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Minha história

"Adotei minha sobrinha com microcefalia após rejeição dos pais"

Arquivo Pessoal
Miriam Pereira decidiu que seria mãe de Maria Eduarda Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

01/06/2018 04h00

Diagnosticada com microcefalia e rejeitada pelos pais, o destino de Maria Eduarda seria a adoção. Com medo que a sobrinha não sobrevivesse, a faxineira Miriam Pereira, 42, resolveu ficar com a criança e criá-la como filha dias depois de receber alta de um tratamento contra leucemia. “Fui curada para me tornar mãe da Duda”. Leia o depoimento dela:

“Minha cunhada foi infectada com o zika vírus no terceiro mês de gestação. Ela e meu irmão trabalhavam com carroça de lixo reciclável, passavam muito tempo na rua. Numa dessas saídas, ela combinou com uma mulher de dar o bebê quando ele nascesse. Aos 29 anos, ela já havia tido nove filhos contando com a Maria Eduarda; dois eram do meu irmão. Dos nove, dois morreram, os outros ela deu e ficou com uma menina.

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Maria Eduarda não enxerga, nem anda Imagem: Arquivo Pessoal

Rejeitada duas vezes, a Maria Eduarda iria para a adoção

Quando a Duda nasceu, ela foi diagnosticada com microcefalia. O médico disse que a situação dela era crítica e que ela só teria três meses de vida. Eu liguei para a mulher que iria adotá-la para avisar que ela podia ir buscá-la no hospital. Quando eu falei da deficiência dela, ela respondeu que não estava pronta para cuidar de uma criança especial.

Eu contei à minha cunhada e ao meu irmão o que tinha acontecido e perguntei se eles iriam ficar com a filha. Imaginei que diante daquela realidade, eles iriam reconsiderar a decisão. O meu irmão ficou quieto e a minha cunhada disse que não queria e que não saberia criar um bebê com microcefalia. Fiquei triste com a atitude deles, deu uma dor no coração. Senti dó da minha sobrinha porque ela não pediu para vir ao mundo e com apenas um dia de vida já havia sido rejeitada duas vezes.

Uma assistente social foi ao hospital, analisou o caso, conversou com os pais e constatou que eles não estavam aptos e nem tinham condições financeiras para criar a menina. Ela seria encaminhada para a adoção. Eu disse que a adotaria porque sabia que ela não sobreviveria se não recebesse os cuidados adequados. Olhava para ela tão pequena e sem proteção e já sentia um amor incondicional por ela. Não seria fácil, mas tendo amor e carinho tudo se resolveria.

Fui curada da leucemia para me tornar mãe da Duda

Eu tinha acabado de vencer uma leucemia que havia lutado por cinco anos. Recebi alta no dia 15 de novembro de 2015. A Duda nasceu sete dias depois, no dia 22. Todos os pacientes que fizeram o tratamento comigo morreram, só eu sobrevivi. Naquele momento tive a certeza que Deus me curou para me tornar mãe da Duda.

Na época eu estava com 40 anos, já tinha dois filhos, uma moça de 23 e um rapaz de 18. Eles e minha nora me apoiaram e juntos começamos a cuidar da nossa princesa. Logo depois de deixar a maternidade, a Duda sofreu a primeira parada cardíaca e precisou ficar internada por dois meses. Foi doloroso vê-la sofrendo daquele jeito. Nesse período, ela colocou uma sonda no nariz para se alimentar.

Após alguns exames e avaliações, o médico disse que ela não iria enxergar, escutar, falar e nem andar. Ele explicou que ela precisaria fazer um tratamento complexo, mas falou para eu me conformar e ter força porque ela não viveria por muito tempo.

Tive de mudar tudo para me dedicar à minha filha. Eu trabalhava como faxineira e lavadeira. Minhas patroas marcavam as faxinas e eu não conseguia ir porque eu vivia em hospital com ela. Como precisava de dinheiro para pagar as contas, lavava e passava as roupas delas em casa. Meu filho é instalador de som e disse para eu largar o serviço, que ele iria trabalhar e não faltaria nada para a nossa família. Sobrevivemos com o salário dele, com um benefício que a Duda recebe por ser deficiente e com a ajuda financeira de um projeto social. 

Arquivo Pessoal
A mãe de Duda foi infectada pelo zika vírus durante a gravidez Imagem: Arquivo Pessoal

Meu maior sonho é vê-la andar e enxergar

Hoje minha filha está com dois anos e meio. Nossa rotina é bem puxada. Ela faz fisioterapia duas vezes por semana, estimulação visual e auditiva, terapia ocupacional e fonoaudiologia. É um processo lento, confesso que me machuca quando vejo as outras crianças respondendo aos estímulos e a Duda não escuta e não fala nada, fica quietinha. Mas também aprendi a celebrar cada detalhe, como no dia em que ela tirou a sonda e passou a se alimentar pela boca com a comida que preparo no liquidificador.

Muitas pessoas comentam o que o que seria da Duda sem mim, mas eu penso o contrário. Antes dela, eu era uma pessoa estourada, que só murmurava. Hoje sou mais paciente e humilde. Ela me trouxe alegria e esperança. Ela é uma criança que luta todos os dias para sobreviver, é uma guerreira. Ela me ensina a não reclamar e a ser grata pela vida.

Meu maior sonho é vê-la andar e enxergar para ela ver quem são as pessoas que a amam. Acredito no milagre de Deus. Tenho fé que a Maria Eduarda vai ser uma missionária mirim de microcefalia, vai viver muitos anos e vai cuidar de mim quando eu ficar velha”.

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.