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Encontro de Mulheres Matemáticas, no Rio, discute falta feminina na área

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Comitê organizador do Encontro Mundial de Mulheres na Matemática realizado hoje, no Rio de Janeiro; Carolina Araújo (terceira da esq. para dir.) é a representante brasileira Imagem: Divulgação

Camila Brandalise

Da Universa

31/07/2018 08h44

Mulheres matemáticas publicam 25% dos trabalhos da área no Brasil. A porcentagem, de acordo com informações do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil é baixa. A surpresa, porém, é que em países como os Estados Unidos, ela é de 20,7%. 

No Brasil, entretanto, os sabidos problemas ligados à ciência, têm efeito ainda maior sobre as matemáticas mulheres. Para discutir questões como essa, a pesquisadora Carolina Araujo, única mulher entre os 50 membros do Impa, ajuda a promover hoje o Encontro Mundial de Mulheres na Matemática, ou o World Meeting for Women in Mathematics, no Rio de Janeiro. 

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Carolina aponta dois entraves iniciais para a a maior inclusão de mulheres na ciência exata: segundo ela, apenas 15% das bolsas de estudos do governo via CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) são para mulheres.

“Falta iniciativa do governo, mas também, das próprias mulheres que, por insegurança, não se inscrevem nos concursos para solicitar o auxílio”, diz a pesquisadora. 

Para o Encontro, se alistaram 390 matemáticas, de cerca de 50 países. O evento antecede o Congresso Internacional de Matemáticos, que também começa esta semana, no Rio. O evento, que ocorreu também em 2010 e 2014, este ano, terá foco importante nas discussões de diferenças de gênero na ciência.

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A pesquisadora Carolina Araujo Imagem: Divulgação/Impa

“É preciso insistir na diversidade porque, quanto mais heterogêneo um grupo de pesquisa, mais eficiente ele é”, diz. “Na ciência, quando surge um problema, precisamos pensar em várias possibilidades e, com diferentes pontos de vista, e trabalhando juntos, a solução aparece mais facilmente.”

Falta de incentivo na educação básica

Diversos pedagogos investigam o fato - muito claro, segundo Carolina - de que professores de Matemática dão mais atenção aos meninos na sala de aula, enquanto garotas, escutam que o tema “não é para elas”. “Desde muito cedo, o desempenho é influenciado por comportamentos sociais e culturais.”

Um artigo da revista Science publicado em janeiro de 2017, por exemplo, ilustra esse quadro. Na pesquisa, crianças de 5 a 7 anos foram submetidas a um teste. Elas tiveram que responder de qual gênero era uma pessoa hipotética, muito inteligente e que conseguia resolver problemas rápidos. Com 5 anos, meninos e meninas apontavam que a pessoa era do mesmo gênero que eles. A partir dos 6, entretanto, metade das meninas disse se tratar de um homem. “São estereótipos de gênero que têm a ver com a ciência. A pessoa esperta é homem. Isso afasta a mulher da carreira desde pequena”, diz a pesquisadora

Medalhistas olímpicas

Mas há um esforço coletivo que, aos poucos, tenta mudar esse cenário. Em abril deste ano, quatro adolescentes brasileiras participaram da Olimpíada Europeia de Matemática para Garotas. Voltaram com duas medalhas de prata e duas de bronze.

A viagem foi bancada pela SBM (Sociedade Brasileira de Matemática) e pelo Impa, com o objetivo de incentivar a participação de garotas em competições da disciplina, dando o exemplo das medalhistas. Apesar de ainda serem poucas, já é o dobro de 2017. 

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Participantes brasileiras de olimpíada internacional de matemática; Mariana Quirino (terceira da esq. para dir.) ganhou a medalha de bronze Imagem: Divulgação/Impa

“Sempre vi olimpíadas internacionais como algo inalcançável”, afirma Mariana Quirino de Oliveira, de 17 anos, que ganhou uma das medalhas de bronze. “Esperava uma menção honrosa. A medalha me pegou de surpresa”, diz a adolescente, que agora se prepara para prestar o vestibular para o curso de medicina.

Gênero, raça e ciência

Quando o recorte da participação feminina é feito também em relação à raça, o número é ainda menor.

Não há dados específicos para matemática, mas no campo das ciências exatas e da terra, que inclui outras áreas como física e química, a quantidade de pretas e pardas com bolsa do CNpq é de 1,69%.

A professora do Instituto de Matemática e Estatística da UFBA (Universidade Federal da Bahia) Manuela da Silva Souza relata a dificuldade de ser minoria no meio acadêmico. “No meu departamento, somos quatro negras em um total de 70 professores”, diz. “Quando me destaco, dizem que é por sorte ou simpatia.”

“Uma vez, organizei um evento de pós-graduação e foi um sucesso. Um colega de trabalho me disse que só consegui realizá-lo porque sou muito simpática”, relembra. "Mas, na verdade, foi porque sou muito competente”, diz Manuela, que começar o pós-doutorado em álgebra, no próximo mês. 

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