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Pausa

Pare, respire e olhe o mundo ao redor

Leia a Introdução e o Primeiro Capítulo de "Madonna 60"

Divulgação
Imagem: Divulgação

Flávia Martinelli

Colaboração para Universa

13/06/2018 13h18

INTRODUÇÃO

A primeira vez em que me dei conta de que Madonna era o máximo foi em 1985. Lembro-me de certa noite ir até o quarto de minha amiga, onde ela estava vendo TV.

— O que está passando? — perguntei, me jogando ao lado dela.

— O show da Madonna — respondeu.

— Ah, não.

Quase fui embora. Para mim, Madonna era uma perua pop e cafona com roupas de lycra contorcendo-se em uma gôndola veneziana no clipe de “Like a Virgin”.

— Não, espere aí — disse minha amiga. — Ela é mesmo muito boa. Muito engraçada. Tem alguma coisa nela que atrai a gente.

Continuei a assistir. E em alguns minutos eu “saquei”. A mulher que surgira como uma jovem estrela atrevida no Top of the Pops tinha toda uma outra dimensão. Na verdade, a turnê Like a Virgin foi o primeiro momento em que muitas pessoas compreenderam o que havia de tão atraente nela. Ela possuía uma energia calorosa, vivaz. Falava diretamente com o público feminino. Tinha um abdômen rechonchudo e não dava a mínima. Sorria muito, piscava para a multidão e convidava você a participar da brincadeira. E sua música — dançante e ousada — era muito atrativa. Não se tratava de mais um ícone manufaturado, ela era autêntica. Então, Madonna evoluiu: de uma mulher fatal oxigenada da era True Blue, em meados dos anos 1980, passando pelo misticismo obscuro de Like a Prayer, de¬ pois à viajante psicodélica de Ray of Light até a mulher reflexiva em Rebel Heart.

Quando a primeira edição do meu livro foi publicada, em 2007, Madonna ainda era definida por sua vida sexual, seu status fashion e suas canções otimistas e dançantes. Muitos achavam difícil acreditar que ela era uma musicista crível e uma artista autêntica. Agora, no ano em que completa sessenta anos, o mundo começa a entender sua façanha, e há um desejo de descobrir como ela fez o que fez.

Foi só quando Madonna subiu ao palco para receber o prêmio de Mulher do Ano no evento da Billboard Women in Music de 2016 que as pessoas perceberam por que ela é uma ativista do movimento feminista e por que, após três décadas no mercado, deveria ser levada a sério.

— Estou aqui diante de vocês como um capacho. Ah, quer dizer, como uma artista mulher — brincou. — Obrigada por reconhecerem minha habilidade em dar continuidade a minha carreira por 34 anos, diante do sexismo escancarado, da misoginia, do constante bullying e do abuso implacável.

E isso foi no ano anterior à campanha #MeToo (#EuTambém), que incentivou várias artistas a denunciar o assédio e o abuso sexual dissseminados na indústria de entretenimento.

Neste livro, vou explorar como Madonna, aos 23 anos, sentou-se em um estúdio medíocre no centro de Nova York e preparou uma fita demo, tocando ela mesma todos os instrumentos. Vou mostrar como ela trabalhou arduamente nas melodias e letras, ouvindo cada compasso e fazendo sua contribuição em cada faixa. Em seus álbuns recentes, MDNA e Rebel Heart, ela deixou rappers e cantores jovens boquiaber¬tos com seu profissionalismo, sentando-se com eles no estúdio do amanhecer ao anoitecer. Charlie Heat, produtor famoso de hip hop, por exemplo, demonstrou fascínio ao trabalhar com a mulher que criou marcos culturais inesquecíveis como “Like a Virgin” e “Like a Prayer”.

— Ainda não compreendo quão incrível isso é — disse ele —, e ainda assim ela é uma das pessoas que trabalham com mais afinco que conheço.

A vida pessoal de Madonna é parecida com a de muitas mulheres do fim dos anos 1950 e começo da década de 1960 — como o feminismo nos tornou corajosas; como, apesar da liberdade pela qual lu¬tamos, ainda havia um intenso conflito entre trabalho e maternidade. Em sua música e arte, Madonna diz muito sobre o que significa ser uma mulher. Ela traduz isso em termos populares e o expressa sem reservas, mas o que mais me impressiona é sua diversidade espetacular. Como uma colecionadora cultural, ela buscou suas influências em milhares de fontes e as afunilou em uma única visão. Isso, por si só, é uma obra de arte.

— Eu sou uma obra de arte. Eu sou a arte. Je suis l’art — ela disse uma vez a Sébastien Foucan, herói francês do parkour e um dos principais dançarinos da turnê Confessions.

Os shows excêntricos e extremamente teatrais de Madonna alçaram-na à posição quase religiosa de ícone. Chamada de “Immaculate Conception” pelo ator e amigo Rupert Everett, ela comandava uma espécie de missa de adoração.

— Seus (olhos) eram do azul mais claro, meio estranhos e afastados; um pouco mais, e ela pareceria louca, ou uma anomalia genética. Quando eles cruzavam com os seus, você ficava petrificado — contou ele ao falar sobre a primeira vez em que se encontraram, nos anos 1980. — Havia um campo de força ao redor dela, como uma onda, que atingia todo mundo quando ela chegava a um lugar.

