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Política

Marcia Tiburi: "Fui sondada pelo PT e considero governo centro-esquerda"

Reprodução @marciatiburi
Marcia Tiburi Imagem: Reprodução @marciatiburi

Marcela Paes

Da Universa

30/05/2018 18h43

Pela primeira vez a filósofa Marcia Tiburi resolveu se manifestar sobre a possibilidade de disputar o governo do Rio de Janeiro. "Cheguei, é verdade, a ser sondada para o caso do Celso não concorrer ao governo do Estado, mas isso não passa de uma hipótese. Um convite como esse sempre precisa ser objeto de muita reflexão", diz a professora.

Recém-filiada ao PT - Marcia entrou para o partido em março deste ano -, a filósofa foi figura ativa na defesa de Lula durante o processo da Lava Jato. Também esteve durante o dia todo no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo na data da prisão do ex-presidente. "Foi principalmente a partir dos ataques e das injustiças praticadas contra ele que mudei o meu modo de ver e passei a identificar a grandeza do ex-presidente Lula", explica.

Se houver de fato a sua candidatura, ela diz que "o desafio é imenso e exigirá muito trabalho". Marcia diz que está empenhada em trabalhar por uma grande frente de esquerda "e, por que não, de centro-esquerda".

Leia abaixo a entrevista exclusiva com a filósofa, que concordou em falar por e-mail com a Universa com a condição de que suas respostas fossem publicadas na íntegra.

Marcia, de acordo com uma notícia do jornal Extra, foi anunciado em uma reunião na casa do do antropólogo Luiz Eduardo Soares que você entraria no lugar de Celso Amorim como candidata do PT ao governo do Rio. Houve um convite do partido ou pelo menos conversas para que você assumisse esse posto?

Meu candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro é o Ministro Celso Amorim. Celso Amorim e a equipe que o Partido dos Trabalhadores está reunindo têm todas as qualidades para administrar um Estado em crise e resgatar a alegria de se viver no Rio de Janeiro. Alguns outros bons nomes aparecem como pré-candidatos de seus partidos, como o Leonardo Giordano do PCdoB e o Tarcísio Motta do PSOL. Cheguei, é verdade, a ser sondada para o caso do Celso não concorrer ao governo do Estado, mas isso não passa de uma hipótese. Na reunião na casa de Luiz Eduardo, a questão era maior do que a das candidaturas dos partidos. Era a questão da unidade da esquerda no Rio. Partidos, movimentos, e cidadãos que militam independentemente. Na realidade, estou empenhada em trabalhar por uma grande frente de esquerda e, por que não, de centro-esquerda. Isso hoje me parece essencial no contexto em que todos devem se comprometer com a reabilitação da democracia. Acredito que não é hora para o narcisismo das pequenas diferenças que possa haver entre partidos que tem afinidades democráticas profundas. Nem para projetos pessoais de poder que sempre há em todo lugar. Todas as forças progressistas devem superar ressentimentos e vaidades para se unir e devolver o Estado do Rio de Janeiro, que atualmente está vivendo uma grande catástrofe social, política e econômica, ao povo

Se fosse formalizado o convite, você aceitaria?

Um convite como esse sempre precisa ser objeto de muita reflexão. Não acredito em projetos individuais em política. Eu mesma gosto muito de fazer a política em sentido genérico que já faço e sempre fiz como professora de filosofia que sou ajudando a melhorar a mentalidade. Meu desejo é o de ver as forças de centro-esquerda reunidas. Uma eventual candidatura minha só seria possível como o resultado de muito diálogo entre essas forças que pensam representar o desejo de democracia entre nós.  Pessoalmente eu pretendo ajudar a resgatar a alegria política que é necessária para se viver em qualquer lugar, e também no Estado do Rio de Janeiro tendo em vista as suas péssimas atuais condições. Só seria válida uma candidatura em meio a um projeto coletivo e aí teríamos que convocar o melhor time entre capacidade técnica e disponibilidade democrática para recuperar a economia, a saúde, a educação e a cultura e a segurança pública. O Rio de Janeiro tem graves problemas nesses campos. O desafio é imenso e exigirá muito trabalho, mas se for o caso de aceitar um convite, há excelentes nomes em todos os partidos e na sociedade civil para protagonizar esse processo.

Você foi uma das fundadoras da PartidA, um movimento feminista a fim de impulsionar mulheres para a ocupação do governo. Esse movimento continua ativo? Diria que foi uma espécie de semente da sua filiação ao PT?

