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Disponibilidade emocional: entenda o problema que atinge todas as mulheres

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Disponibilidade com moderação é o segredo para o equilíbrio Imagem: iStock

Letícia Rós e Veridiana Mercatelli

Colaboração para Universa

28/07/2018 04h00

“Eu me casei e vivi um relacionamento em que eu era cobrada o tempo inteiro para estar sempre bem, sorridente. Minha filha nasceu e a coisa ficou mais séria, pois tinha cobrança da família toda --a minha e a dele-- para que eu sempre estivesse disponível para todos. Quando minha filha completou três meses, descobri que o fulano tinha uma outra família em outra cidade. Eu me mandei de volta para a casa da minha mãe e em momento algum pude demonstrar que estava sofrendo. Afinal, agora eu era uma mãe solteira ‘por opção’. Desse dia em diante, tive que me dedicar como profissional, mãe, filha, neta, irmã. Não tinha o direito de dias tristes, de reclamar nem de pedir ajuda. Na minha casa, depressão era coisa de gente que não tinha o que fazer, era uma desculpa. Até que um dia, saindo do trabalho, eu tive minha primeira crise de pânico. Não consegui entrar no ônibus para voltar para casa, chorei copiosamente por horas! Logo na sequência, descobrimos que minha mãe estava com câncer e ela morreu em três meses. Depois, minha filha teve alguns episódios de convulsão e eu continuei adoecendo mentalmente, porque queria abraçar o mundo e dar conta de tudo. Foram os piores dez anos da minha vida. Vivi um luto de mim mesma. Até que reencontrei um antigo namorado, psicólogo, que me ‘obrigou’ a me dar atenção. Ele me fez procurar um médico e estou há, pelo menos, cinco anos sem crises. Mas não foi fácil aprender a dizer ‘não posso’, ‘não quero’ e ‘hoje não estou bem’.” 

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O depoimento acima é de GabrielePaschoalin, 37 anos, analista de prevenção de perdas. A história dela, porém, podia ser a história da maioria das mulheres, ainda que em contextos diferentes. As mulheres “ganham” de presente, assim que nascem, uma obrigação natural de serem emocionalmente disponíveis. A ideia de que somos nós quem cuida, alimenta, oferece ombro para o outro chorar, além de ouvidos e ajuda (sempre!), é uma construção social, apesar de ser vista como algo natural. “Para a gente entender a ideia de disponibilidade emocional forjada como habilidade feminina, é importante pensar que isso está direcionado no processo de socialização. Desde crianças, somos instruídas a cuidar, a começar pelas bonecas”, fala a doutora em sociologia e professora da Universidade Federal do Ceará, Monalisa Soares.

A antropóloga e pesquisadora Mirian Goldenberg, professora da da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acrescenta: “Nós somos criadas em função do mito da maternidade e é muito difícil fugir desse modelo, porque quando a mulher tem outras opções, por exemplo, trabalha ou estuda muito, ou gosta de viajar, é acusada de ser egoísta, de pensar só nela”, explica

O papel materno também está associado ao estereótipo de mãe boa, paciente, calma, que perdoa, que é complacente. “Falo por experiência: a maternidade é uma dádiva, mas também é um sentimento de culpa o tempo todo”, diz a psicóloga Erika de Paula Ribeiro. “Tem a obrigação que a sociedade impõe e a obrigação que a gente se coloca, também. E é necessário pedir socorro, cobrar do pai, do responsável, que tem as mesmas atribuições”, fala psicóloga

Disponibilidade com moderação

Estar emocionalmente disponível significa doar tempo, atenção e real interesse para outra pessoa, sem expectativa de qualquer retorno a não ser o bem-estar de servir. “A disponibilidade emocional deve estar presente em qualquer tipo de relação sadia e equilibrada”, diz Edda Maffei, psicóloga clínica com especialização em terapia de casais e de famílias, da Clínica Spatium. O problema, no entanto, é a disponibilidade se tornar uma obrigação, porque sobrecarrega a mulher, que tenta dar conta de tantos papeis de forma perfeita. Adoecer nesse cenário, assim como aconteceu com Gabriele, do início do texto, é inevitável.

“Para mudar a situação, em primeiro lugar, a gente tem que ter consciência de que isso vai da cultura e não da natureza. E criar parcerias para cuidar e ser cuidada”, fala Mirian Goldenberg. Ou seja, estabelecer relações justas, em que a mulher também recebe o que dá.

A culpa por não estar sempre disponível pode aparecer. Nessas horas, Edda  Maffei tem o conselho perfeito: “É só se lembrar da instrução dada nos aviões sobre o uso da máscara de oxigênio: ‘Primeiro, coloque sobre seu próprio rosto e, depois, da criança ou dependente que a acompanha’”, fala.

É importante treinar o “não”, inclusive para os filhos. “O ‘não’, seguido de esclarecimentos, serve para os filhos compreenderem que a mãe também tem sonhos e vontades. É preciso também solicitar das crianças pequenas doações pessoais, como pedir um copo de água porque está cansada, lavar a louça de vez em quando, cuidar de animais e plantas. O exercício da disponibilidade, da doação da generosidade também se aprende em casa”, finaliza a psicóloga.