A pop star Madonna surgiu como uma versão desafiadora de um ícone venerável no século XX. Enquanto a tradicional Virgem era um símbolo de modéstia e pureza, essa Madonna pregava empoderamento sexual e espiritualidade. A compositora Tori Amos disse:

— Acredito que unir os temas Madonna, virgem e sexo foi a reinicialização do computador histórico Madonna. Foi um tremendo des pertar sexual para meninas cristãs: católicas, protestantes, mórmons, batistas… venham todas. A importância de uma mulher chamada Madonna cantando a letra de “Like a Virgin” não pode ser subestimada, muito menos o impacto de menininhas por todo o mundo cantando junto com ela.

Pergunta-se muito quem é a “verdadeira” Madonna. Por já ter escrito vastamente sobre feminismo e cultura pop, eu sempre quis descobrir a essência das motivações dessa cantora. Desde a época de “Like a Virgin”, venho construindo meu próprio arquivo sobre Madonna, e em 2005 comecei a trabalhar em um livro a respeito dela. Quero analisar como ela conseguiu criar uma estética a que pessoas de todas as gerações respondem. O que a torna tão interessante? Admirada pela personalidade contraditória — mulher fatal, Lady of the Manor, ativista da cabala, mulher xamã —, eu buscava uma maneira de compreendê-la, e a encontrei ao me voltar para suas músicas.

A música deixa uma marca psíquica; ao escutá-las com atenção, encontra-se o mundo do artista. Ouvindo a música de Madonna, descobri uma história cativante. Sejam as camadas de liturgias católicas em Like a Prayer, ou as profundezas sombrias de Erotica, ou o êxtase reluzente de Confessions on a Dance Floor, em que a voz de Madonna se torna apenas uma textura na música, ela se encontrava em uma jornada pessoal. Por vezes, se via em negação, ou vivendo um melodrama, mas, através da música, enfrentava a dor e buscava a alegria. Eu queria entender como ela construiu essa jornada e, ao fazer isso, acabei embarcando em uma jornada própria. Fui desde os mais modernos estúdios de gravação até um flat em Hornsey, ao norte de Londres, que Doug Wimbish e a galera pós-punk do Tackhead ainda frequentava. Rodei por velhos lugares em Michigan com uma mulher que estudou com a cantora e vaguei pelas ruas amplas de De¬troit. Entrevistei diretores diante de piscinas em Los Angeles e viajei para Nova York a fim de encontrar antigos amigos e colaboradores. Andei pelos campos de Wiltshire e pelo luxuoso QG da cabala em Londres. Conversei com dançarinos, músicos e produtores — pessoas que tinham trabalhado com Madonna.

Eu sempre me deparava com duas figuras muito nítidas: uma, a artista determinada em seguir em frente e implacável com a concorrência; a outra, uma mulher que eu nunca vira antes, pueril e cativante.

— Quando está em um lugar público e sob os holofotes, ela é muito fria e distante. Parece arrogante, como se estivesse bancando a estrela — contou-me o diretor James Foley, amigo dela. — Mas, quando chega em casa e tira os sapatos, é como se se despisse de sua personalidade. Seu sotaque até muda, de um britânico falso para o nativo de Detroit.

Se fosse apenas um caso de público versus particular, seria compreensível. Mas Madonna alterna entre as duas personalidades de uma maneira mais complexa.

Em entrevistas, Madonna parece cautelosa e instruída, como se, observou certa vez Norman Mailer, “estivesse dando uma de secretária de si mesma”. O senso de humor tão comentado por várias pes¬soas não fica muito em evidência. Ela pode ser assim com os amigos, e até provocativa com maridos e amantes em um complicado jogo de “morde e assopra”. Mas muitas pessoas que trabalharam com Madonna mencionam sua simpatia e simplicidade. Seria ela duas pessoas diferentes? Foi só depois de ver a gravação dos ensaios para a turnê Confessions que compreendi o que a faz feliz. Ela estava sem maquiagem e usava roupas casuais, mas dava para ver que cada célula de seu corpo estava viva e entregue à performance. O único lugar em que Madonna parecia ser verdadeiramente ela mesma era em meio a seu trabalho. Quando se vê absorvida pelo processo criativo, ela se esquece de si mesma. Responde ao mundo, em primeiro lugar, como uma dançarina, processando e expressando sua experiência.

Isso é impulsionado por seu ativismo político e pelo fato de ao longo dos anos ela ter se tornado cada vez mais franca. Madonna flertou com a impopularidade. Colocou uma suástica no rosto de Marine Le Pen. Mostrou o seio em um show na Turquia, um país onde mulheres são atacadas por usarem roupas reveladoras, onde matar em nome da honra é comum e onde Medine Memi, de 16 anos, foi enterrada viva por seus parentes por falar com rapazes. Defendeu os direitos LGBT em São Petersburgo e está sendo processada em um milhão de dólares por militantes homofóbicos russos. Ela, uma das estrelas mais prósperas do mundo, foi ao Malaui, um dos países mais pobres do mundo, e ficou chocada com a pobreza e o desespero que lá encontrou. Mas também encontrou humildade.