A PartidA continua a sua maneira, sendo um movimento que nasce de maneira horizontal e dentro dos contextos. A PartidA não é um projeto de poder tradicional, mas um movimento de provocação para as mulheres, as feministas e a sociedade em relação a pensar e fazer política envolvendo também os contextos tradicionais machistas, instituições em geral, partidos inclusos. Obviamente é um movimento que tem por objetivo empoderar mulheres, e causar seu protagonismo. Mais precisamente as pessoas que querem fazer parte da PartidA, estão ocupadas em fazer com que feministas, mulheres comprometidas com a luta pela igualdade de direitos, ocupem espaços de poder. O que constitui a PartidA, é o ato de ocupar.  Sejam partidos, ou outros espaços importantes na luta por um Brasil menos desigual. Na Partida, nós temos feministas filiadas a diversos partidos, espalhadas pelo Brasil inteiro, bem como companheiras de movimentos sociais e outras que não gostam da vida partidária. Toda mulher que deseja reduzir as desigualdades no Brasil, da desigualdade doméstica à desigualdade racial ou de classe, é bem-vinda na Partida. Quando ajudei na fundação da Partida, eu era filiada ao PSOL. A experiência com o PSol me colocou questões relacionadas ao poder tradicional que eu não teria se não tivesse passado por lá. Foi uma ótima experiência. A Partida existe com vários partidos políticos, mas não está ligada a nenhum partido em particular. 

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Sua crítica ao funk, que é um gênero muito popular, atrapalharia uma atuação política sua, seja como candidata seja como apoiadora de um outro candidato da esquerda?

Em um texto publicado em 2012, fiz uma crítica à utilização da performance corporal-sonora do funk brasileiro como uma “nova espécie de ópio do povo”. O funk era, então, cooptado pela Indústria Cultural e transformado em mais uma mercadoria. Na ocasião, apresentei a hipótese de que o funk carioca era o conteúdo rejeitado pela elite brasileira que havia sobrado para as classes populares. Procurei demonstrar também os riscos da moralização através do funk. Cada vez mais, segundo a minha leitura daquela época, o caráter transgressor do Funk era domesticado e transformado em instrumento de moralização e, ao mesmo tempo, de introjeção de fórmulas sexistas. Diante dessa crítica, muitos passaram a dizer que eu desprezava o movimento funk por uma questão de classe. Não é verdade. E isso pode ser percebido em outros textos meus. Em 2014, por exemplo, escrevi que funkeiros, como Valesca Popozuda, a quem particularmente admiro, atuam como uma espécie de Robin Hood estético, pois roubam simbolicamente dos “ricos” para dar aos “pobres” e exercitam o deboche de forma crítica para desvelar o ridículo de uma sociedade burguesa cafona. Escrevi sobre essas relações entre estética e política em vários de meus ensaios políticos dos últimos anos. Além disso, é inegável a dimensão de resistência e de alegria que o Funk permite a uma grande parcela da população. De lá para cá, mas principalmente depois que me mudei para o Rio, passei a compreender a complexidade do funk carioca, que é ao mesmo tempo uma diversão, uma crônica e uma reflexão autêntica feita por parcela da sociedade que normalmente não tem voz. A perseguição ao funk pouco difere da perseguição que antes era voltada ao samba e à capoeira. Mas o meu ponto era outro. No artigo que você leu, meu argumento era de que o funk tinha sido confinado pela própria burguesia que gosta de colocar em guetos aquilo que ela quer manter dócil. Do ponto de vista musical, não é o meu gênero preferido, embora eu possa dizer que me soa mais agradável aos ouvidos do que o sertanejo universitário. Imagino que o funk é para mim, que estudo estética, o que o Jazz era para o Adorno. Agora, é inegável que para entender o Rio de Janeiro hoje é fundamental conhecer e compreender o funk carioca. Para quem nunca foi a um baile, recomendo.

Você saiu do PSOL porque não concordava com um partido que apoiasse a Lava Jato, mas qual foi o principal motivo para sua filiação ao PT?

Eu saí do PSOL por vários motivos. O PSOL é um partido maravilhoso, com pessoas maravilhosas, mas que como todos os partidos, como todas as construções humanas, também apresenta defeitos. Uma das minhas decepções foi a adesão de lideranças do PSOL a uma espécie de populismo penal sem compromisso com a democracia constitucional.
Não há ninguém de boa-fé que seja contrário à luta contra a corrupção. Agora, quem defende a democracia, não pode aplaudir que, para combater a corrupção, os direitos e garantias constitucionais de uma pessoa, de qualquer pessoa, sejam violados. A “Lava Jato” é um complexo de vários processos, muitos dos quais conduzidos ao arrepio da legalidade democrática. Prisões para obter delações e outras práticas inquisitoriais se tornaram constantes. Conforme já se manifestaram alguns dos maiores juristas do Brasil e do mundo, a pretexto de combater a corrupção, a Lava Jato se tornou um instrumento de corrupção da Constituição e da própria democracia. Só quem não quer ou não consegue analisar com mais cuidado não vê uma coisa dessas.


