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Direitos da mulher

Brasileiras: não abaixem as armas, diz deputada argentina a favor do aborto

Arquivo pessoal
A descriminalização do aborto é uma bandeira que Victoria carrega mesmo antes de ter entrado para a política. "Milito por ela desde que me entendo por mulher" Imagem: Arquivo pessoal

Natacha Cortêz

Da Universa

16/07/2018 04h00

A deputada Victoria  Donda Pérez é a voz mais pujante no Congresso argentino quando o assunto é a descriminalização do aborto. Ela teve papel fundamental na votação, na Câmara dos Deputados, que decidiu que as mulheres podem abortar até a 14ª semana de gestação. Atualmente, o procedimento só é permitido no país em casos de estupro e risco de vida à mãe. O projeto deverá ser votado no Senado no dia 8 de agosto, e se passar, segue para sanção presidencial. Mauricio Macri já disse que não se oporá à decisão dos parlamentares.

No discurso de quase dez minutos que antecedeu seu voto, Victoria, que é membro do partido de esquerda Libres del Sur, disse que só podia estar ali, “enfim discutindo a criminalidade do aborto, graças a pressão de mulheres que madrugaram na frente da Praça do Congresso, a favor da vida e da escolha das argentinas". Mencionou ainda a escritora canadense Margaret Atwood, autora do livro “O Conto da Aia”, adaptado na premiada série "The Handmaid’s Tale”, uma distopia em que mulheres são vistas apenas como úteros reprodutores. Por causa da fala, ganhou o apoio de Margaret à campanha pelo aborto legal. 

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Victoria é filha de guerrilheiros de esquerda desaparecidos na ditadura (1976-83). Quando bebê, foi entregue para adoção a um dos agentes que participaram da morte de seus pais. Ela tem 40 anos e, aos 26, por meio de uma análise de DNA, descobriu sua verdadeira identidade e decidiu participar do processo que levou seu pai adotivo à cadeia, onde está até hoje.

A descriminalização do aborto é uma bandeira que ela carrega mesmo antes de ter entrado para a política. “Milito por ela desde que me entendo por mulher.” No Congresso, Victoria é a parlamentar que apresentou o maior número de projetos que olham para as mulheres e pessoas LGBT. Ela credita o feito ao movimento Ni Una Menos, o maior grupo feminista da Argentina, e do qual ela faz parte.

A deputada deu a seguinte entrevista, por email, à Universa.

Universa: Argentina e Brasil estão em momentos parecidos no assunto aborto; tratando o tema em instâncias de poder. Nós, em audiência pública no STF (nos dias 3 e 6 de agosto) e vocês, em votação no Senado (no dia 8 de agosto). Como vê esse paralelo? 
Victoria: Na Argentina, tivemos dois meses de audiências públicas, passamos pela Câmara dos Deputados e agora estamos indo para o Senado. Vocês começam a falar do assunto agora. Ele é urgente, não importa o país em que a mulher viva. Fico feliz de saber que ele será discutido no Brasil. Aqui, foi preciso muita luta popular para que o projeto fosse analisado em uma instância de poder. Diria às mulheres brasileiras que não abaixem suas armas; não importa o que aconteça. Nossas sociedades podem e devem ser mudadas. A América Latina está viva e depende de nós modificar o estabelecido. É inexorável: as mulheres continuarão a avançar na luta por uma sociedade mais igualitária.

No Brasil, o aborto ainda é um tema tabu e a descriminalização é rechaçada pela maior parte da sociedade e do Congresso; majoritariamente conservador e religioso. O cenário é o mesmo na Argentina? 
A religião tem peso na Argentina, mas talvez, não tanto quanto no Brasil. E nosso Congresso não é tão religioso quanto o de vocês. De qualquer forma, a igreja aqui tenta exercer pressão para que seus dogmas prevaleçam. Mas desde o início, esclarecemos que essa era uma discussão sobre saúde pública e não sobre crenças religiosas. Sempre digo que os pensamentos religiosos pertencem a cada um e que não podem ser impostos.