Ela é um ícone imperfeito. Tem muitas falhas, mas nos mostra que é humana. Dez anos atrás, falei que Madonna era o ícone que tínhamos criado, porém agora vejo que ela mesma se criou. A indústria corporativa da música era imensa, com gratificações consideráveis para grandes artistas, mas também era selvagem, sem oferecer qualquer proteção contra o vício em drogas, o alcoolismo, o assédio sexual e a exploração. Era um ambiente predatório, e a grande im¬prensa fazia parte dessa trama, julgando o certo e o errado. A fama cobra um preço alto, essa era a mensagem primordial. É o contrato faustiano: se você é famoso, é alvo certo. Em 1987, era aceitável um âncora da NBC sabatinar Madonna durante uma hora com questões invasivas e lascivas. A cantora respondeu às perguntas com boa vontade, porque precisava. Entrar no jogo, naquela época, significava ignorar o assédio diário para poder realizar seu trabalho. Como ela disse em seu discurso na Billboard de 2016:

— As pessoas dizem que sou controversa. Mas acho que a coisa mais controversa que fiz foi ficar aqui. Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas ainda estou aqui. Aos que duvidam e aos que se opõem, e a todos que me apresentaram ao inferno: sua resistência me tornou mais forte, me impulsionou mais, me transformou na lutadora que sou hoje. Tornou-me a mulher que sou hoje.

O estilo de Madonna é agressivo, mas ela constantemente trans¬forma a própria vida em uma fascinante performance de pop art. Como disse seu antigo namorado, o produtor Steve Bray:

— Sua característica mais impressionante era dominar você por completo, e, de alguma forma, você gostar da experiência.
Sem ela, a indústria musical — para as mulheres, para a comunidade LGBT, para todo mundo — seria bem diferente.

Transformação, arte e autoconfiança são o nosso futuro, e ela é uma das artistas que nos mostra como chegar lá. Esta é a história da Madonna.

Lucy O’Brien
Londres, 2018

I. A morte de Madonna

Ao sair de Detroit pela estrada principal, a I-75, você é surpreendido pela paisagem comum, suave e plana. As pontes de concreto e as planícies se estendem até os subúrbios. Mas há também uma enorme sensação de vazio, de vastidão e de isolamento. Não há distrações. O lugar é como uma tela em branco, você pode se inventar completamente.

O inverno chega cedo por aqui. O verão termina suavemente, as folhas vão ganhando uma tonalidade dourada de castanho, e bam! De repente, no final de outubro, começa uma onda de frio. Uma onda que se estende por todo o inverno. “Ele chegou”, dizem os moradores locais, com um suspiro. O frio é tão grande e profundo quanto as ruas. Em Detroit, há muito poucas árvores para reduzir o frio e prover a cidade de paisagens naturais que se possam apreciar. A cidade é toda feita de blocos de concreto e ruas desnudas. O vento gelado desce como um funil por elas com uma severidade que não nos abandona até fins de maio.

— O inverno dura oito meses — diz o motorista do táxi, com um ar resignado —, mas quando chega janeiro, você já se acostumou com ele.

Não tem como escapar do frio, exceto dentro de casa, onde é quente, há luz e tem uma TV ligada. Não é de se admirar que os nativos de Detroit levem tão a sério seu próprio entretenimento. Faz parte de sua natureza; eles têm uma atitude corajosa de “mandar ver”, trabalham duro e se divertem bastante. Se não incorporar esse estilo de vida, você simplesmente evapora. O clima é tão devastador que é necessário desenvolver uma carapaça para aguentá-lo, ou, se tiver dinheiro, fugir dele.

Faz sentido que a principal escultura pública de Detroit seja um punho fechado gigante de meia tonelada moldado em bronze pelo escultor americano Robert Graham. Um tributo à resistência do boxeador peso-pesado e nativo de Detroit, Joe Louis. A escultura simboliza a resiliência da cidade depois dos altos e baixos da economia.

Alguns tomam um gosto perverso por essa cidade fria e dura. É a atitude irresponsável dos Stooges e do MC5. É a alienação e o gosto pelos prédios nus e pela tecnologia que formaram o som techno de Detroit. Está presente no ritmo insistente do soul da Motown — tão insistente que os músicos deixaram marcas no chão do estúdio A. Eles batiam os pés com força no chão para não perderem o tempo da música.

O subúrbio de Pontiac fica bem ao norte de Detroit. Agora uma re¬gião devastada, nos tempos de Madonna era uma próspera cidadezinha industrial que servia à enorme indústria automobilística de Detroit. Uma estrutura cavernosa em forma de bolha ergue-se na beira da rodovia. Trata-se do estádio Silverdome, construído na década de 1970 para o time de futebol de Detroit, mas, desde que os Lions se mudaram para o centro da cidade, em 2002, a construção ficou praticamente abandonada. Nos seus tempos áureos, foi a sede dos jogos All-Star da NBA e recebeu bandas de rock como Led Zeppelin e The Who. Em janeiro de 1987, o papa João Paulo II rezou uma gigantesca missa lá.

Bem em frente ao Silverdome, há um pequeno bairro de operários. Foi ali que Madonna passou os primeiros anos de sua infância, no número 443 da rua Thors, numa modesta residência de pavimento único, pintada de verde-água. Quando passei por lá, em 2006, a casa tinha um ar decadente, como se os fantasmas não tivessem abandonado o lugar. Nos anos 1960, ela vivia cheia de crianças. Foi a primeira casa dos pais de Madonna, o lugar onde eles começaram a vida de casados e onde a filha mais velha começou a esboçar seus sonhos aventureiros.

— Meus avós vieram de navio da Itália. Não falavam nem uma palavra em inglês. Não eram muito instruídos, e acho que, de certo modo, representavam um estilo de vida antigo, do qual meu pai queria se distanciar — disse Madonna.

