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Violência contra a mulher

"Como descobri um grupo de famosos que troca vídeos íntimos no whatsapp"

Getty Images
Imagem: Getty Images

Hélen Freitas

Colaboração para Universa

02/07/2018 04h00

“Se eu quisesse que todos aqueles caras vissem o vídeo, eu mostrava o meu corpo pra eles. Ele não tem o direito de chegar, me gravar e mostrar pra todo mundo.” Antônia* foi filmada durante o sexo sem perceber, e só descobriu que o conteúdo tinha circulado no grupo de WhatsApp dos amigos do seu ex em abril, quatro meses depois de ter sido gravada pela primeira vez.

A prática de revenge  porn - ou de disseminação não consensual de imagens íntimas - não é incomum. Mas, o caso dela, teve uma característica peculiar. Os vídeos foram parar em um grupo formado por 12 homens do Rio de Janeiro, que tem entre os seus integrantes atores da Globo, personal trainers, advogados e ex-participantes do "Big Brother Brasil" e do "De Férias com o Ex" (da MTV). 

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Os homens em questão têm entre 25 a 33 anos e segundo Antônia e uma outra mulher, que não quis ter sua história contada, o grupo traz regalias para seus integrantes como convites VIPs para festas e patrocínios. Para não ser expulso, o participante se submete a algumas regras que incentivam a disseminação de fotos desse tipo.

Uma delas, e talvez a principal, é que se um deles é visto ficando com alguém, tem de mandar foto da sua ficante. Outra, também "bem importante", é não vazar esse conteúdo para fora do grupo, para evitar processos.

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Antônia começou a desconfiar que tinha algo errado quando, no meio da transa com ex, viu que estava sendo filmada. Ele contornou a história dizendo que fazia aquilo por prazer, e que não iria mandar o conteúdo para ninguém. "Parte de mim queria muito acreditar nele, e outra tinha uma pulguinha atrás da orelha que falava: ‘desconfie, ele não tá falando a verdade’".

Um mês depois, Antônia conseguiu que um amigo, que fazia parte do grupo, confirmasse a história. Ela tinha sido exposta, assim como outras mulheres que se relacionaram com homens do grupo. "Se vazar a minha foto, muita coisa pode acontecer comigo, mas, querendo ou não, eu sou só mais uma, eu sou um número. Eles são os criminosos."


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Denúncias e processos

O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, cidade onde a história ocorreu, não soube informar quantas mulheres foram denunciar esse tipo de violência nos últimos quatro anos. Contudo, segundo dados da ONG SaferNet, que defende os direitos humanos na internet, 289 vítimas de disseminação não consensual procuraram a ajuda da organização somente em 2017, sendo que mais de 70% eram mulheres.

Antônia não fez o boletim de ocorrência. E não é a única que preferiu se preservar em um momento assim.

As advogadas Fernanda Nunes e Leticia Vella, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, afirmam que pouquíssimas mulheres fazem a denúncia devido ao ambiente hostil das delegacias, e menos ainda movem um processo. "Você precisa do fortalecimento para entender que não tem responsabilidade sobre aquele ato, e depois para encarar todo um procedimento que é revitimizador", comenta Letícia.

Esse tipo de ação só pode ser movida com a ajuda de um advogado num prazo de seis meses, empecilhos que fazem, segundo as advogadas, muitas mulheres desistirem do caso.

Apelando para o Google e Facebook

Hoje, além de as vítimas poderem pedir para que o Google, Facebook e outros provedores retirem o conteúdo do ar, seguindo o que foi determinado pelo Marco Civil da Internet, elas podem processar quem disseminou as fotos ou vídeos por injúria e difamação, crimes contra a honra da vítima.

Mariana Valente, diretora e advogada da Internet Lab, vê um sério problema nessa classificação. “Analisar se teve uma lesão à honra da mulher abre para uma questão de moralidade que é realmente o que a gente acha que tem que ser afastado em relação à sexualidade."

O PL 5555/2013, conhecido como Lei Rose Leonel e aprovado em março no Senado, pode trazer benefícios para as vítimas. Dentre as suas propostas está a de enquadrar o crime no capítulo de crimes contra a liberdade sexual, afastando o entendimento de moralidade.

Apesar de acreditar que as mudanças na Lei possam trazer uma série de benefícios para as vítimas, Mariana afirma que prevenir esse tipo de crime por meio de políticas públicas educacionais, por exemplo, pode ser muito mais vantajoso.

Procure ajuda

Desde que descobriu que seu vídeo foi divulgado, Antônia não consegue mais se relacionar com outras caras e começou a ter mania de perseguição. 

A advogada da Internet Lab pontua que fotos de homens e mulheres são vazadas todos os dias, mas há uma diferença no julgamento da sociedade: "As consequências para elas são mais graves. As pessoas não têm tanto interesse em disseminar fotos de menino e homens".

Fabiana Ratti, psicóloga e supervisora da parte de saúde mental do Coletivo Feminista, aconselha a vítima a se posicionar. “Não deixe que o outro destrua a sua vida, tente processar, ver seus direitos, procure tratamento, ajuda dos amigos e da família. Faça uma rede de proteção para si.”

Antônia, a única entrevistada que buscou ajuda psicológica, avalia: “as meninas precisam ter consciência que isso está acontecendo muito mais frequente que elas imaginam. Não sou eu que fui azarada, a minha questão não foi azar”.

* Nome fictício para preservar a privacidade da entrevistada

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