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Minha história

"Tive 40% do corpo queimado em uma explosão, mas continuo me amando"

Reprodução/ Instagram @adrianarclua
Tentando apagar uma panela que pegava fogo, Adriana teve quase metade do corpo queimado Imagem: Reprodução/ Instagram @adrianarclua

Helena Bertho

da Universa

15/06/2018 04h00

As poses, as roupas e a os sorrisos nas fotos do Instagram de Adriana Lua, 20, deixam claro que ter quase 40% do corpo queimado não afetou sua autoestima. Ela exibe com orgulho as cicatrizes que ficaram do acidente, que aconteceu em fevereiro, na cozinha de sua casa. Ela contou à Universa como lutou pela vida e como as marcas se tornaram sinônimo de sua sobrevivência.

"Acordei com os gritos do meu namorado, na época: 'Fogo! Fogo!'. Eu estava dormindo no sofá, dei um pulo de susto e corri para a cozinha. Uma panela estava pegando fogo e a labareda estava enorme, chegando até o teto.

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Ele abriu a janela, para tentar ventilar, mas o ar fez o fogo ir em direção à tubulação de gás. Eu entrei em pânico e não pensei duas vezes: peguei a panela para colocar debaixo da água. Minha mão queimou muito, mas eu achava que era aquilo ou morrer.

Então, abri a torneira, para apagar o fogo, e a explosão aconteceu.

Eu me debatia no chão para apagar o fogo 

Foi tudo muito rápido. Eu sentia calor e vi tudo laranja, então entendi que eu estava pegando fogo. Me joguei no chão e comecei a me debater, para apagá-lo. Por sorte, a torneira ficou ligada e apagou as chamas da panela, impedindo que todo o apartamento se incendiasse.

Fiquei algum tempo me debatendo, até que consegui apagar o fogo. Enquanto isso, meu ex ficou na porta, em estado choque, gritando, achando que eu estava morta.

Mas eu levantei, vi a pele do meu braço toda derretida e pensei: 'Preciso ir para o hospital'. Eu estudo nutrição, então sei que um dos maiores riscos para pessoas queimadas é infecção. Meu corpo estava completamente exposto e eu precisava me proteger.

Quando a adrenalina baixou, só conseguia gritar

Reprodução/ Instagram @adrianarclua
Com quase 40% do corpo queimado, Adriana passou um mês e meio internada e teve oito cirurgias Imagem: Reprodução/ Instagram @adrianarclua

Na hora, eu tinha uma lucidez que não sei de onde vinha. Percebi que minha blusa podia grudar no meu corpo, então eu tirei. Pedi para meu ex pegar uma blusa, minha identidade e chamar um carro. Mas ele estava em choque e não conseguia fazer as coisas.

Então eu fui, achei meu RG, chamei o carro e fui para o elevador.

São 12 andares no total e eu fiquei todo o tempo me olhando no espelho. Só aí eu entendi o nível do que estava acontecendo. Tinha pele para todos os lados, meus braços estavam completamente queimados. Estava horrível.

Finalmente, chegamos no térreo e pegamos o carro. O hospital mais perto era na mesma rua. Chegamos lá e, assim que cruzei a porta, parece que a adrenalina toda foi embora e a dor chegou. Eu não conseguia me comunicar, só gritar.

Não era um pesadelo

Aquele hospital nunca tinha atendido uma pessoa queimada. Ninguém sabia o que fazer e, por uma hora, ficaram só passando soro em mim, tentando baixar minha temperatura. Até que, por sorte, descobriram que um cirurgião plástico estava por lá e ele veio me atender.

Ele sabia os primeiros socorros: me enfaixou e me colocou em isolamento em uma salinha. Foi aí que me deram remédios para dor e só então me caiu a ficha: tudo aquilo estava acontecendo de verdade, não era um pesadelo.

Eu tive quase 40% do meu corpo queimado. Nos braços e pescoço, as queimaduras eram de terceiro grau e até minhas terminações nervosas estavam queimadas.