Seu avô, Gaetano Ciccone, veio de Pacentro, um vilarejo italiano na região de Abruzzo. Ele provinha de uma família de camponeses, mas fora encorajado a estudar e a ampliar suas oportunidades. Em 1920, sem trabalho, o ambicioso adolescente embarcou para os Estados Unidos e chegou até Aliquippa, uma cidade fora dos limites de Pittsburgh, cuja economia se baseava na produção de aço. Depois de conseguir emprego — trabalhava no ambiente esfumaçado e barulhento da fornalha —, voltou para buscar a jovem esposa, Michelina di Ulio. Moraram em uma casa alugada de um único cômodo próxima à fábrica de aço, e criaram seis filhos, cinco dos quais foram trabalhar na fábrica. O mais novo, o pai de Madonna, Tony (Silvio, de batismo), foi o único que teve a sorte de ir para a faculdade.

Não era fácil para os Ciccone ser uma família de imigrantes: havia um forte preconceito contra a nova onda de imigração europeia, prin¬cipalmente os italianos, que frequentemente eram de origem pobre e se viram vulneráveis à exploração por fábricas cujos operários não contavam nem mesmo com um sindicato.

Gaetano trabalhou duro e era politicamente ativo. Estimulado pelo National Labor Relations Act (movimento histórico de 1935 que reconheceu os sindicatos), ajudou a organizar uma curta mas eficaz greve na fábrica de Aliquippa no verão de 1937, que levaria a uma melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Madonna, mais tarde, carregaria consigo esse senso de justiça em sua política inclusiva e no apoio ao Partido Democrata. No início dos anos 1990, por exemplo, ela filmou uma mensagem publicitária sem receber cachê para a campanha do US Rock The Vote, um movimento criado pela MTV que levou a um aumento de 20% no número de eleitores jovens em 1992 e teve influência direta na eleição do presidente Clinton. E, em 2003, logo após o início da guerra no Iraque, Madonna declarou sua oposição a George W. Bush, estimulando os fãs a assistir ao controverso documentário de Michael Moore, Fahrenheit 11 de Setembro. Em 2004, apoiou a candidatura de Wesley Clark, pelo Partido Democrata, às eleições presidenciais dos Estados Unidos, com uma declaração apaixonada: “O futuro que desejo para os meus filhos está correndo perigo.” E, dois anos depois, também expressaria seu apoio à campanha de Hillary Clinton para a presidência.
Embora não tenha uma atuação política tão ativa quanto a de outros astros como Bono Vox ou Peter Gabriel, Madonna apoia causas como o sexo seguro e a luta contra a aids, e sempre se opôs à discriminação, tanto no que diz respeito à raça quanto ao sexo. Como filha de uma segunda geração de imigrantes, ela desenvolveu uma consciência aguçada acerca da marginalização social.

Seu avô Gaetano mantinha em casa uma disciplina rigorosa e conseguia sustentar sua grande família, mas a vida cotidiana era uma luta. A tensão encontrava sua válvula de escape no vício pela bebida, um hábito que se firmou depois que ele começou a fabricar o próprio vinho em casa. Madonna já disse que seus avós paternos eram alcoólatras, fator que a influenciou a manter-se longe do álcool e das drogas. Ainda que a comunidade italiana em Aliquippa fosse bastante unida, era também bastante restritiva: esperava-se pouco das mulheres além das funções de mãe e dona de casa dedicadas. E os estudos para além do colégio, com sua ameaça potencial aos valores tradicionais, eram vistos com certo grau de suspeita.

Estudioso e dedicado, Tony decidiu libertar-se das restrições de seu passado.

— Ele queria subir na vida e ir para a parte mais desenvolvida e próspera dos Estados Unidos — declarou Madonna a Denise Worrell, repórter da revista TIME. — Acho que ele queria que nós tivéssemos uma vida melhor do que a dele quando jovem.
Depois de um breve período no Texas prestando serviço militar na Força Aérea americana, Tony voltou para casa, na Pensilvânia, em 1952, para cursar engenharia na Universidade de Geneva, uma instituição católica em Beaver Falls. Ele tinha planos para o futuro. No ano anterior, conhecera Madonna Fortin, a irmã mais nova de um amigo da Força Aérea, Dale Fortin. Tony fora convidado para o casamento de Dale, que se realizaria numa pequena capela na base aérea Goodfellow, no Texas, onde tinham trabalhado juntos. A garota Madonna, de 17 anos, era dama de honra. Tinha uma beleza tranquila, um humor irônico e um sorriso gentil. Era descendente de franco-canadenses — gerações de fazendeiros e lenhadores que trabalhavam a terra com um cuidado determinado e pragmático. O pai dela, Willard Fortin, havia sido administrador geral de uma firma de construção e, junto com a esposa, Elsie, criara os oito filhos para serem católicos devotos.

— Ela era muito bonita — recorda-se Madonna. — Eu me pareço com ela. Tenho os olhos do meu pai, mas o sorriso é da minha mãe, e também herdei muito de sua estrutura facial.

Não foi só a beleza de Madonna Fortin que atraiu Tony, mas também o fato de ela vir de uma família de origem católica acostumada ao trabalho duro. Ambos tinham ideais e laços familiares fortes. Começaram a namorar quase imediatamente. Tony fazia o longo percurso da Pensilvânia até Bay City sempre que podia. Uma cidadezinha com muito vento, na região do lago Huron, perto da fronteira com o Canadá, Bay City chegou a ser um centro da indústria madeireira. Na época em que Madonna Fortin nasceu, os barões da madeira já tinham se mudado, e quase todas as madeireiras haviam fechado as portas, dando lugar à indústria da pesca. A vida em Bay City era lenta e calma, assim como o relacionamento de três anos mantido a distância entre Tony e Madonna. Eles finalmente se casaram, depois da formatura de Tony, no dia 1º de julho de 1955, na Visitation Church, em Bay City. Depois de conseguir emprego como engenheiro na fábrica de automóveis Chrysler, ele se mudou com a jovem esposa para Pontiac, perto de Detroit.

