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Violência contra a mulher

"Vivo relacionamento abusivo, mas, por vergonha, nunca contei para ninguém"

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A mulher em relacionamento abusivo não vê como uma opção terminar com o homem Imagem: iStock

Marina Souza*

Colaboração para Universa

11/08/2018 04h00

A jornalista Marina Souza (cujo nome foi alterado para sua própria segurança) vive um relacionamento abusivo há quatro anos. Hoje, longe dele, ela tenta evitar a tentação de responder as mensagens que ele manda e acredita que pode sair disso sem envolver a polícia. Abaixo, trechos de sua história. 

"Eu o conheci num restaurante, há quatro anos. Achei que ele me convidaria para dormir com ele – e eu recusaria. Mas mesmo meio bêbado, ele foi um gentleman: abriu a porta do taxi para mim, pediu meu telefone e me mandou pra casa. Depois de 30 minutos, meu celular tocou com uma mensagem romântica. Eu pensei: conheci O cara. De manhã, um doce “bom dia”. Pela tarde, “aproveite seu almoço”. Ao entardecer, “como foi o dia no trabalho”. Apesar de eu ter meu próprio apartamento, a casa dele parecia tão acolhedora. O carinho só crescia – ele cozinhava, limpava, arrumava.

Tomei um golpe da vida

Decidi me mudar com uma amiga para um apartamento menor – já que mal ficava no meu. Assinei o contrato, paguei todas as taxas. Ela acompanhava o desenrolar da minha relação e não gostava da velocidade das coisas, mas sabia que não podia falar nada. Eu não queria sequer ouvir. Acontece que ela desistiu do negócio, incomodada com meu namoro. E, quando fui pedir ajuda para ele, a máscara caiu.

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Estava deprimida, buscando uma solução para fazer a mudança e bancar o lugar sozinha – e queria, na verdade, que ele me chamasse para morar com ele. Ele cansado, com todo o poder de um tirano. As humilhações começaram, porque ele sabia que estava dominando. A essa altura, já tinha me afastado dos amigos e vivia só para ele. No dia da mudança, a primeira agressão clara: ele de ressaca, acordou reclamando que teria que me ajudar. Eu chorei de medo. “Nossa, que saco, você é muito depressiva”. Durante a mudança, jogava minhas malas e caixas como se fossem lixo. Acabou perdendo a chave do carro. Gritou, xingou e disse que eu era imprestável.

Eu fingia não ver

Naquele momento, ainda tinha um pouco de força e respondi de volta: “eu não preciso de você!” Entrei na minha nova casa, fiz algumas ligações e, em menos de vinte minutos, amigos vieram me ajudar. Ele espionava de fora e voltou com a postura de príncipe: pediu desculpas, disse que estava com a cabeça quente e que eu era o amor da vida dele. Engoli os meus sentimentos e perdoei. Ele me ajudou com o resto com a mesma má vontade, mas eu fingi não ver. E assim foram os próximos meses: brigas horrorosas, gritos, xingamentos. Quando eu estava pronta pra partir, ele voltava, pedia perdão e eu desculpava. Era uma dança com meus sentimentos, que me deixava confusa e me fazia acreditar que eu era a louca da história. Para não ser julgada, mantinha muitos detalhes de fora quando contava para minhas amigas. Afinal, aprendi em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. 

Drogas sempre foram um tabu

No começo do namoro, ele me disse que sempre usou cocaína, mas que desde que me conheceu tinha perdido a vontade de usar. Só descobri que ele estava mentindo muitos meses depois, em uma viagem com amigos. Eles ficaram surpresos que eu não soubesse que ele ainda era viciado. Ele já tinha tomado cerveja o suficiente para achar que eu estava me insinuando para um amigo dele. Me puxava de canto e falava coisas horríveis – eu era puta, não tinha senso, era inconveniente, que as minhas atitudes o envergonhavam. Cansada daquela tortura, pedi ajuda aos amigos dele. Ninguém fez nada. Então, decidi pedir desculpa para todos por algo que eu não fiz, mas exigia saber a verdade: “você continua cheirando cocaína?”. Ele negou, todos riram e falaram que era mentira. Nesse dia, descobri a pior personalidade dele. 