Já a minha filiação ao Partido dos Trabalhadores foi um ato com duplo simbolismo. Para mim, do ponto de vista ético, foi a concretização de um compromisso tanto contra a demonização de um dos maiores partidos de esquerda do mundo, quanto pela união das forças de centro-esquerda. Acredito que o Estado tem uma importante missão na redução da desigualdade e na solução de diversos problemas da sociedade. Se isso é ser de esquerda, a meu ver todo cidadão que tivesse um mínimo de ética, no Brasil, deveria aderir à esquerda. Enquanto vivíamos na bolha democrática após a redemocratização formal do país, eu fiz a crítica do PT. Hoje, diante da quebra da normalidade democrática, acredito que não há espaço para divisões e que devemos caminhar juntos em direção à reconstrução da democracia, e nesse sentido, não podemos jogar fora o PT que foi um ótimo acelerador das transformações históricas que almejamos. Ao me filiar no Partido do Trabalhadores reconhecia não só a importância desse partido para as lutas democráticas como também a necessidade de superar pequenas diferenças em nome da união daqueles comprometidos com a redução das desigualdades no Brasil.


Meu desejo agora é ajudar na concretização das bandeiras históricas, dos princípios e dos sonhos que levaram à criação do Partido dos Trabalhadores, isso sem ignorar a necessidade de refletir sobre os acertos e os erros produzidos ao longo da sua história. Acredito que o Partido dos Trabalhadores é, hoje, o melhor lugar para realizar a crítica do existente, propor projetos alternativos de emancipação e, como dizia Marx, fazer com que a filosofia não apenas pense o mundo, mas assuma a sua tarefa de transformar o mundo. Se eu vier a me candidatar será em nome desse dever ético-político da filosofia que, mais do que nunca, precisa também ser feminista. 

Você já chegou a dizer “Lula já te odiei tanto e agora eu te amo tanto”. Como foi esse processo de ressignificação da figura de Lula para você?

Foi principalmente a partir dos ataques e das injustiças praticadas contra ele que mudei o meu modo de ver e passei a identificar a grandeza do ex-presidente Lula. Eu sempre fui crítica em relação a determinados aspectos dos governos petistas, mas nunca ignorei a importância do Lula na melhoria das condições concretas de vida das classes populares. Quem conheceu os lugares mais pobres do Brasil antes do governo Lula e teve o prazer de visitar depois, sabe da importância das políticas públicas desenvolvidas nos governos petistas. Lula fez muito e ainda vai fazer muito mais pelo Brasil. O mesmo posso dizer de Dilma Rousseff, eu fui muito mais crítica do seu governo do que do governo Lula, mas a defendi e ainda defendo contra o golpe que viveu. Nós vivemos com ela, pois a democracia é questão de todos nós. Mas, foram os ataques protagonizados pelos personagens mais abjetos da vida pública brasileira, os processos judiciais e a campanha de parcela da mídia contra o ex-presidente que me chamaram a atenção e permitiram observar melhor, estudar e compreender a importância do Lula e do que ele representa para o Brasil. 

Muita gente pensa assim hoje. Muita gente se filiou, muita gente que jamais votou em Lula pretende corrigir seu erro agora. Como filósofa, sempre me interessei pela verdade e pela leitura das aparências. Havia algo de evidentemente falso que se escondia no discurso de combate à corrupção e nas acusações contra Lula. E não se tratava apenas de uma impressão minha. Livros já foram escritos sobre as falácias, as atipicidades processuais e os erros jurídicos contra Lula. E a cada ataque injusto, a cada ilegalidade cometida pelos inquisidores, aumentava a minha identificação com o ex-presidente. Acho que pelo fato de ser marcada como mulher em uma sociedade ainda patriarcal, sexista, misógina e também por ter nascido em um contexto de muitas carências materiais, essa identificação foi ainda mais fácil. Hoje, Lula simboliza a resistência contra a racionalidade neoliberal, o pensamento autoritário, a demonização da política e a opressão estatal. Não há como deixar de lutar ao lado dele, neste momento, em defesa da reconstrução e do aprofundamento da democracia brasileira.

Você abandonou um programa de rádio ao saber que teria que debater com Kim Kataguiri. Se de fato existir essa possibilidade de você entrar para a vida política, acha que vai precisar relativizar essa posição?

Na minha vida me neguei poucas vezes a participar de debates. Já debati com pessoas de direita e de esquerda, intelectuais ou não. Eu já fiz muita televisão. Encontrei todo tipo de pessoa. Sempre que me recusei a debater com alguém, foi por uma questão de coerência. Já disse isso outras vezes, mas é bom repetir que tenho o direito de não legitimar como interlocutores pessoas que se notabilizam por agressões, mentiras, fakenews e distorções da realidade com finalidade política. Vocês nunca vão me ver participar de eventos grotescos em que se pretende fazer confusão e idiotizar a população a partir de ideias vazias, chavões, mistificações, estereótipos ideológicos ou outros mecanismos que levam ao vazio do pensamento. Também não gosto de meios de comunicação que buscam audiência e lucro a partir de personalidades que exploram tanto a ignorância quanto o sexismo e outros preconceitos introjetados por muitas pessoas que fazem parte da população brasileira. Se isso infelizmente acontece, esses meios não vão contar com a minha participação. Não me parece que tenha de mudar de opinião sobre essa questão, caso decida participar mais ativamente da vida política brasileira. Aliás, vou procurar sempre manter a coerência. Não pretendo mudar ou fingir ser uma pessoa que não sou.