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"Mulher na polícia sofre mais que gay", diz líder de rede de policiais LGBT

Arquivo pessoal/Arte UOL
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Talyta Vespa

Da Universa

23/07/2018 04h00

O PM brasiliense Alexandre Dias é um dos coordenadores da Renosp, a Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBT, criada há oito anos para cuidar de casos que envolvem ameaças a agentes gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Com representantes em diversas áreas da corporação, como Polícia Federal, Guardas Municipais e Bombeiros, a rede conta com 100 inscritos e está em quase todos os Estados. O grupo se concentra em fazer pontes entre vítimas, ministérios públicos, Ministério da Justiça e corregedorias.

Adas ganhou destaque pela forte atuação em defesa do PM Leandro Prior, que foi filmado beijando um homem no metrô de São Paulo no mês passado e, desde então, sofre ameaças. “Além de policial, sou artista de circo. Por causa de fotos em que apareço caracterizado no meu Facebook, também fui humilhado e ameaçado”, conta o policial.

Na polícia, o “problema” não é ser gay, é parecer gay

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Por que diz que mulheres sofrem mais que gays na corporação?
Porque muitas são impedidas de assumir funções de comando, além de serem subjugadas por colegas homens. Com os gays isso acontece menos porque, na polícia, o “problema” não é ser gay, é parecer gay. Se “não der pinta”, o preconceito é menor. A situação das mulheres é ainda pior quando elas são lésbicas ou transexuais.

Arquivo Pessoal
Alexandre garante que preconceito vem das pessoas, não da instituição policial Imagem: Arquivo Pessoal

Onde mais vê preconceito claro contra mulher na polícia?

Na Polícia Militar, 70% dos cargos precisam ser compostos por homens; sobrando apenas 30% das vagas para agentes mulheres. Na minha opinião, essa proporção não deveria existir. O critério de seleção deveria ser o desempenho nas provas. 

Quais foram as principais conquistas da Renosp?

Conseguimos espaço para dar cursos para policiais, bombeiros e guardas municipais sobre transexualidade e como lidar com quem sofre agressão por ser da comunidade LGBT. Também estamos trabalhando muito para que sejam julgados os agressores de Walace Ferreira, o PM capixaba que, em junho, depois de postar fotos com o namorado, sofreu homofobia dentro da polícia.

O que deve acontecer ao soldado Prior?
Levamos o caso ao Ministério Público de São Paulo, à Secretaria Municipal de Direitos Humanos, e entramos em contato com as delegacias onde o Prior denunciou suas ameaças. Ele tem mais de dez páginas com xingamentos e ameaças que recebeu. Se conseguirmos a punição de metade dessas pessoas, vai ser muito. Além disso, ele vai ser processado administrativamente por desatenção – estava com o coldre da arma aberto e distraído. Sabemos que nada disso aconteceria se o caso envolvesse um casal heterossexual.

O que aconteceria, nesse caso?
Nada, porque ela nem teria sido filmada. Porém, caso o fosse, o processo administrativo teria de ser o mesmo.

Como a corregedoria age quando recebe denúncia por parte de um agente gay?
Na Polícia Militar, que é a que conheço mais, os agentes são atendidos como qualquer civil na hora de fazer a denúncia. O problema é que há funcionários que desencorajam esses profissionais a fazer a queixa, garantindo que ela não vai dar em nada. E, muitas vezes, o relato ainda é deturpado por quem escreve o boletim de ocorrência, numa tentativa de minimizar o crime. 

Apenas 30% das vagas nos concursos da PM são destinadas a mulheres

Diria que há um desinteresse das polícias em combater denúncias de LGBTfobia?
Sim. E esse desinteresse é fruto da visão de que falar de preconceito é bobagem. É um pensamento enraizado e a mudança exige mais energia do que elas estão dispostas a oferecer.

Arquivo Pessoal
Alexandre e a cachorrinha de guarda, Eva Imagem: Arquivo Pessoal

Que países são exemplos no modo correto de tratar policiais LGBTs?
Canadá, Inglaterra e Estados Unidos. Nesses países, é comum encontrar agentes de segurança LGBT; e há muitos relatos de respeito dentro do ambiente de trabalho. 

Qual a pior violência homofóbica que você sofreu?
Sou artista de teatro, e no meu Facebook há várias fotos minhas caracterizado. Elas vazaram em grupos de WhatsApp de policiais e fui humilhado, recebi xingamentos e ameaças. Porém, no meu caso, a equipe de policiais com quem trabalho me deu todo apoio e conseguimos punir os responsáveis.

Quais serão os próximos passos da organização?
Além de punir os agressores do policial Prior, queremos encontrar representantes nos únicos três Estados que ainda faltam, Piauí, Amazonas e Paraná. A rede começou no centro-oeste e está crescendo aos poucos. 

Pela sua experiência, qual é a porcentagem LGBT na segurança pública?
Impossível saber. As pessoas não se assumem nem na sociedade, que dirá dentro das forças de segurança.