menu
Topo

10 Perguntas

Tifanny Abreu: estreia na política, maternidade e prazer após cirurgia

Roberto Pallu/Arte UOL
Imagem: Roberto Pallu/Arte UOL

Luiza Souto

Da Universa

10/08/2018 04h00

Tifanny Abreu, primeira jogadora de vôlei transexual do Brasil, tem duas novidades: candidata ao cargo de deputada federal pelo MDB, ela conta nesta entrevista que, se eleita, vai propor leis que incentivem o turno integral nas escolas, e que, nesse turno estendido, uma parte será reservada para o esporte e outra, para a cultura. Além disso, na vida pessoal, a atleta conta que está acompanhando pesquisas internacionais sobre o transplante de útero para corpos de mulheres trans.“Eu e meu namorado queremos criar filho com amor e valores”, diz ela.

Honestamente, você se sente preparada para o cargo?
Sim. Eu já tinha a intenção de entrar no meio político, porque gosto de me envolver com as pessoas. Estou me preparando, me reunindo, em Bauru, onde moro, com jornalistas e políticos da cidade. Vamos marcar também uma reunião com as mulheres do partido, com núcleos LGBTs, pessoas negras e indígenas para ouvir as necessidades mais urgente. Agora, se não der certo, sigo estudando para a próxima eleição

Veja também

Qual são as suas propostas?
Estou focada na inclusão das minorias na educação e no esporte. Pretendo sugerir leis que incentivem o turno integral nas escolas, e que, nesse turno estendido, uma parte seja reservada para o esporte e outra, para a cultura. Ainda quero brigar por leis contra a homofobia e a transfobia, que faltam no Brasil.

Estou focada na inclusão das minorias na educação e no esporte

Por que escolheu o MDB, que é um partido imerso em denúncias de corrupção e que, além, disso, tem um presidente que muitos acusam de golpe contra Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente do país, e que não tem mulheres em seu ministério?
O partido é só uma sigla para mim. As pessoas têm que olhar para o candidato. E foi a porta que se abriu e fui bem recebida. Falam que não é um partido de inclusão, que tem pouca mulher, mas penso que, estando lá, posso ajudar a mudar esse quadro. Não vou falar bem ou mal do presidente. Não vai mudar nada e tenho que respeitá-lo. O que posso dizer para o eleitor é que olhe também o vice, porque às vezes, ele não é bom. Se me perguntarem se deveriam ter feito novas eleições, digo que sim.

Você acha que foi chamada para a disputa só porque é mulher – e os partidos precisam ter a cota mínima de 30% delas?
Não sinto isso. E se pensar que vou ser usada, vou me rebaixar e mostrar que não sou capaz de promover mudanças. Quem está entrando como vice, por exemplo, tem a oportunidade de ser a primeira.

Você sofreu muito preconceito nas quadras. Isso deve aumentar com a política. Tem alguma estratégia para se proteger?
A mesma estratégia que sempre tive: segurar nas mãos de Deus e pedir proteção. Preconceito e discriminação vão existir sempre. Agora, depende do ataque que eu sofrer. Posso processar se for uma agressão, por exemplo.

Roberto Pallu
Tifanny Abreu é candidata a deputada federal pelo MDB Imagem: Roberto Pallu

Já pensou que pode ter problemas com a bancada evangélica?
Fui criada por mãe católica e avó evangélica. Sei que muitos evangélicos são pessoas de fé, do bem. O problema são os extremistas. Tenho que saber com quem vou me conectar.

Se ganhar a eleição, você terá de largar o esporte. Tudo bem?
Sim, mas vou tentar conciliar atuando como voluntária em escolas de base. Tenho 33 anos e tomo hormônio feminino todo dia. Meu corpo está caindo de nível, então, jogaria por mais três anos, no máximo. Sonho em estar na seleção brasileira, mas ela já está com uma ótima equipe, com mulheres que já deram bons frutos como a Natália e a Fernanda Garay. Eu seria só mais uma. As pessoas não sabem, mas meu nível é totalmente o de uma mulher. Tanto, que não consigo acompanhar a equipe se não treinar igual a todas as outras atletas. Nem acredito que consegui jogar com rede masculina. Hoje, não consigo.

As pessoas não sabem, mas meu nível é totalmente o de uma mulher

Você passou por uma cirurgia de feminização facial, em maio. Como foi?
Quando fazemos a transição tardia, os ossos do rosto estão mais fortes, com a aparência masculina acentuada. E essa cirurgia pode ser feita de duas formas: um “embonecamento”, algo como o que o Michael Jackson fez, que te transforma totalmente em outra pessoa, ou mantendo o seu eu, mas reforçando traços femininos, que foi meu caso. Levantaram a pele do meu rosto e lixaram os ossos da testa, do queixo e nariz, para diminuir os ângulos. Também diminuíram o tamanho da minha testa, aumentaram as maçãs do rosto, rinoplastia e preenchimento labial. Senti incômodo nos dois primeiros dias – e não dor, porque tomava remédios - e, duas semanas depois, já estava fazendo praticamente tudo.

Pretende fazer outras modificações?
Sim, mais duas. Ganhei, de uma clínica na Coreia, uma cirurgia para deixar a voz mais fina, encurtando as cordas vocais. Isso preocupa muito toda a mulher trans. As pessoas ligam e te chamam de senhor. É triste. Sobre a outra cirurgia, li que pesquisadores estão tentando uma forma de transplante de útero para corpos de mulheres trans para que possamos ter filho. Espero que seja verdade, porque quero ser mãe. Se for, quero fazer sim. Estou na espera dos nossos cientistas. A cirurgia de redesignação sexual, eu já fiz.

Pesquisadores estão tentando uma forma de transplante de útero em mulheres trans para que possamos ter filho. Espero que seja verdade, porque quero ser mãe

Quais foram suas alegrias depois dessa cirurgia?
Quando me vi completa, foi uma alegria tão grande. Assim como fazer o primeiro xixi sentada e passar a mão pelo corpo durante o banho e sentir leveza. E tenho muito prazer nas relações sexuais com meu namorado (o alemão Alexander Siegwardt). Na primeira vez, não tive prazer. Estava nervosa demais, senti dor, tive sangramento. Eu e o Alexander pensamos numa família, quando eu estiver aposentada e ele, terminado o doutorado de engenharia. Queremos ter tempo para criar nosso filho com amor e valores.