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Mulheres inspiradoras

Conceição Evaristo pode ser a primeira negra a ocupar uma cadeira da ABL

Joyce Fonseca/Divulgação
Conceição Evaristo Imagem: Joyce Fonseca/Divulgação

Veridiana Mercatelli

Colaboração para Universa

03/08/2018 04h00

No dia 30 de agosto, acontece a eleição da Academia Brasileira de Letras para ocupar a cadeira de número 7, que tem como patrono Castro Alves, conhecido como o poeta dos escravos. É a esse lugar que Conceição Evaristo concorre. Se for eleita, será a primeira mulher negra a entrar para a ABL --homens negros a casa já teve alguns, a começar por Machado de Assis, o primeiro presidente da Academia. Aos 71 anos, Conceição Evaristo é uma das escritoras de maior referência no país e traz à tona em sua obra questões raciais e de gênero, tão antigas quanto necessárias a serem debatidas.

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Nascida em uma favela em Belo Horizonte, Conceição cresceu em uma numerosa família e foi criada pela mãe e pela tia. Tomou gosto pela literatura a partir da fala e não da escrita. Ela ouvia histórias dessas mulheres, muitas da época da criação. Mais tarde, na escola, se apaixonou pelos livros. Ao decidir ser a primeira mulher de sua família a ir para a faculdade, precisou conciliar os estudos com o trabalho de empregada doméstica. Já morando no Rio de Janeiro, formou-se em Letras na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e começou a dar aulas. Tornou-se mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Seu primeiro livro, “Ponciá Vicêncio”, foi publicado em 2003. Depois disso, vieram outros cinco, entre romance, poesia e contos: “Becos da Memória”, “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, “Histórias de Leves Enganos e Parecenças”, “Poemas da Recordação e Outros Movimentos” e “Olhos d’Água”, com o qual, em 2015, ganhou o Prêmio Jabuti.

Joyce Fonseca/Divulgação
A escritora Conceição Evaristo Imagem: Joyce Fonseca/Divulgação

Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016, a escritora protagonizou um protesto coletivo contra a ausência de escritores negros na programação principal. Em 2017, contudo, foi homenageada na mesa de encerramento do evento e também foi tema de uma grande exposição, a “Ocupação Conceição Evaristo", feita no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, em São Paulo. Este ano, ela voltou à Flip e é de lá que conversa com o Universa, por telefone.

Em que momento você decidiu se candidatar a uma cadeira na ABL?

Quando se iniciou um grande movimento de apoio a mim na redes sociais. Tomei mesmo essa decisão porque pressupõe-se que qualquer pessoa que seja brasileira e tenha publicado um livro tem direito a se candidatar. Então, como brasileira que sou, com seis livros publicados, um Prêmio Jabuti, com obras traduzidas para espanhol, inglês e francês, me considero cumprindo os requisitos.

Quando percebeu que deveria seguir a vida como escritora?

Somente aos 44 anos, a partir do momento da minha primeira publicação. É quando vejo que a recepção ao meu texto foi muito boa. A partir daí que eu começo a crer que o que eu escrevo poderia atingir outras pessoas.

Diferentemente de muitos autores, não foi ao ler que você se encantou pela literatura, certo?

O primeiro contato que tive com a literatura foi por meio de contações de histórias da minha família. Então, não foram os livros, foi com muita fala. Depois, chegou o momento da escola. Ali, sempre gostei de escrever histórias, gostava dos livros infantis e dos próprios livros didáticos.

Você foi a primeira da sua família a ir para a universidade. Ao chegar lá, se identificava com o que aprendia na academia?

Não. Ao fazer a leitura das obras brasileiras e contaminada pelo discurso ideológico negro, eu sempre tive um senso crítico, que ficou mais apurado à medida que eu vejo obras com personagens negras. Há obras da literatura em que a construção da personagem negra não me sensibiliza. Algumas até me sensibilizam, mas não me sinto representada nessas obras. São obras em que ou o negro está ausente ou, quando se encontra, ele aparece estereotipado.

Pode dar um exemplo?

A Gabriela, do Jorge Amado. Era uma mulher negra, cujo único dote é sexual ou fazer comida. Na obra de Rubem Fonseca, “A Grande Arte”, vamos encontrar um personagem que me chama atenção, José Zakkai, que é um sujeito anão, negro, mas que não tem como modelo de fala um personagem negro.

Você acha que a situação do negro no Brasil, principalmente da mulher negra, vem mudando de alguma forma?

Podemos pensar numa mudança lenta, mas que vem acontecendo, sim. Mas acontece por força das demandas populares, por nossos próprios condicionamentos. Se formos depender do Estado brasileiro, temos um problema, pois ele nunca cumpre se a gente não apresentar as nossas demandas. E, mesmo assim, há uma falta enorme entre o que se pede e o que se realiza. Essa conquista gradativa se dá unicamente pelos nossos esforços.

O que é preciso ser feito para quitar a dívida histórica do Brasil com o negro?

Uma das formas de quitar esta dívida seria a formulação de políticas públicas para as comunidades negras, voltadas para a educação, a saúde e, também, na área de lazer.

Quais autores negros contemporâneos você lê e recomenda?

Tem uma autora de que gosto muito, que é a Geni Guimarães, que escreveu “A Cor da Ternura”. Também gosto muito de Lívia Natália, que escreve poesias. Além de Cristiane Sobral e Lia Vieira. Já os escritores homens, gosto e recomendo Allan da Rosa e Salgado Maranhão.