Apesar das dificuldades, o projeto avançou para a Câmara dos Deputados. Ao que atribui esse sucesso? 
Ao grande trabalho que temos feito com os coletivos de mulheres. Pressionamos fortemente a Câmara e não desistimos nem por um minuto. Por outro lado, é possível que o governo tenha usado o barulho que rende essa votação como uma forma de fugir da difícil agenda econômica e dos problemas que tem tido para governar. 

Qual será a estratégia para que o projeto passe no Senado? 
A enorme pressão popular [mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Buenos Aires durante a votação no Congresso], mais a expressiva votação dos deputados devem sustentar uma boa resposta do Senado. Continuarei a participar de palestras públicas por todo o país e a visitar governadores, explicando o projeto e suas implicações. Se a lei não passar no Senado, continuarei lutando.  Ninguém pode parar um impulso que vem do povo e, especialmente, de novas gerações.

Acha que essa movimentação argentina pode influenciar o Brasil?
A "maré verde" [nome dado ao movimento de mulheres pela descriminalização do aborto naquele país] é um fenômeno político e social impossível de ser parado e que nos projetará para a América Latina. Espero que todos os países sintam nossa força. Aproveito a oportunidade para enviar minhas condolências à família e amigos de Marielle Franco, um grande política e verdadeiro exemplo para todas nós.

Há quem diga que se o aborto for aprovado na Argentina, brasileiras correrão para realizar o procedimento aí. Concorda? 
O que acredito, é que é lógico, é que enquanto o Estado condenar a mulher e decidir sobre seu corpo, ela vai buscar em outro lugar o exercício dos seus direitos. Sempre esclarecendo que o aborto é uma decisão difícil e dolorosa para muitas mulheres. 

Você fez aborto?
Nunca precisei recorrer a um aborto. Porém, se fosse preciso, faria. Sou mãe de uma garotinha. Escolhi tê-la. Sempre achei que o aborto deveria ser gratuito, oferecido em hospitais públicos, e que não fosse visto como crime. Por trás do conceito de crime, há um pensamento quase medieval, conservador. Esse pensamento diz à mulher que o corpo não é dela, que ele é simplesmente um recipiente para ter filhos e que prazer e desejo não devem ser considerados. Por todas estas razões e porque temos de derrubar esses chauvinistas, que alimentam sociedades cheias de preconceitos, desigualdades e estereótipos, defendo a descriminalização do aborto desde que me entendo por mulher.

Qual é a importância do movimento Ni Una Menos?
T
enho uma participação ativa no grupo. E, por causa dele, no Congresso, sou a deputada que apresentou o maior número de projetos de gênero. Recebo permanentemente mulheres vítimas de violência sexual no meu gabinete. Isso se deve ao meu envolvimento com o Ni Una Menos também. O grupo é a base fundamental para estarmos discutindo a lei do aborto.

Qual o preço de ter se tornado o rosto desta causa no Congresso?
Não recebo ameaças diretas, mas muitos insultos nas redes sociais e enfrentei episódios violentos na rua, como o de pessoas me xingando. É a opinião cínica, daqueles que parecem ter descoberto agora que meio milhão de abortos inseguros são praticados por ano na Argentina, e tentam mudar o verdadeiro foco da discussão. Não é: aborto sim ou aborto não. É: aborto clandestino ou legal. Ninguém ‘concorda’ com o aborto. O que exigimos é que a mulher o faça em condições de segurança, sem que o Estado e a sociedade a criminalize por isso. 

Hermosas compañeras de viaje @lolafonca y @murielsanta.ana. Reportaje fotográfico: @mu.lavaca

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Você está viajando a Argentina ao lado de duas famosas atrizes, Dolores Fonzi e Muriel Santa Ana, pedindo pela descriminalização do aborto no Senado. Por que é importante tê-las ao seu lado? 
Atrizes famosas popularizam a causa e fazem com que mais pessoas olhem para o que estamos falando. Conheço essas atrizes há muito tempo, elas me acompanharam em outras iniciativas pelas mulheres. O patriarcado costuma dizer que as mulheres não podem se unir e lutar juntas. A experiência está mostrando que esse não é o caso. Atrizes, jornalistas, profissionais em geral e também estudantes e donas de casa, todas estamos juntas para defender nossos direitos. Tem sido empolgante participar desse movimento.

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