Uma longa internação, cheia de complicações

Reprodução/ Instagram @adrianarclua
Um pouco antes de ter alta, Adriana já começava a aceitar as cicatrizes Imagem: Reprodução/ Instagram @adrianarclua

Minha recuperação foi um processo muito lento e difícil. Foi uma semana na terapia intensiva, mais um mês e meio no quarto do hospital. Tive de passar por oito cirurgias para fazer enxertos da minha coxa e substituir a pele queimada dos meus braços.

Para complicar, tive ainda três infecções hospitalares e uma reação alérgica aos remédios.

Foi um longo período que passei praticamente imóvel, só sentindo dor e pensando. Tenho um histórico de depressão e de borderline, mas eu me esforçava para me manter positiva todo o tempo. Eu pensava que, se em algum momento eu deixasse os sentimentos ruins dominarem, eu ia acabar com a minha recuperação.

Todo dia, me olhava no espelho para me acostumar

Como as queimaduras eram graves, desde o começo eu achei que ficaria completamente desfigurada. Então, todo dia me fazia passar ao menos cinco minutos me olhando no espelho. Era o momento que me permitia chorar e pensar: 'essa sou eu agora, preciso ir me acostumando. Tenho de lidar com isso da melhor maneira possível'.

Cada dia da internação era um aprendizado. Tanto que não quis que meus amigos me visitassem, pois aquele era um momento meu. Só meus pais e meu então namorado iam me ver e me ajudavam, já que eu não podia fazer nada sozinha.

Mesmo assim, mesmo nos momentos mais difíceis, eu continuava forte. Comecei a ter uma percepção diferente em relação ao meu corpo. Entendi que, apesar de tudo, esse corpo era forte, continuava lutando e eu tinha sobrevivido.

Quando saí, tudo estava diferente

O acidente foi no dia 17 de fevereiro. No início de abril, tive alta. Saí do hospital completamente transformada, e não só fisicamente. Lembro que nos primeiros dias eu me emocionava com tudo, parecia que as cores eram mais vivas, os cheiros mais fortes.

Minha relação com o mundo também mudou. Sinto que antes eu era bem mais fútil, preocupada com detalhes, coisas pequenas, que não importam tanto. Hoje, os valores mudaram. O que importa é minha família, é eu estar viva, andando, enxergando, sem sequelas mais graves.

Não que eu tenha ficado completamente bem depois que saí do hospital. Até hoje, estou muito frágil. A pele repuxa e não posso me expor ao sol. Tenho de usar malha compressiva para recuperar a pele e os cuidados são enormes.

Mas uma coisa que vi no hospital é que as vítimas de queimadura param suas vidas e eu decidi que não faria isso.

Até que gosto das minhas marcas

Reprodução/ Instagram @adrianarclua
Ela não deixou que as marcas a fizessem ter vergonha do corpo e segue enchendo seu Instagram de fotos Imagem: Reprodução/ Instagram @adrianarclua

Meu namoro acabou e, aos poucos, comecei a reintroduzir os amigos na minha vida. Um pouco depois, comecei a fazer academia. Fiz uma malha compressiva preta, mais bonitinha, para usar como blusa. Comprei roupas com proteção UV e uma sombrinha, para poder sair de casa de dia. E, dentro das minhas limitações, tenho tentado levar a vida normalmente.

Uma das coisas que eu também logo retomei foi meu Instagram. Antes, eu alimentava meu perfil com fotos minhas, fazendo poses, de biquíni, sempre que me achava bonita. E por que isso teria que mudar agora?

Desde que eu entendi o que tinha acontecido, sabia que meu corpo mudaria. Mas, no fim das contas, eu até gostei das minhas marcas. Meu corpo fez coisas incríveis para me mantar viva, então eu não vou depreciá-lo só por não ser 'perfeito' como dizem que deveria ser.

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande um resumo do seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.