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Ela escapou da pobreza e da violência doméstica e virou empresária nos EUA

Arquivo pessoal
Nana nasceu na periferia de Goiânia e cresceu com a ideia de que o empreendedorismo seria o caminho para mudar de vida Imagem: Arquivo pessoal

Marília Marasciulo

Colaboração para Universa

29/06/2018 04h00

Nana Maia, 31 anos, nasceu em um bairro periférico de Goiânia e cresceu com a ideia de que o empreendedorismo seria o caminho para mudar de vida. Hoje, ela sabe que estava certa. Há dois anos, mudou-se para Santa Clara, no Vale do Silício, onde fundou a 8 Heroes, uma startup que funciona como uma espécie de aceleradora de pessoas.

Usando técnicas de storytelling (contação de histórias, na tradução literal), a 8 Heroes ensina pessoas a melhorarem seus talentos para serem mais bem-sucedidas no ambiente corporativo e de inovação. “A gente quer simplificar a jornada de pessoas que vemos como heróis, não importa o cargo que elas ocupem”, explica. Com investimentos de US$ 380 mil e uma equipe de 17 pessoas, a 8 Heroes lançou o primeiro produto em maio passado. Agora, se prepara para receber novos investimentos.

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Filha de professores e líderes comunitários, Nana se envolveu com questões sociais desde cedo na comunidade onde cresceu, Jardim Nova Esperança, na periferia de Goiânia. Seus pais, Edson Lucas e Aldaiza Maia, criaram o Centro de Educação Comunitária de Meninos e Meninas, que tinha como objetivo melhorar as condições do bairro. Entre as iniciativas, estavam a primeira padaria “da comunidade, para a comunidade”, que empregava a população local, e oficinas de capacitação para cabeleireiros, manicures e costureiras.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O destaque, porém, foi a criação da escola Direito do Saber, em 1994. “As escolas do centro não queriam aceitar as crianças do Jardim Nova Esperança, pois diziam que tínhamos personalidade de risco”, conta Nana. Para garantir a educação das filhas e das outras crianças, eles fundaram a escola que tinha como base o ensino através de histórias. “Meus pais procuravam um jeito de tirar as crianças da rua, na época já existia a milícia, e eles enxergavam a educação como uma maneira de melhorar de vida”, diz. “Minha mãe deixava claro que estava me preparando para um papel de liderança e me estimulava a sonhar grande.”

Um caminho com muitos percalços

Mas o ambiente nem sempre era favorável a isso. “Às vezes, eu desanimava com o que presenciava na comunidade, como mortes de jovens e amigos sendo presos”, afirma. Em 2003, veio o principal baque, a morte de sua mãe. Aos 16 anos, Nana se viu em uma situação vulnerável. Na época, seu pai trabalhava como professor universitário na Pontifícia Universidade Católica (PUC), e ela chegou a cursar Direito e Relações Internacionais com uma bolsa de estudos. Aos 18 anos, porém, decidiu abandonar tudo e mudar para a capital paulista. “Eu achava que São Paulo era onde eu poderia aprender tudo o que eu precisava aprender”, conta.

Passou dois anos fazendo bicos em projetos de instituições sociais, com dinheiro contado. Após uma viagem ao Rio de Janeiro, onde entrou em contato com líderes comunitários da Cidade de Deus, sentiu que lá era seu novo lugar. “Em São Paulo, acabei muito automatizada. No Rio, me senti de volta para casa”, diz. Trabalhava como voluntária na comunidade e em uma produtora de shows e eventos. Em um deles, conheceu um namorado americano, que mudou completamente sua vida.

Aos 21 anos, apaixonada, se mudou para St Louis, no interior dos Estados Unidos, e em quatro meses estava casada. Uma semana depois, ele bateu nela pela primeira vez. Sem falar inglês direito e com poucos conhecimentos sobre imigração, Nana não sabia o que fazer para sair da situação. O ex-marido sabia disso e a ameaçava. Na época, porém, voltou seu foco para o trabalho para escapar da situação doméstica. 

