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Viúvas oitentonas superam solidão e põem festa italiana de 100 anos de pé

Carine Wallauer/UOL
As "mamas" da Festa de São Vito, no Brás, encaram sete finais de semanas de maratona no fogão a partir de hoje Imagem: Carine Wallauer/UOL

Ana Paula Rogers

Colaboração para Universa

02/06/2018 04h00

É de dar inveja! Elas passaram dos 80 anos, são viúvas, todas voluntárias e com força de vontade tirada sabe-se lá de onde para uma maratona de sete finais de semana no comando do macarrão.

A tradicional Festa de São Vito, no bairro do Brás, em São Paulo, começa a comemorar seus 100 anos hoje (2/6). Esta edição será, para muitas das “mamas de São Vito”, como são conhecidas, uma mistura de celebração e lembrança dos maridos que se foram. “Ele passou mal aqui mesmo no ano passado e acabou falecendo”, conta Gina Labate, 86, sobre a morte do companheiro Luca logo depois da 99ª festa. 

À Universa, as mamas contaram como superaram até a depressão e como o voluntariado virou o combustível para ajudar crianças e tornar a Festa de São Vito um patrimônio da cultura italiana no Brasil. A Creche São Vito atende 103 crianças de um a quatro anos gratuitamente todos os dias das 7h30 às 17h30. 

Vindas da Itália muito jovens ou nascidas no Brasil, suas histórias pessoais se misturam às da festa. Leia os depoimentos:

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Marido passou mal e morreu depois da festa

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

“Eu e o Luca fomos casados por 58 anos. Trabalhei na festa ao lado de meu marido por 53. Depois nossos filhos vieram e trabalharam com a gente também. No ano passado, uma semana depois do fim da festa, a gente iria comemorar, como fazemos todo ano. Ele ficou aqui (no espaço onde o evento é realizado) para esperar o bolo, o churrasqueiro. Passou mal aqui mesmo e acabou falecendo. Ele esperava tanto pelos 100 anos, vibrava. Fazia parte da organização, estava muito preocupado com os preparativos." (Gina Labate Erriquez, 86 anos, trabalha na São Vito há mais de 53 anos e está viúva há pouco mais de um ano)

Este ano vai ter um significado ainda maior para mim. Tenho certeza que o Luca, lá de cima, estará feliz, porque será uma festa maravilhosa

Salvação do filho mudou tudo

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Imagem: Carine Wallauer/UOL

“Comecei a trabalhar por uma graça que salvou a vida do meu filho. E quis doar a minha força a esse trabalho voluntário. Esta festa de 100 anos será nossa realização, uma homenagem aos nossos antepassados. Eles fizeram a primeira festa dentro de um cortiço, depois construíram a igreja e hoje é um evento internacional. Significa muito para mim também por conta da saudade. Meu marido tinha o prazer de me ver feliz aqui. Ele mesmo falava para eu vir para cá." (Lisena Montanaro Carrieri, viúva, 81, trabalha na festa há 39 anos; viúva há um ano e meio)

É minha segunda casa, um pedaço da minha gente. A gente cria laços de amizade, de respeito. Na nossa idade, isso ajuda a superar a tristeza

Três anos e meio de depressão 

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

“Meu marido não trabalhava na festa, só ajudava a carregar os produtos. Em 2001 completamos bodas de ouro. E ele faleceu em 2004. Na noite em que ele se foi, no último dia da festa, falou para mim: ‘este é o último ano que venho te pegar’. Stefano tinha problema do coração e morreu depois de um mês. Eu passei três anos e meio com depressão. Não queria sair de casa, não queria fazer nada. Fiz vários exames e não aparecia nenhuma doença. Não queria cozinhar mais. Fui para Itália levar as cinzas de meu marido e lá pedi, dentro a igreja, que São Vito me ajudasse a melhorar. Eu não me segurava mais em pé.” (Luiza Montanaro Colella, 88, veio da Itália casada e com dois filhos italianos. No Brasil, teve mais dois. Trabalha lá há 38 anos e ficou viúva há 14)

Quando passo pela porta de entrada deste lugar, me sinto forte, posso cozinhar até dez panelas. Minha doença foi curada aqui

Amigas também se foram 

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

“Trabalho na festa há 30 anos e gosto muito. Sou viúva há muito tempo, meu marido morreu em 1960 e fiquei somente seis anos casada. Morreram muitas das nossas amigas também. A gente tem muita lembrança. A festa preenche a nossa vida porque a gente se distrai, brinca, não se sente sozinha.” (Anna Monte Real, 89 anos, nascida no Brás, casou em 1954 e seis anos depois ficou viúva)

Divulgação
Imagem: Divulgação

100ª FESTA DE SÃO VITO

Todos os sábados e domingos de 2 de junho a 15 de julho de 2018.

HORÁRIOS: Sábados, a partir da 19h até 00h30. Domingo, das 19h às 23h.

CANTINA: Rua Fernandes Silva nº 96, Brás, São Paulo, SP

PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO: Rua Polignano A Mare nº 255, Brás, São Paulo, SP 

Informações e reservas antecipadas: (11) 3227-8234; (11) 3229-5678; (11) 3326-2957. www.associacaosaovito.com.brfestasaovito@uol.com.br