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"Por muito tempo, eu era a única negra no set", diz maquiadora de Hollywood

Divulgação
Marietta foi a primeira maquiadora negra a votar no Oscar Imagem: Divulgação

Helena Bertho

da Universa

01/07/2018 04h00

Além do sucesso, Whitney Houston, Angela Basset, Cindy Crwaford, Tina Turner, Janet Jackson e Samuel L. Jackson compartilham algo mais: todos eles já foram maquiados por Marietta Carter-Narcisse.

Nascida em Barbados, ela fez sua carreira como maquiadora em Hollywood a partir da década de 1980. Marietta assinou a maquiagem de filmes como "Ghost", "Jackie Brown" e "Malcom X". Devido a seu vasto currículo, foi a primeira maquiadora negra a ser jurada no Oscar --e a única durante 20 anos.

Ela veio a São Paulo a convite da Avon para ministrar uma aula de maquiagem e bateu um papo com a Universa sobre seu trabalho e racismo na indústria de cinema.

Universa: Quem foram suas inspirações no começo da carreira?
Marietta: Uau! Minha maior inspiração? Nunca pensei sobre isso... Quem eu provavelmente mais admirava era Bernardine Anderson, que foi provavelmente uma das primeiras. No cinema, os artistas de maquiagem eram todos homens. Acho que as primeiras mulheres a entrarem foram no meio da década de 1970. E aí veio a Bernardine, uma mulher alta e negra. Ela foi a primeira a entrar, depois veio a Ve Neil. Na época, mulheres eram cabeleireiras e os homens os maquiadores.

Foi difícil ser aceita como uma mulher?
Sim. Uma mulher, negra e estrangeira? Foi muito difícil. Havia muitos pioneiros à minha frente. E, quando eu comecei, na década de 80, Bernardine estava saindo do mercado. Então eu meio que estava por mim mesma. Muitos dos filmes em que eu trabalhei, a princípio, na maior parte do tempo, eu era a única pessoa negra no set.

Esse cenário mudou desde então?
O cenário está mudando agora. Porque agora nós temos muito mais atores com poder que podem dizer: "Eu vou incluir meu próprio maquiador no contrato". Antes, não tinha tantos artistas negros que poderiam escolher as pessoas para fazer sua maquiagem e cabelo. E meus colegas brancos nunca estavam preparados para fazer nosso tom de pele. E eles não iam além para aprender a fazer. Eles usavam só pó por pura preguiça. Algumas vezes, nem pó: "Ah! Deixe o brilho, vai ser melhor para a iluminação". Era tão louco, mas agora está mudando.

E na Academia do Oscar? Também está mudando?
São 20 anos que estou lá e só agora trouxeram mais uma pessoa negra.

Só uma?
A Academia é a área mais alta do que fazemos como artistas e, infelizmente, os requisitos para entrar são muitos. Você tem que ter sido chefe do departamento de maquiagem de uma certa quantidade de filmes, em uma quantidade específica de tempo. Então, muitos dos artistas negros trabalhando no cinema, apesar de terem um trabalho enorme, são pessoais de um ator. Quando a Academia olha para isso, eles não os veem como um indivíduo que dirige um departamento do filme. Eles são vistos como ligados ao ator.

Você acha que existe preconceito na área de maquiagem para cinema?
Eu precisei lutar muito, foi difícil... Você é tão facilmente categorizado... As pessoas veem a cor da sua pele e automaticamente querem te marcar como só uma artista negra que só faz pessoas negras. E, muitas vezes, eu tenho que dizer: "Você acha que artistas brancos só fazem pessoas brancas?". Eu não poderia estar na indústria por tanto tempo quanto estou se eu não pudesse maquiar uma pessoa branca. Infelizmente, a maioria dos artistas brancos não precisa aprender a fazer a pele negra, porque vão pegar o trabalho de qualquer forma. E é uma batalha constante para não ser categorizada como especializada. Se você se considera um make up artist, você é uma artista que, por acaso, é negra... Quero dizer: se for uma pessoa verde sentada na minha cadeira, eu faço pessoas verdes.

Você acha importante a presença de pessoas negras na Academia do Oscar?
Eu não sei se a minha presença ali significa alguma coisa. Porque a academia, o setor de maquiagem, todos os membros ali são homens brancos. Os mesmos que administram Hollywood.