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"Achei que só tocaria em comunidades", diz MC Carol antes de show em Berlim

Fernando Schlaepfer
Imagem: Fernando Schlaepfer

Nina Lemos

Colaboração para Universa, em Berlim

19/06/2018 04h00

“Que louco, né? Estou na Alemanha e aqui tem gente que quer ouvir as coisas da minha vida”. Quem diz isso é MC Carol, a funkeira feminista de 24 anos conhecida por hits como “100% feminista”, que conversou com a Universa, em Berlim, onde fez show. Carol recebeu a repórter em um hotel de um bairro descolado da cidade, antes de se apresentar em uma casa noturna para cerca de 500 pessoas, recebida como diva.

Apesar da calma, não tem dormido direito e anda tendo crises de choro. Motivo: há dois meses, sofreu uma tentativa de homicídio por parte de um ex-namorado (que a atacou com um facão na casa onde Carol mora sozinha). Nesta entrevista, a cantora fala, também, sobre a morte de sua mentora, Marielle Franco, com lágrimas nos olhos. “Ela era uma pessoa que te dava coragem.”

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Depois de cantar seus hits mais divertidos, como “Minha avó tá maluca”, duas meninas aparecem no palco segurando uma faixa onde está escrito “Marielle Presente”. Outra segura um cartaz com o dizer: “Facão não é lesão”, em referência ao ataque sofrido por Carol, que foi registrado como lesão corporal pela polícia. Leia abaixo a entrevista com a funkeira que já morou na rua, passou fome e, no início da carreira, era recebida com latas de cerveja pela plateia.


Universa: Você algum dia poderia imaginar que tocaria na Europa?
MC Carol: Mas nunca! Achei que, no máximo, tocaria em comunidades perto da minha [em Niterói, no Rio de Janeiro]. Eu escrevia histórias da minha vida em um caderno só de brincadeira. Imagina se eu imaginava cantar essas histórias na Alemanha?

O funk salvou a sua vida?
Com certeza. Não sei o que seria de mim sem o funk. Quando tinha 14 anos, saí de casa e fiquei sem luz. Era muita coisa na minha cabeça. Você não tem pai, você não tem mãe. Você não tem nada para comer. Aí comecei a pensar em fazer coisas erradas. Se não fosse o funk, não sei se eu estaria viva, não sei se teria entrado para o crime...

Aqui na Alemanha, tem uma lei chamada “não é não”, que endureceu a punição contra assédio. O homem pode ser preso até por passar a mão em uma mulher. O que você acha disso?
Acho corretíssimo. Nunca vi mulher passar a mão em homem. No Brasil, passam a mão em mulher desde que somos crianças. Quando eu tinha 8 anos, um amigo do meu avô pediu para eu ir na casa dele para brincar com a filha dele. Cheguei lá e o cara começou a tirar a minha roupa. Fui salva pela mulher dele, que chegou na hora. Depois disso, tive que amadurecer muito cedo. Com 8 anos já comecei a colocar blusão e esconder o meu corpo por medo.

Fernando Schlaepfer
Imagem: Fernando Schlaepfer


Hoje, muitas pessoas falam sobre feminismo. Você acha que as coisas estão mudando?
Olha, tem uma pesquisa que mostra que a  violência contra mulher branca diminuiu e contra mulher negra aumentou. Vejo muita mulher se empoderando. Mas, por outro lado, acho que, quando você é negro e periférico, não tem nada que te proteja. Há pouco tempo passei por uma tentativa de homicídio. Cheguei na delegacia desesperada. E o que me disseram? Que o cara [ex-namorado de Carol por nove anos] podia ser solto em dois dias. Fiquei apavorada, achando que ia ter que fugir. Eu, pelo menos, pude pagar advogado. Muita mulher não pode, tem filho, mora com esse parceiro. Então nem vai na delegacia, porque sabe que não vai dar em nada ou por medo de denunciar.

Com 8 anos já comecei a colocar blusão e esconder o meu corpo por medo.



Como está o caso de violência que você sofreu?
Ele está preso. Eu tenho advogado que está vendo isso. O problema é que a delegada registrou como lesão corporal e ele tentou me matar com um facão. Estou esperando a decisão. Ainda tenho medo. Qualquer coisinha me assusta. Às vezes, do nada, a cena volta na minha cabeça. Acho que nunca mais vou conseguir dormir sozinha na minha vida.