Logo após o casamento, Madonna Fortin Ciccone engravidou, e o primeiro filho deles, Anthony, nasceu em 3 de maio de 1956. Martin nasceu um ano depois, em 9 de agosto e, no dia 16 de agosto de 1958, foi a vez da primeira filha do casal, Madonna Louise, que nasceu enquanto os pais passavam as férias em Bay City. O jovem trio constituía o cerne da família Ciccone: a pequena Madonna tinha uma relação de competição com os dois irmãos mais velhos, e os três juntos disputavam a atenção dos pais, um fator que se faz presente na maneira agressiva e debochada com que Madonna às vezes trata os homens de sua vida.

— Eu era considerada a mulherzinha da família, porque lançava mão de artifícios femininos para conseguir o que queria — disse Madonna. — Meus irmãos mais velhos pegavam no meu pé, e eu sempre os dedurava para o meu pai.

Foram necessários anos para que a rivalidade entre os irmãos se resolvesse, e até hoje há uma trégua desconfortável entre eles. Se a Madonna mãe tivesse sobrevivido, talvez a dinâmica da família fosse menos polarizada. Em 1959, quando sua irmã Paula nasceu, Madonna perdeu o reinado como filha única. Christopher veio em 1960, e Melanie, em 1962. Nessa ocasião, no entanto, uma sombra pairava sobre a família. Embora os Fortin e os Ciccone fingissem que nada sério estivesse acontecendo e que aquilo era uma preocupação como outra qualquer, a mãe de Madonna estava morrendo.

Quando estava grávida de sua filha mais nova, Melanie, ela fora diagnosticada com câncer de mama. Muitos apontaram seu trabalho como técnica de raio X como motivo da doença. O avental protetor contra radiação, que agora é obrigatório, raramente era usado naquela época. O tratamento teve que ser adiado para depois do nascimento de Melanie, o que acabou sendo tarde demais. Ela ainda lutou por mais um ano. As crianças foram mandadas para casas de parentes, e, mesmo quando a mãe estava em casa, sentia-se exausta demais para dar a eles os cuidados de que necessitavam.

Para a menina Madonna, de cinco anos, que começava a tomar consciência de si e de seu lugar no mundo, essa foi uma experiência completamente desnorteante. Por ser a mais velha entre as meninas, tinha um forte senso de independência e, ao mesmo tempo, uma profunda necessidade de chamar atenção. Estava sempre desafiando os pais, mesmo nessa idade. Madonna se recorda da mãe limpando a casa compulsivamente, ajoelhada na cozinha, esfregando o chão.

— Minha mãe estava sempre nos dando broncas. Éramos de fato bagunceiros, crianças terríveis. Eu me lembro de ficar dividida — disse Madonna. Ela falou do amor que sentia pela mãe, mas também de ficar confusa com a falta de limites. — Acho que eu a torturava. Crianças pequenas sempre fazem isso com pessoas que são muito boas para elas. As crianças não conseguem acreditar que as pessoas não estão gritando com elas, então zombam de você. Eu realmente zombava da minha mãe.

Quanto mais a energia da mãe se esvaía, mais a pequena Madonna tentava trazê-la de volta. Há uma lembrança que é frequentemente citada por Madonna: a mãe doente, tentando descansar um pouco no sofá, e a filha batendo em suas costas, na tentativa desesperada de conseguir alguma reação. A raiva passou quando Madonna viu que a mãe estava chorando.

— Eu me lembro de me sentir mais forte do que ela. Eu era tão pequena e, no entanto, ao abraçá-la e sentir seu corpo soluçando, tive a sensação de que ela é que era a criança. — Esse foi um momento crucial. Assustada com a fragilidade da mãe, Madonna desenvolveria uma aversão à fraqueza que levaria para toda a vida. — Eu sabia que podia ficar triste, fraca e descontrolada, mas também podia simplesmente me acalmar e dizer “tudo vai melhorar”.5

Apesar de sua negligência em relação à disciplina das crianças, a Madonna mãe era uma mulher guerreira. Era lembrada como “angelical e bondosa”. Ex-dançarina e amante da música clássica, ela tinha graça, equilíbrio e uma força interior considerável e discreta. Ria e brincava com os filhos sempre que possível, tentava manter em dia as tarefas domésticas e fingia que não havia nada de errado; mas o esforço era visível. Estava constantemente indo e voltando do hospital. Até que no dia 1º de dezembro de 1963, nove dias depois do assassinato do presidente Kennedy, ela se foi. Tinha apenas trinta anos de idade.