Ele quebrou a porta do meu quarto

Quando todos foram dormir, ele não se conteve. Quebrou a porta do meu quarto, arrancou a minha coberta e me xingava. Desequilibrado, atirou minhas coisas por todos os lados e tentou arrancar o colchão para me punir. Gritei muito e os amigos dele apartaram. Aquele foi meu limite e terminei a relação pela primeira vez. Não foi fácil: por mais que eu pedisse para não falar com ele, ele mandava mensagens, telefonava e aparecia nos lugares em que eu estava. Eu precisei de suporte, então foi a primeira vez que um psicólogo disse que eu vivia numa relação abusiva.
Estava me reconstruindo, cheguei até a marcar de sair com um cara do trabalho. Ele percebeu que estava me perdendo mesmo. Pediu para me encontrar pela última vez para conversar e acertar as coisas. Apesar de estar muito certa de que eu não queria, eu fui. Não consigo falar não para ele. O encontro foi em uma praia que nós frequentávamos muito e durante a nossa caminhada ele me deu flores. À beira mar, ajoelhou e me pediu em casamento. Aceitei. Fui fraca. Me envergonho, mas ali senti as esperanças florescerem.

Nunca dividi o que ele fazia por vergonha

Ele realmente mudou, por dois meses. Foi ao psiquiatra, fez curso de drogas e se afastou dos amigos. Então entendi que era a minha vez de mudar – mais. Parei de sair com meus amigos novamente. Achava que a mulher tinha de abaixar a cabeça para os homens. Mudei para a casa dele e lá não podia dizer nada. Eu tinha meu armário e só. Tudo que eu fosse comprar para a casa, tinha que pedir permissão. Se eu quisesse comer algo bem saudável, tinha que ser com o meu dinheiro. Ele dizia que eu não sabia cozinhar ou limpar. E, como um ciclo, me vi em depressão de novo. Várias brigas: ele me trancou para fora de casa, quebrou porta-retratos, me apertou e sacudiu e me deixou toda marcada... Nunca dividi isso com ninguém por vergonha, por medo e por me sentir humilhada. Cadê aquela mulher independente que tinha o próprio apartamento?

Ele tacava meus sapatos na minha cabeça

Um dia saí do trabalho e liguei para ele, mas ele não queria dizer onde e com quem estava. Em casa, o celular da empresa dele, que estava na sala, tocou e eu, desconfiada, fui olhar. Era uma foto dele abraçado com uma garota e outros amigos em volta. Fiquei enlouquecida. Liguei pra ele e falei que dormiria com o primeiro cara que visse na frente. Na verdade, só peguei minha mochila e fui chorar na casa de uma amiga. Adormeci no sofá dela e acordei com 15 mensagens, dois e-mails e cinco ligações perdidas.

Aprendi alguns palavrões que nem conhecia. Ele colocou todas as minhas coisas em sacos de lixo e deixou na porta. Fui buscar em silêncio, certa de que eu seguiria em paz. Quando ele viu que eu iria seguir, virava minhas gavetas em cima de mim, tacava meus sapatos na minha cabeça. Meu computador e meu Ipad foram arremessados. Eu pensei: dessa vez chega.

Arrumei um novo apartamento e em uma ótima localização. Minha terapeuta indicou um grupo de mulheres que sofrem do mesmo tipo de abuso. A luta é diária para não responder as mais de 20 mensagens que ele manda por dia, as constantes ligações e o tanto que ele curte tudo que eu posto. Não venci ainda. Estou curando cicatrizes que não aparecem no meu corpo, mas estão dentro de mim. Trabalho com meus pensamentos para acreditar que eu sou capaz, para que eu possa perdoá-lo no futuro e que eu consiga amar outra pessoa sem ter medo de ser machucada.

Somos julgadas

As mulheres não saem de um relacionamento abusivo porque para elas não é uma escolha. Estão presas ao abusador por vários motivos - financeiros, legais, emocionais. Eles nos  ameaçam. Eu me identifiquei muito quando a advogada (Tatiane Spitzner, que morreu ao cair da sacada do prédio) começou a correr do marido (Luis Felipe Manvailer). Pelos vídeos que me forcei a ver, ela estava muito brava tentando se defender. Até que ele explode e ela percebe que está correndo um risco real. Me vi na situação, fiquei com medo. No meu caso, não consigo ligar para a polícia. Mas ainda acredito que ainda possa sair bem dessa. Eu sei o que preciso fazer, só preciso seguir."

* o nome da jornalista foi alterado por questões de segurança