padrão. Logo eu, que já tinha deixado de me importar.”

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