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10 Perguntas

Tati Bernardi: "Com amor, os homens são ótimos"

Juliana Linhares

Da Universa

21/06/2018 04h01

Tati é roteirista da Globo, colunista da Folha de S.Paulo, escreveu sete livros, cinco filmes e estuda psicanálise. Tem uma neném de quatro meses e meio e um marido que ela ama. Por tudo isso - mas com muito medo, ela avisa - pode escrever que "tem preguiça da palavra empoderamento", "que gosta do cheiro do chulé da filha" e que "não simpatiza com o discurso das amigas mais feministas". Essas e outras pérolas estão no livro "Homem-Objeto e Outras Coisas sobre ser Mulher", da Companhia das Letras, que ela lança no dia 26.

Universa: Você escreveu que sua filhinha, de quatro meses e meio, tem chulé, e que você adora esse cheiro. Apresente-nos outras bizarrices do amor de mãe.
Tati Bernardi: Gosto do cheirinho do cocô também. Teve um dia que ela estava com o nariz entupidinho e me falaram pra sugá-lo com a minha própria boca. Fui lá. Não saiu nada, graças a deus, mas fui lá. E chulé de filho é uma coisa maravilhosa. Tenho uma amiga que tem uma filha de 12 anos que, até hoje, quando a menina não está vendo, ela vai lá e dá uma cheiradinha na meia. É um azedinho do amor.

Com uma neném dessa idade, já deu para querer voltar a namorar o marido?
Não. Estou um pouco assexuada. Tem essa coisa da ‘natureza maravilhosa e sábia’, que toda minha libido está voltada para o bebê, mas o que tem, na real, é muito sono. Ela acorda a cada três horas, eu já voltei a trabalhar e tem esse susto, que é um neném em casa. Não entendi ainda como o sexo volta; mas ele voltará. Há fé.

As discussões sobre feminismo já estão chatas ou elas são necessárias?
Essas discussões são muito mais importantes do que a minha preguiça em ouvi-las. Tenho preguiça da palavra empoderamento, que já foi tão usada, mas eu que me dane. Estou trabalhando demais pra ter tempo de reclamar no Facebook que não me deixam trabalhar. Mas é importante que tenha todo esse movimento pra dizer que algumas mulheres não podem. Ai, como eu falo disso sem parecer uma escrota? É, talvez eu seja uma "eshhcrota".

Estou trabalhando demais pra ter tempo de reclamar no Facebook que não me deixam trabalhar.

Carine Wallauer/Universa
Imagem: Carine Wallauer/Universa

No seu livro, você diz “nunca simpatizei com o discurso das amigas mais feministas que parecem lutar contra a delícia que é viver em um país tão sexualizado”. Não teme uma grita com esse comentário?
Há dois meses, eu saía da terapia, em que eu tinha falado de como meu corpo é todo da minha filha agora, nessa fase de amamentação. Estava há quatro horas fora de casa, meus peitos estavam enormes e, indo pro carro, um cara olhou pra eles com um olhar de luxúria. Aquilo foi maravilhoso.

Ser paquerada é bom, o que é ruim é a grosseria. Contei pro meu marido, tava me sentindo uma gostosa, e a gente riu juntos.

Você também fala da “objetificação” de homens e mulheres, com um olhar crítico, de que em algumas situações, ser objetificado não é um problema. Levando o perfume dessa discussão para o trabalho, no que diz respeito às mulheres, por que somos parabenizadas quando usamos o cérebro para conseguir algo e não o somos, se usamos as pernas?
Durante muito tempo a gente foi parabenizada por usar a perna. O cérebro é que é mais novo nesse contexto. Quando eu trabalhava em agência de publicidade, me masculinizei nas roupas, com uma pegada ‘me deixa mostrar que sei ter ideia’. Hoje vejo que a gente não precisa ir por esse lado. Na real, eu queria ser mais sensual, mas sempre que coloco uma roupa sexy, fico fazendo piada pra compensar.

Você escreveu cinco filmes, sete livros, novelas, é roteirista da Globo, colunista da Folha de S.Paulo e estuda psicanálise. Mesmo com toda essa produção, ainda é acometida da síndrome do impostor?
O tempo inteiro. Fiz um monte de filme, mas penso, “ah, mas é tudo comédia; quando vou ganhar prêmio?”; escrevi um monte de livro, mas são crônicas, “quando vou escrever um romance?”. Fica a cobrança de quando vou fazer um trabalho pra valer. Mas enquanto isso, tô trabalhando pra valer.

Qual considera ter sido um grande erro na sua carreira?
Meu primeiro filme, “Meu Passado me Condena” (com Fábio Porchat e Miá Mello), fez sucesso, foram mais de 3 milhões de ingressos vendidos, e aí um monte de gente começou a me mandar roteiro, seriado. Deslumbrei e peguei tudo. Eu era uma só, o trabalho começou a ficar ruim e eu montei uma equipe de roteirista na minha casa. Mas os textos foram perdendo meu estilo e o “Meu Passado me Condena 2”, por exemplo, é pior que o primeiro.

Você zoa o que chama de Geração Mimmaddium, de jovens que “só entram num projeto que tenha a cara deles”, que “não nasceram pra ter chefe”, e que “têm pais ricos pagando a porra toda”. Essa geração é mimada mesmo ou a gente que tem inveja dela?
Total inveja. Mas tem outro lado. Tô obcecada com essas estilistas de 25 anos, do Instagram. Mando mensagem, perguntando onde compro os vestidos delas, e elas respondem: ‘só trabalho de terça a quinta, das cinco às oito, e essa semana é verde e eu não gasto oxigênio’. É uma geração que não puxa seu saco, que não quer vender, “sou artista e até prefiro que você não compre meu quadro’. Meu bode também é que eles pagam de desapegados mas têm aquele avô milionário, que tá bancando.

Você e seu marido dividem meio a meio os cuidados com a casa e com a filha?
Não. Sobra muito mais pra mim. O Pedro é maravilhoso, faz tudo que eu pedir. Mas eu preciso pedir. Ele é bacana, desde que chamado a. É engraçado, porque eu não sei cozinhar, a mãe dele também não, e mesmo assim, quando ele tá com fome, olha pra mim e pergunta “o que vou jantar?’. Não sei gato, é contigo.

Com amor, os homens são ótimos. Só não pode dizer ‘mostre-me do que você é capaz’, sem orientação, porque a coisa desanda.

Carine Wallauer/Universa
Imagem: Carine Wallauer/Universa

Isso é gracinha de cronista. Dividir a vida com quem se ama é muito bom. E vocês se amam, certo?
Muito. Todo dia a gente se olha e fala: “eu nunca vou conseguir te largar”, mas com muita raiva. Esse é o maior eu te amo que a gente fala pro outro.

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