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Violência contra a mulher

Como a Nice, de 'Segundo Sol': "Meu marido não me deixa trabalhar"

Reprodução/TV Globo
Mulheres relatam viver mesma situação da Nice de 'Segundo Sol' Imagem: Reprodução/TV Globo

Luiza Souto

Da Universa

08/08/2018 04h00

O casal Agenor (Roberto Bonfim) e Nice (Elzy Ecard), em “Segundo Sol”, da Globo, vive aquelas tramas absurdas que levam o telespectador a pensar: “só mesmo em novela”. Mas não. Como o garçom que proíbe a mulher de trabalhar e ainda exige que ela faça toda a tarefa doméstica, mães de família revelam que esse tipo de relacionamento abusivo é mais comum do que se possa imaginar. Mas especialistas decretam: sempre há uma saída.

Caso da paranaense Esther*, de 33 anos. Mãe de três filhos (de 17, 15 e 11 anos), ela sequer sai de casa desacompanhada. Se o fizer, o marido chega minutos depois no local onde foi vista. É uma vigilância quase que em tempo integral, segundo ela.

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O argumento do homem, um funcionário público, é o de que Esther o trairá caso saia. E se trabalhar fora, lembra ela, o marido a acusa de descuido com a família. Até internet já cortou para afastá-la dos aplicativos de mensagem e redes sociais. 

Para ganhar seu próprio dinheiro, começou a pintar panos de prato, fazer biscuits e enfeitar potes de vidro. O marido não gostou. Chegou a bater algumas vezes em sua cabeça “para não deixar marcas”. A solução que encontrou foi fazer tudo escondido. Uma amiga de Esther aproveita quando seu marido não está para buscar o trabalho para clientes. Conhecidos cedem material. Parece coisa de novela: Nice fazia quentinhas para fora escondida também. Quando o marido descobriu, jogou fora toda a comida.

Esther diz que não se separa por medo de passar necessidade. Abusada na infância pelo padrasto, não pode contar com ajuda da mãe e hoje tira R$ 200 com o trabalho.

“Então vou relevando, acreditando que ele vai mudar um dia. Estou num psicólogo porque já não aguento mais essa situação. Sou depressiva e tentei me matar duas vezes, tomando veneno para rato”.

Marido comia doces que mulher vendia

Camila*, de 34 anos, diz que quase morreu de crise nervosa após incessantes brigas com o marido, com quem está há 12 anos. A história é a mesma: ele também implica com seu trabalho, hoje como vendedora, porque se acontecer algo com os filhos, de 10 e 6, será sua culpa. Mas ao contrário de Esther, ela enfrenta o homem:

“Ele sempre arruma um problema. Quando trabalhava em loja, reclamava do horário que eu chegava. Passei a vender doces caseiros para ficar em casa e ele comia ou estragava o material.  Numa das nossas discussões ele me empurrou com o bebê no colo e nós dois caímos”.

Com o marido desempregado e sem ajuda para pagar as contas, Camila seguiu trabalhando. Argumentou que não queria mais depender dos amigos “para dar fralda, leite, tudo para os bebês”.

“Mas essas brigas vão me debilitando. Recentemente saí carregada de uma empresa onde estava trabalhando e cheguei ao hospital com uma suspeita de infarto. Fui dopada! E assim vamos diariamente!”, relata Camila, que também não se separa, conta, por não ter para onde ir com as crianças.

Dá para dar a volta por cima

A paranaense Nilza*, de 31 anos, aconselha: “não se vitimize. Procure ajuda”. Por quatro anos, ela viveu violência psicológica do pai de sua filha, de 2 anos, e resolveu não mais passar por isso. Hoje está prosperando nos negócios e perto de conseguir abrir seu ateliê. "Vivi muito a situação da Nice", lembra ela.

Quando se casou, aos 26, Nilza foi convencida pelo companheiro a largar o emprego numa loja de roupas para cuidar da casa. Ela tem ainda um menino de sete anos, de outro relacionamento.

Também saiu da academia onde malhava porque o companheiro tinha ciúme. Passou a fazer trabalhos de artesanato em casa, mas ele também não aceitou pelos mesmos motivos já relatados acima: ela tinha tarefas domésticas a cumprir.

“Ele queria que eu fosse a empregada dele. Tinha que estar em casa para fazer comida. Senão ele me xingava e comprava marmita só para ele!”, relata.

Nilza buscou ajuda num grupo religioso. Também conversou com a mãe. Deu um basta na relação no fim de fevereiro deste ano e hoje sustenta a família com os produtos que vende numa feira da cidade e também pela internet:

“Quem passa por isso precisa procurar ajuda, porque sozinha é quase impossível. Eu tive medo de passar dificuldade, mas tem que enfrentar, sair da posição de vítima e tomar as rédeas da vida”.

Nos últimos capítulos de "Segundo Sol", Nice enfrentou o marido e começará a trabalhar no restaurante de Cacau (Fabíula Nascimento).

É preciso reconhecer a violência

Pesquisadora do tema sobre violência contra a mulher, a psicanalista Paula Prates explica que a vítima precisa, em primeiro lugar, reconhecer que está sofrendo uma violência, física ou moral, para em seguida procurar ajuda. Pode ser numa terapia, delegacia ou assistência social. "Todos esses lugares são portas de entrada", avisa ela, que atende mulheres e coordena a rede de saúde mental “Inconsciente Real”, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo.

"Às vezes, a pessoa cresce numa família onde ocorre o mesmo problema, o que gera um conformismo. A violência naquele meio já está banalizada. Dizer que a situação é violenta não é uma coisa óbvia, nem é a solução, porém já é um início", ressalta a profissional.

Paula atenta que existem serviços especializados no atendimento à mulher, inclusive públicos. A questão é que alguns não oferecem um atendimento qualificado, o que pode atrapalhar ou retardar a resolução do problema, mas a mulher deve seguir tentando todos os caminhos possíveis.

Perita em Vara de Família, a psicóloga e psicanalista Renata Bento também ressalta a importância de apoio psicológico, familiar e de amigos, além de esclarecimentos sobre os direitos que a mulher tem. Para evitar cair uma cilada como essa, Renata entrega sinais que o homem dá.

“É importante notar como o homem se relaciona com o feminino, perceber se as características dele em lidar com a mulher estão relacionadas à essência dele ou se ele as utiliza somente para seduzir. Não é fácil, mas é possível”, aponta Renata, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

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