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Direitos da mulher

"Sofri aborto espontâneo e fui humilhada pelos médicos"

Lúcio Távora/UOL
Izilda Lúcia Veiga, 63 anos, Alessandra Primo, 38 anos, Vera Regina Ramos, acompanham audiência sobre aborto no STF (da esq para dir) Imagem: Lúcio Távora/UOL

Talyta Vespa

Da Universa, em Brasília

03/08/2018 15h44

Após sofrer três abortos espontâneos, a química Alessandra Primo, de 36 anos, entendeu que "a saúde pública não está ao lado da mulher". "Nas três vezes em que abortei, só descobri que estava grávida quando comecei a sangrar. Corri para um hospital público com hemorragia, mas fui humilhada pelos médicos. Me tratavam com descaso e desprezo", conta Alessandra, que organiza o Festival Pela Vida das Mulheres, em Brasília, como parte dos eventos que acompanham as audiências a respeito do aborto no STF. 

"Nesses momentos, eu imaginava o que passavam as mulheres que realmente induziam o aborto. É uma questão de saúde pública e se tornou uma causa pela qual eu luto". Depois das gestações malsucedidas, a pernambucana deu à luz um casal de gêmeos. "Amo meus filhos, mas as mulheres precisam ter o direito de decidir com segurança. Hoje, eles lutam comigo. Quero formar indivíduos conscientes".

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O Festival Pela Vida das Mulheres espera reunir duas mil manifestantes até segunda-feira (6). Duas delas são a cozinheira Vera Regina Ramos, de 62 anos, e a auxiliar de cozinha Izilda Corrêa Veiga, de 63. Elas vieram sem a aprovação dos filhos. "Tenho um casal. Minha menina tem 35 anos e me apoia em todos os movimentos dos quais eu participo. Já meu filho, de 30, é contra a legalização do aborto e também contra a minha militância", afirma Vera.

Mas ela não se importa. "Ele acha que como sou velhinha, tenho que ficar em casa assistindo a novelas e cuidando da família. Que nada. Meu lugar é aqui. Mesmo se tiver pancadaria, eu tô dentro".

Lúcio Távora/UOL
Imagem: Lúcio Távora/UOL

As manifestantes precisaram deixar as bandeiras e bandanas a favor da legalização do aborto do lado de fora da sala onde acontece a audiência pública, no STF, pela ADPF 442. "Não deixaram a gente entrar vestida de feminista", ri Izilda. "Olha que a gente ainda nem tirou a roupa", continua. Apesar de animadas, as três mulheres não têm esperança de que o aborto seja legalizado e seguro no Brasil. "Enquanto houver uma bancada fundamentalista e evangélica, não conseguiremos ter espaço. Misturar política e religião é um erro", diz Izilda, que se diz espírita. "Tenho minha fé e acredito em Deus. Mas aborto não tem que ter a ver com religião. É pela vida das mulheres".

Segundo Alessandra, o procedimento abortivo em uma clínica especializada, hoje, custa em torno de R$ 8 mil. "Quem tem dinheiro paga, quem não tem, morre. É a mulher pobre que continua morrendo no Brasil", afirma. 

Lúcio Távora/UOL
Imagem: Lúcio Távora/UOL