Na adolescência, Madonna costumava ler Anne Sexton e conversava com as irmãs sobre a grande semelhança que havia entre a mãe delas e a poeta vencedora do prêmio Pulitzer. A poesia de Sexton significou muito para ela, sem dúvida, por causa da maneira intensa com que a autora explora a vida, a arte e a morte. Como muitas das mulheres que Madonna admirava, de Sylvia Plath a Virginia Woolf e Frida Kahlo, Sexton teve uma vida conturbada, lutou contra a depressão e conflitos internos. Assim como o trabalho daquelas mulheres, sua obra era extremamente pessoal, frequentemente autobiográfica e por vezes temperada com um humor que tira graça da própria dor. Sexton se suicidou em 1974, depois de publicar oito coletâneas de poemas cujo estilo combinava um ritmo forte com o melhor do romantismo e uma referência visível ao feminis¬mo emergente. A linguagem econômica e o enfrentamento destemido da morte viriam a influenciar mais tarde os últimos álbuns de Madonna. Mas, no início da década de 1970, para uma adolescente em busca da mãe e de respostas, a poesia de Sexton ofereceu um conforto um tanto esquisito, principalmente no poema “Madonna”, sobre a morte da mãe de Sexton, também vítima de câncer.

O funeral de Madonna Fortin Ciccone aconteceu em 1963, na Visitation Church, em Bay City, a mesma igreja onde se casara oito anos antes. Ela foi posta num caixão aberto e vestida como um anjo. Apenas uma coisa não estava correta. A boca, como Madonna muitas vezes observou, estava esquisita. Quando ela se aproximou e examinou o rosto da mãe, viu que seus lábios tinham sido costurados um ao outro. A imagem aterrorizante a perseguiria por anos, e mais tarde ela pareceu resgatá-la no videoclipe em preto e branco da canção “Oh Father”. Depois de morta, Madonna mãe foi simbolicamente silenciada. O anjo da casa, a mártir humilde, jamais poderia falar a verdade outra vez, não poderia contar às filhas como sua vida realmente era, não poderia envelhecer junto delas, não poderia amadurecer, e, nesse amadurecimento, mostrar suas falhas, suas dúvidas e inseguranças, bem como sua sabedoria. Em vez disso, tudo o que restou foram algumas fotografias preciosas, alguns filmes enigmáticos de eventos familiares em Super-8 e uma memória imaculada que jamais seria manchada.

Não é de se admirar que o trabalho de Madonna seja carregado de alusões a segredos e à necessidade de revelações, manifestando urgência para dizer, para se expressar.

— Eu mal disse uma palavra, não conseguia interromper o fluxo de seu discurso — lembra o vocalista do Pet Shop Boys, Neil Tennant, sobre a ocasião em que a entrevistou para a revista inglesa Smash Hits, no início dos anos 1980, quando ele ainda trabalhava como jornalista.

Muitos amigos mencionam sua tagarelice, sua necessidade de externalizar tudo que passava em sua mente a todo momento. Nas entrevistas, parece articulada, falante, e às vezes usa as palavras como um escudo para se proteger de pessoas que ela acusa de tentar “destruir sua alma”.

A jornada de Madonna traçada por meio da música começou assim: primeiro, como o ex-namorado e DJ Mark Kamins diz, por meio de “rimas infantis”, que espelhavam a inocência ardilosa de uma menina de cinco anos; uma celebração dionisíaca do amor e da dança, um mundo povoado por anjos e heróis. Depois veio o experimentalismo, a fase rebelde, os questionamentos acerca da religião, do sexo e do erotismo; e, por fim, o movimento em direção a uma transformação espiritual, as dúvidas políticas e um novo tipo de transcendência. A inquietação, no entanto, persistiria.

A vida de Madonna foi sendo construída em oposição à de sua mãe. Se o silêncio da mãe significava a morte, então ela iria falar. Se a doença da mãe indicava que dormir era perigoso, pois uma pessoa pode morrer enquanto dorme, então ela ficaria acordada. Se o corpo da mãe a decepcionara, Madonna se certificaria de estar sempre em excelentes condições físicas. Ela escolheu a dança não apenas como meio principal de expressão, mas também como forma de exibir força física e capacidade de resistência, sentindo-se assim viva e agarrada ao presente.

— Às vezes, eu simplesmente finjo que vou viver para sempre — declarou  ela, certa vez. — Não quero morrer. A morte é o derradeiro desconhecido. Não quero ir para um além sombrio.

Ela evitou as drogas e o álcool porque qualquer coisa que tranquilizasse o espírito seria uma pequena morte, uma ameaça a seu estado de alerta e à sua “consciência de onde tudo está”. Um amigo chegou a afirmar que Madonna não se dedica à reflexão:

— Ela simplesmente não reflete. Não tem qualquer interesse pelo que fez na semana anterior, quanto mais há dez anos. Para ela, tudo se resume a finalizar uma coisa e, em seguida, iniciar outra.

Madonna já comentou sobre “ter amadurecido rápido” depois da morte da mãe e sobre ter aprendido a não contar com ninguém a não ser consigo mesma. Segundo o psicólogo John Bowlby:

— A característica mais assustadora de um animal morto ou de uma pessoa morta é a imobilidade. O mais natural, então, para uma criança que tem medo de morrer é manter-se em movimento. — Ele também identifica “hiperatividade e independência compulsiva” como sintomas que frequentemente se desenvolvem depois de alguma perda ou privação ocorrida na infância.
Contradizendo essa imagem, no entanto, temos uma garotinha de cinco anos que sofreu uma perda e tornou-se agorafóbica, não conseguindo sair de casa sem adoecer, ficando praticamente agarrada ao pai em busca de proteção.

— Por cinco anos após a morte de minha mãe, sonhei todas as noites com pessoas pulando em mim e tentando me estrangular — disse ela, um dia.