Você está feliz solteira?
Estou na melhor fase da minha vida. Claro que, às vezes, você quer uma companhia. Mas agora pego o meu carro uma da manhã e vou para a minha comunidade e fico lá conversando com os motoboys, meus amigos, até 5h, 6h, sem ninguém encher o saco.

Por que seu apelido é Carol Bandida?
Isso vem de criança. Eu aprendi a ser agressiva na escola, para me defender. Era uma escola de maioria branca e eu apanhava todo dia. Tive que aprender a bater. E, além disso, eu tinha na cabeça que em relacionamento sempre tinha alguém que batia. E, se era assim, preferia que quem batesse fosse eu. Batia no meu ex e em outras pessoas também. Mas fui amadurecendo, fui conversando com pessoas mais velhas e vendo que não precisava ser assim.

O racismo sempre esteve muito presente em sua vida?
Olha, uma vez, quando era criança, vi na TV que o Michael Jackson era negro e ficou branco. Eu sofria tanto na escola que cheguei em casa e falei pro meu avô: “To cansada. Não aguento mais. Não aguento mais ser negra. Quero fazer igual o Michael Jackson e virar branca.”  Meu avô me deu um tapa na cara e me mandou ir para o quarto. Depois me chamou e perguntou porque eu disse aquilo. Eu disse que não aguentava mais apelido e humilhação. Ele disse: “Se essas pessoas morrerem você vai deixar de viver? Não, né? Então, Carolina, você tem não tem que se preocupar com essas pessoas. Você tem que se preocupar comigo e com a sua avó, que são as pessoas que te amam.” Essa conversa é uma parada que vou levar para o resto da minha vida.

No inicio da sua carreira chegaram a te atirar lata em shows. Você acha que era pelo fato de você ser negra e gorda?
Sim. Quando eu comecei, era a época de mulher-fruta. No palco, eu era a única mulher gorda e que não usava roupa sensual. Ia com um blusão que estava usando na rua. As pessoas ficavam meio assustadas. Eu chego ali com um corpo diferente, uma roupa diferente e uma fala diferente. Imagina o cara lá, acostumado a bater, fazer e acontecer, chega uma mina cheia de marra, que parece a filha da Tati Quebra Barraco, falando que meu namorado é o maior otário [título de uma música de Carol]?

Como você se descobriu feminista?
Eu sou feminista antes de saber o significado de feminismo. Na minha comunidade, as pessoas não sabem o que é feminismo. Por isso que coloquei o nome na música (“100% Feminista), para as pessoas terem curiosidade de saber o que é. Há uns dois anos, comecei a fazer show e as meninas vinham fazer foto comigo e falavam: “Você é a maior feminista”. E eu ficava pensando: “Deve ter a ver com feminina, mas não me acho feminina. Não sou nada mulherzinha.” Perguntei para uma menina que trabalhava comigo e ela me explicou, disse que feminista é mulher que não aceita submissão, que é independente.

Reprodução
Imagem: Reprodução


Você tinha proximidade com a Marielle Franco e fez uma música a homenageando. Como foi isso?
Quando aconteceu [o assassinato], fiquei dois dias chorando. Parecia uma pessoa da minha família, mesmo. Fiquei muito chocada. É inadmissível. Fiquei pensando: “Não posso mais cantar porque podem me dar um tiro na cara. Eu, negra, cantando as coisas que eu canto.” Fiquei muito mal, pensei nela, na minha vida, nos meus fãs... No terceiro dia falei: “Não. Não vou ser covarde. Ela não morreu em vão.” [Carol é pré-candidata a deputada estadual e diz ter sido em parte convencida por Marielle]. Escrevi essa música chorando. A Marielle não precisava nem abrir a boca, você via na cara dela que ela é uma pessoa forte. Sabe pessoa que te dá coragem? Isso que a Marielle era.

Voce será candidata a deputada estadual mesmo? Por que?
Sim. Eu estava em dúvida com essa ideia. Mas depois pensei que era o que eu queria: representar minha comunidade. Mas eu não vou para bater de frente com a polícia. Nem acho que a policia seja o problema principal. A maioria da polícia que sobe os morros, até a que mata, é negra. Acho que a gente tem que ter uma estratégia de como melhorar a segurança do Brasil hoje.

E qual seria essa estratégia? Essa é uma questão muito complicada...
Sim, é complicada, mas não acho que é comprando arma que vai resolver. Por que não pegam um mês do dinheiro que gastam com essa intervenção militar e investem nas crianças das comunidades?

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