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Direitos da mulher

Por que tão poucas mulheres dirigem caminhão no Brasil?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Matheus Souza

Colaboração para a Universa

01/06/2018 04h00

Uma rápida olhada nas imagens da greve de caminhoneiros que parou e desabasteceu o país nos últimos dias levantou o debate: por que tão poucas mulheres dirigem caminhões no Brasil? Um misto de desconhecimento, insegurança, machismo e até medo da licença-maternidade virou barreira, segundo profissionais da área ouvidas pela Universa.

Dados do mês de abril do Ministério das Cidades obtidos pela reportagem mostram que o país tem 2,3 milhões de pessoas habilitadas a dirigir caminhões e carretas. Desse total, o número de mulheres aptas não corresponde a 7%, ou pouco mais de 153,8 mil motoristas no Brasil --São Paulo concentra a maioria delas, com 124,5 mil caminhoneiras. O Acre tem o menor número, com 43 motoristas (veja os detalhes no gráfico abaixo).

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Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Desconhecimento e medo da licença-maternidade

Há quase uma década acompanhando o dia a dia dos profissionais da estrada, a jornalista Paula Toco, produtora e apresentadora do “Pé na Estrada”, programa direcionado a motoristas de caminhão, acha que “o mercado de caminhões é como muitos outros que sempre foram ‘profissões masculinas’. Por conta dos anos de presença quase exclusiva de homens, ainda poucas mulheres sequer pensam que essa profissão é uma opção para elas. Está aumentando, mas é lento. Como existem poucas ainda, são poucos os modelos que as mais jovens podem seguir para entrar na profissão". 

Qualidades para uma mulher dirigir um caminhão não faltam. Segundo Paula, autora do livro “E Se Eles Sumirem?” (2014), “alguns empresários afirmam que as mulheres são ótimas no caminhão, cuidam bem, dirigem com segurança, mas ainda assim alguns acham ruim ter que abrir mão da profissional no período de licença-maternidade.”

A sociedade machista como um todo não incentiva a mulher a cair na estrada”.

Fim do casamento pelo amor ao caminhão

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
 

A carreteira Sandra Maria Dias da Silva, 56, é filha e irmã de caminhoneiros e participou da paralisação na cidade de Matão (SP). Acostumada a rodar até oito mil quilômetros por mês com cargas de combustíveis por quatro estados, ela sente-se realizada, mas precisou de coragem e até mesmo mudar de vida para cair na estrada.

No ano 2000, após perder os dois irmãos num acidente de caminhão, Sandra decidiu após os 40 anos não deixar morrer a tradição da família e decidiu tirar a habilitação específica. Seu marido na época, no entanto, a proibia. “Ele era mecânico de carros de corrida. Precisei esperar ele fazer uma longa viagem parar tirar minha habilitação. Quando ele voltou, eu já estava pronta para pegar a estrada”, disse.

Tempos depois, o casamento acabava. E começava a nova vida. “Dirigi uma carreta pela primeira vez em 2005. Era um graneleiro carregado de açúcar que dirigi de Catanduva (SP) até o Porto de Santos. As pernas e os braços tremiam pra caramba”, recorda, rindo.

Sandra se diz respeitada pelos colegas, mas concorda que o machismo persiste em algumas situações. "No início da minha carreira. Estava com um caminhão bitrem (que tem uma carreta articulada, usada no transporte de cana-de-açúcar) manobrando num pátio, vindo de ré. Um cara vira pra mim e diz para eu descer, que ele manobraria. Achei aquilo um desaforo. De raiva, estacionei de primeira”, disse ela.

 “Se chego sozinha num posto em que só tem chuveiro no banheiro dos homens, peço para algum colega ficar na porta para avisar os outros"

Medo e insegurança no pernoite

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Coordenadora de treinamentos para motoristas numa transportadora em Piracicaba (SP), Janaína Silva, 40, trabalhou por três anos como instrutora no Senat (Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) e conta nos dedos de uma mão o número de mulheres em suas aulas. “São pouquíssimas. A maioria está na profissão por histórico de família, sempre tem um pai, um avô ou um tio caminhoneiro”, disse.

“A porcentagem é baixa justamente pela segurança. As paradas para pernoite não oferecem estrutura sequer para os homens, imagina para as mulheres. Não contam com locais adequados para banho. São jornadas de 20, 30 dias em viagem”, disse ela. “As melhores opções acabam sendo viagens mais curtas. Diminui-se riscos como, por exemplo, de quebra.”

Segundo Sandra, os desafios das mulheres na estrada são quase os mesmos dos homens. Dificuldades para carregar ou descarregar em usinas ou portos, falta de respeito com o agendamento e organização dos caminhões nesses locais. Paula Toco concorda: “A saudade de casa, o salário muitas vezes incompatível com a responsabilidade sobre o patrimônio que controlam, riscos de acidentes e assaltos na estrada são os riscos enfrentados por homens e mulheres na estrada”.

Dados: Ministério das Cidades, abril/2018