Madonna também se tornou o que Bowlby chama de uma “obsessiva por cuidar dos outros” e passou a tomar conta de seus irmãos mais novos, substituindo a mãe como a nova pequena dona da casa. Enquanto o pai permanecesse viúvo, em luto e solteiro, ela poderia seguir na ilusão de que o papel principal era dela. Mais tarde, viria a agir da mesma forma com os dançarinos de seus shows, proclamando que era uma mãe para todos eles, um instinto que costuma ser comum em coreógrafos interessados em manter suas companhias unidas e trabalhando em equipe.

Várias governantas foram, uma após a outra, contratadas para manter a tribo dos Ciccone sob controle. Como as governantas dispensadas sucessivamente pela família Von Trapp no filme A noviça rebelde, ou aquelas repelidas pelas crianças em Nanny McPhee — A babá encantada, também entre os Ciccone elas nunca permaneciam mais do que alguns meses. Foi assim até entrar na casa a rigorosa mas dedicada Joan Gustafson. Até então, um Tony Ciccone desolado, recluso, em luto e enfiado no trabalho esforçava-se para não deixar a jovem família desabar. Como o patriarca vitoriano tradicional que era, não conseguia fazer isso sozinho. Precisava de uma mulher para cuidar de seus seis filhos órfãos de mãe. Joan o fez sair da reclusão, e em seis meses os dois estavam casados. Aos oito anos de idade, Madonna sentiu-se roubada. Além de perder a mãe, agora sentia-se abandonada pelo pai, justamente aquele com quem acreditava ter uma ligação especial na família.

Desde então, começou a desenvolver uma afiada capacidade de resistência emocional. É possível observar isso nos retratos de família: uma Madonna pré-adolescente, com longos cabelos castanhos caindo em cascata até a cintura, a mão pousada possessivamente sobre o braço do pai, lançando um olhar assombrado e incerto para a câmera. A incerteza teimava em acompanhá-la, mas a tristeza de antes fora substituída pela raiva. Ela se rebelou contra a madrasta Joan, recusando-se a chamá-la de “mãe” e ignorando suas ordens. Madonna encontrou um curioso tipo de libertação com a morte da mãe.

— Acho que o que mais me tornou capaz de me expressar e de não me intimidar foi ter crescido sem uma mãe. Mulheres são tradicionalmente criadas para serem submissas e passivas. Espera-se do homem o espírito desbravador. Ele traz o dinheiro, ele dita as regras. Eu sei que minha falta de inibição vem da morte de minha mãe — disse Madonna. — Por exemplo, mães ensinam boas maneiras. Eu não aprendi nada dessas regras de educação e de comportamento.

Madonna não cresceu com um modelo constante de maternidade, e isso proporcionou a ela um modo alternativo de ver o mundo. Em 1976, a poeta feminista Adrienne Rich escreveu: “Mãe significa a vítima que existe dentro de nós, a mulher que não é livre, a mártir.” Em sua devoção impecável e fervorosa à religião e à família, a Madonna mãe ofereceu um modelo de abnegação.

— O catolicismo é uma religião muito masoquista. Eu vi minha mãe fazer coisas que me afetaram intensamente. Ela era religiosa apaixonada, extasiava-se com aquilo — relembra Madonna.

Vinda de uma família de franco-canadenses que trabalhavam com madeira, a Madonna mãe foi influenciada pelo jansenismo, uma interpretação da doutrina católica formulada no século XVII pelo padre belga  Cornelius  Jansen. Fruto direto da Reforma religiosa, o jansenismo consiste em crenças católicas acrescidas de um traço de puritanismo e marcadas por uma visão pessimista e austera da vida. Segundo Richard P. McBrien:

— O jansenismo promoveu a teoria da predestinação e um estilo de vida cristão moralmente rigoroso. Uma vez que o pecado original corrompeu tão radicalmente a natureza humana, tudo o que é puramente natural é nocivo. A graça é concedida apenas a uma minoria. O jansenismo foi popular na França, tornando-se um elemento-chave da educação de muitos padres, e foi transportado, junto com os imigrantes, para a parte francesa do Canadá. Muito da obsessão católica americana, pré-Vaticano II, pela moralidade sexual e por sua piedade eucarística relativamente limitada (por exemplo: a infrequente recepção da comunhão, o fato de só haver comunhão depois da “ida ao confessionário”) tem sido relacionada à influência jansenista.

Muito já se comentou sobre a formação católica de Madonna, mas o lado francês desse catolicismo, que veio de sua mãe, é tão forte quanto o italiano. O catolicismo francês é uma força de características marcantes, um ponto de referência para a religião católica no mundo inteiro. A fé de sua mãe significava viver uma vida santa, com um exame diário de consciência. A teoria do pecado original diz que uma pessoa nasce distante do apoio divino e que um crente deve se esforçar para se aproximar de Deus novamente por meio da prece diária. Para a Madonna mãe, cada dia era, de certo modo, um passo dado em direção à morte, como se a qualidade de sua passagem para a outra vida dependesse da maneira como ela viveu na Terra. Sua prática devota — fossem os jejuns rigorosos, o ajoelhar-se no arroz ou o dormir sobre cabides — envolvia em geral dor e perseverança. Embora a mãe criasse sua jovem família com delicadeza e compaixão, ela também o fazia com um rigoroso senso de autodisciplina, assumindo o papel de mãe com a seriedade de uma vocação.