Arquivo pessoal
Filha de professores, Nana se envolveu com questões sociais desde cedo na comunidade onde cresceu, Jardim Nova Esperança, na periferia de Goiânia Imagem: Arquivo pessoal

Até que, em um dos episódios de violência, ela saiu de casa. “Era isso ou ele me mataria”, lembra. Precisou brigar na Justiça para conseguir o visto de permanência no país e se divorciar (ele se negava a assinar os papéis). Aos 25 anos, divorciada, virou cidadã americana e escapou para Miami, pronta a recomeçar.

Cair para levantar

Diferentemente da experiência em São Paulo, agora Nana sabia melhor o que buscava: criar uma empresa para ajudar empreendedores, de preferência algo que lidasse com histórias, assim como faziam os pais. Ela pediu ajuda à melhor amiga, Moara Rayla, que havia se formado em psicologia. A amiga topou e se mudou para Miami. Juntas, elas começaram a pensar na empresa.

Até que, em 2016, seu amigo Rene Silva, um dos líderes comunitários que conheceu no Complexo do Alemão, convidou-a para conhecer o Vale do Silício com ele, que iria visitar o Facebook. “Conheci um mundo muito diferente do que achava que existia, as pessoas me mostraram o valor da minha história e das minhas experiências”, diz. Quando voltou para Miami, sofreu "o tombo necessário" para decidir mudar para a Califórnia. Nana caiu de uma escada, quebrou o pé e, no período em que ficou de molho, “acordou para a vida”, conforme explica. Ela e Moara venderam os móveis, juntaram US$ 300 e atravessaram o país rumo ao Vale do Silício.

Passou a dividir seu tempo entre trabalho voluntário em diferentes eventos da indústria tecnológica e como motorista de Uber e Zum, uma espécie de Uber para transporte de crianças. Pouco depois, ela recebeu o voto de confiança que precisava para continuar batalhando. Em evento da Google, Demo Day, ela conheceu Bobby Amiri e Dan Feld, executivos da empresa que a convidaram para participar do GSVlabs, programa de aceleração de startups e ideias. Nana passou seis meses recebendo a consultoria de mentores para tirar a ideia do papel e desenvolver a empresa. Também estudou e pesquisou mais a fundo histórias e como usá-las como modelo de ensino.

A luta continua

Em 2017, com o plano de negócios na mão, faltava um produtor de filmes que compartilhasse de sua visão de empreendedorismo e experiências pessoais. Um amigo a apresentou a Moysah, que topou o convite inusitado feito via WhatsApp tarde da noite. “Partiu Vale do Silício”, respondeu o atual co-fundador. Mas foi Nana quem voltou ao Brasil primeiro, onde passou dois meses planejando e montando uma equipe. Ela sabia que, embora o negócio fosse baseado nos EUA, queria compartilhar tudo com brasileiros

Com um investimento de US$ 380 mil de um jogador de futebol americano e de um engenheiro da Google, Nana, Moysah (que levou a família de mala e cuia) e mais 13 pessoas voltaram ao Vale do Silício e colocaram a mão na massa. O primeiro produto é uma web série que ensina habilidades pessoais como assertividade e oratória. A estratégia de monetização é a de assinaturas para as empresas, no estilo dos serviços de streaming, como a Netflix, que tem se mostrado viável, afirma Nana. Eles, agora, se preparam para receber um novo aporte de investimentos e já trabalham parcerias com outras mídias, como o podcast “Breaking Into Startup”, que prepara pessoas para empregos do futuro. Também querem expandir e traduzir o conteúdo para português, espanhol e outras línguas.

Para Nana, a luta não terminou, só que agora ela é outra, não mais por sobrevivência. Nesses anos todos, colecionou conquistas: o pai casou de novo e ela ganhou uma “mãe bônus”, que faz questão de mencionar e pedir crédito; realizou o sonho de ter sua própria empresa; coordena um time de 17 pessoas do qual tem orgulho da motivação e lealdade; mora em um apartamento bacana em Santa Clara, uma das cidades mais ricas dos EUA; e agora começou uma nova empreitada de retribuir tudo o que aprendeu com um grupo dedicado a ajudar mulheres latinas a entrar na indústria de tecnologia. Sim, ela recentemente voltou a dividir quarto e não, ela ainda não ganha salário, pois tudo o que recebe investe na empresa. Mas ambos são sacrifícios e desafios bem diferentes dos que ela passou —e a certeza de que está realizando seus sonhos e cumprindo sua missão fazem tudo valer a pena.

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