Diversidade

Não é só gay! As mulheres por trás da semana da visibilidade LGBT

LEONARDO BENASSATTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Parada do Orgulho LGBT de 2017 Imagem: LEONARDO BENASSATTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Helena Bertho

da Universa

01/06/2018 04h00

Muita gente pode até chamar de Parada Gay, mas é importante lembrar que o evento que acontece domingo, em São Paulo, é a Parada do Orgulho LGBT. Dentro dessa sigla, estão muitas mulheres: as lésbicas, as bissexuais e as transgêneros. Se por um lado as demandas do combate ao preconceito em comuns entre todos são as mesmas, as mulheres da sigla também buscam visibilidade e atenção para as questões que só as atingem.

Como um sinal disso, há 15 anos acontece, na véspera do grande evento, a Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais. E esse ano estreou ainda, na quinta-feira, a Marcha do Orgulho Trans.

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Mas não é só nos eventos paralelos à Parada -- que está em sua 22ª edição -- que as mulheres buscam espaço, não. A organização da Parada conta com mulheres em sua diretoria e, atualmente, a presidente da Associação é uma mulher.

Para saber o que buscam na semana da visibilidade LGBT as mulheres envolvidas, a Universa conversou com a presidente e a secretária da Parada e duas organizadoras da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais. A Marcha do Orgulho Trans, procurada pela redação, informou que não conta com mulheres em sua organização.

UOL
Cláudia Regina é presidenta da Associação da Parada do Orgulho LGBT Imagem: UOL

Mulheres dirigindo a Parada

Foi numa edição da Parada, há cerca de quinze anos, que Cláudia Regina, hoje com 55 anos, beijou pela primeira vez uma mulher na rua. "Eu nunca beijei uma namorada em um lugar que não fosse minha casa ou um bar. Naquele dia, havia umas 300 mil pessoas. Eu vi um rio de gente descendo a Consolação [famosa rua por onde passa a Parada], com a bandeira do arco-íris. Aquilo me deu coragem. Eu beijei minha namorada pela primeira vez na rua", conta.

Para ela, essa cena resume muito da importância do que é a manifestação: mostrar às pessoas LGBT que não estão sozinhas e que podem se sentir seguras.

Foi depois desse episódio que ela começou a integrar a organização do evento, do qual hoje é presidenta. Alguns anos antes, quem tinha entrado também para a associação foi Adriana da Silva, 42, mulher trans e secretária da Associação da Parada do Orgulho LGBT.

A diretoria conta, ainda, com mais uma mulher e, juntas, elas dizem lutar para garantir que as questões de mulheres lésbicas, bissexuais e trans estejam sempre presentes nas demandas do evento e não sumam em meio as pautas gays.

Machismo e violência contra as LBTs

Arquivo Pessoal
Adriana é secretária da Parada do Orgulho LGBT Imagem: Arquivo Pessoal

"Machismo é uma questão de educação e os gays não estão livres disso. Mas, quando você está junto na luta, mostrando parceria, você consegue quebrar muito isso", explica Cláudia.

Adriana, porém, acha que "existe rivalidade entre gays e travestis", mas, mesmo assim, a Parada é um evento essencial na luta por direitos de mulheres trans e travestis. Sobre as demandas, ela cita as conquistas que o grupo já teve, como o direito a nome social, e aqueles pelos quais ainda lutam, como o fim da violência.

Cláudia menciona, ainda, que as mulheres trans e travestis são as maiores vítimas de violência, mas existem demandas específicas das mulheres lésbicas. "A homofobia mata todos, mas as mulheres têm uma questão de saúde que sempre foi um tabu. Não tem tratamento adequado na ginecologia e muitas nem vão ao médico por medo de serem atacadas ou agredidas", diz ela.

Mas ambas acreditam que para lutar por essas questões, não é momento de dividir e, sim, de somar forças com os homens gays. "Um problema que eu vejo do movimento lésbico é que ele não se aproxima da Parada", explica Cláudia.

E Adriana completa que a Parada é mais do que um dia de ato: "Nós fazemos conscientização o ano todo".

Sobre comentários de que o evento seria festivo demais, causando uma imagem negativa para o movimento LGBT, Adriana diz: "Desculpa, putaria tem até na marcha para Jesus. A gente está indo para a rua publicamente se manifestar e colocar uma bandeira. Quem vem junto na festa, a gente não tem controle".

E, como ato político, o tema do evento esse ano são as eleições. "Estamos em um momento de medo, retrocesso de direitos. A comunidade LGBT precisa ter consciência, voto não é mais voto de fã. Tem que ser em candidatos que tenham postura progressista, porque eles vão combater essa bancada conservadora".

"É superlegal ter um carnaval LGBT, mas a gente precisa de mais do que isso"

Helena Bertho/UOL
Maíra Mee e Mari Lazzari estão na organização da Caminhada das Mulheres Lésbicas e Bissexuais Imagem: Helena Bertho/UOL

"Qualquer pessoa, quando pensa na Parada, pensa em gay. A Caminhada é uma resposta política e de gênero à Parada", diz a tradutora Maíra Mee, 40, lésbica e uma das organizadoras da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais.

Para ela, mesmo com todos os avanços nos debates sobre homofobia e sobre gênero, as questões de mulheres lésbicas e bissexuais têm ficado invisíveis. "Essas questões continuam super para trás nesse debate de gênero e dentro do movimento LGBT", diz.

Sobre questões específicas, ela e Mari Lazzari, 22 anos, bissexual e também organizadora do evento, citam: saúde, violência e disparidade de renda.

"Não se desenvolve a conversa sobre as infecções sexualmente transmissíveis entre pessoas que têm vagina e como prevenir", diz Maíra. Ela menciona, também, a necessidade de falar sobre assassinato de mulheres e estupro corretivo.

Por fim, fala de salário: "A gente sabe que mulheres recebem uns 30% a menos que um homem da mesma cor. Então, se você coloca duas mulheres negras formando uma família, a gente está falando de uma renda muito baixa. Que é o extremo oposto, se você pensar, do que são dois homens brancos juntos", explica.

Além de trazer o debate de gênero, elas contam que a Caminhada também procurar ter um caráter mais político. Conforme a Parada foi ganhando esse caráter festivo que tem hoje, as mulheres sentiram a necessidade de trazer um evento com com ar de manifestação. Não acham, no entanto, que um evento exclua o outro.

Mari costuma, inclusive, ir à Parada. "Mas acho importante a gente ter essa postura crítica, de dizer que LGBT não é só festa. Senão, as demandas sérias não são cumpridas".

"Eu acho superlegal ter um carnaval de rua desse tamanho, cuja temática central é LGBT. Nunca gostaria que a Parada não existisse. Mas a gente precisa de mais do que isso", completa Maíra.

Ao contrário da Parada, a Caminhada não conta com uma diretoria organizada. A cada ano, as interessadas em fazer acontecer começam a se reunir e vão assumindo as funções de acordo com as necessidades. Além do ato em si, no sábado véspera da Parda, elas fazem atividades como rodas de conversa, jogos de futebol e sessões de cinema. 

Essa é a 16ª edição da Caminhada e o tema central do protesto é: "Somos Marielle: contra a criminalização da pobreza, o genocídio e a intervenção militar".

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