— Minha mãe era uma fanática religiosa — disse Madonna mais tarde. — Sempre havia freiras e padres na minha casa quando eu era criança. Não sei quão curiosa era ela, o quanto procurou saber o que acontecia por trás das cortinas, porque é exatamente assim que sou, sempre quero saber o que está por trás do que vejo. Minha mãe tinha certeza de que o que estava fazendo era o certo, então talvez a gente tenha isso em comum. — Quando pequena, Madonna absorveu toda essa atmosfera religiosa. Na Sexta-Feira Santa, sua mãe cobria as imagens e estátuas religiosas da casa com um pano roxo até a celebração da ressurreição.

— Eu achava tudo aquilo um ritual bizarro, mas muito bonito. — Madonna também se lembra de a mãe ter coberto a estátua do Sagrado Coração de Jesus quando uma mulher entrou na casa usando jeans com zíper. Muito tempo depois, Madonna fez referência a essa lembrança ao colocar um close de seus quadris vestindo jeans na capa do álbum Like a Prayer, de 1989. A calça jeans também aparece com um zíper numa edição limitada do single Express Yourself. Na época de sua mãe, jeans significavam sacrilégio. Conforme a doutrina da entronização, possuir uma imagem do Sagrado Coração de Jesus era como ter um padre em casa. Como o escritor religioso Joseph P. Chinnici propõe:

— Era um ato fundamental colocar a imagem do Sagrado Coração de Jesus num local proeminente e acompanhá-la de um compromisso da família de rezar. Isso era direcionado intencionalmente contra as forças do divórcio, da educação não religiosa, da violação da santidade do casamento e da “campanha contra os padrões cristãos de modéstia realizada no modo de vestir, na imprensa e nos filmes”.15

As meninas geralmente começam a se separar aos poucos de suas mães na puberdade, mas Madonna teve que passar por essa ruptura bem mais cedo. Com a morte da mãe, ela se sentiu psicologicamente livre de um modo pouco comum para uma garota de sua geração. Como argumentam as terapeutas Luise Eichenbaum e Susie Orbach: “Quando uma mulher dá à luz uma menina, ela, de certo modo, está reproduzindo a si mesma. A mãe deve prepará-la para uma vida destinada ao cuidado com os outros, e também para o cuidado com ela própria. A mãe, consciente disso ou não, deve também preparar a filha para ocupar um lugar como o seu na sociedade, o de uma cidadã de segundo plano.”16

Uma mulher aprende com a mãe a reprimir os próprios desejos e passa isso adiante para a filha. No entanto, em vez de absorver essa mensagem ambivalente, a jovem Madonna identificou-se com o pai. De acordo com o que dizem Eichenbaum e Orbach, o pai é “a conexão com o mundo exterior no âmbito familiar, e a filha deve usá-lo para ter acesso a esse mundo. O pai encoraja a filha a seduzir a ele a ao público masculino, a atrair e prender sua atenção com atitudes femininas específicas, exatamente como ela precisará fazer mais tarde”.17 Garotas adolescentes frequentemente se identificam com o pai como uma forma de ganhar independência, mas para Madonna esse processo começou cedo. As histórias de “mostrar a calcinha” são inúmeras. Toda vez que ela tinha oportunidade, começava a fazer exercícios de ginástica ou simplesmente levantava as saias, exibindo-se para os meninos. Já mostrava uma ansiedade adolescente antes mes¬mo de atingir a pré-adolescência. Já estivera preparando seu caminho em direção ao mundo desde os cinco anos, e seu modelo — empreendedor, independente, focado em metas específicas — era masculino.

Um dos primeiros relacionamentos de Madonna foi com seu público. Ainda que a família fosse muito instável, diz-se que os Ciccone “não pareciam ser tão próximos”. Ignorando propositalmente a madrasta Joan, competindo com os irmãos e suplicando pela atenção do pai, que trabalhava muito, Madonna cresceu com uma profunda necessidade de estabelecer laços. O fator físico sempre foi importante para ela, não apenas por meio do sexo e da dinâmica dos relacionamentos, mas também pela conexão com o público. Em suas apresentações, ela recebe de volta a mesma energia que transmite a ele.

Sempre esteve atenta ao figurino, à fantasia, ao disfarce. As freiras de St. Andrew, a escola católica onde cursou as primeiras séries, a fascinavam pelos longos hábitos negros. Curiosa com o que havia sob aquelas roupas misteriosas, ela e uma amiga escalavam as janelas do convento para espiar as freiras se despindo. Mesmo criança, já percebia o poder da indumentária.

Os hábitos das freiras são símbolos de sua condição de noivas em luto. Quando uma freira faz os votos, é como se estivesse se casando com Cristo. Ela se deita prostrada diante do altar (imagem que Madonna reproduziu tanto no livro Sex quanto na turnê Confessions), numa declaração de amor ao Espírito Santo. Há uma ponta de sexualidade reprimida no catolicismo que advém do fato de as freiras e os padres permanecerem castos. O resultado dessa repressão é que a sexualidade se torna um foco de atenção.

Madonna sentiu-se instigada bem cedo a compreender os traços ocultos de sexualidade que percebia estarem presentes nos ensinamentos católicos. Irritada com a insistência de Joan em vestir suas irmãs e ela mesma com roupas de tecido e estampa idênticos, Madonna encontrava meios de reivindicar um estilo próprio — fosse vestindo blusas apertadas, saias curtas e passando batom vermelho à maneira vulgar da década de 1950, fosse indo à igreja vestindo apenas um sobretudo. Consolidar a união entre sexo e espiritualidade tornou-se uma missão para ela. E este viria a ser um vínculo que ela frequentemente voltaria a reforçar em seu trabalho ao longo dos anos que ainda estavam por vir.

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