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Ciro se diz feminista "antes da modinha" e machista, não, "em nenhum grau"

Carine Wallauer/UOL
21.mai.2018 - O pré-candidato à presidência Ciro Gomes (PDT) participa de sabatina do UOL, Folha de S. Paulo e SBT Imagem: Carine Wallauer/UOL

Juliana Linhares

da Universa

22/05/2018 04h00

Ciro Gomes, o pré-candidado do PDT à presidência da República, diz que está mais calmo. Diz também que não se considera machista em "nenhum" grau e que "antes da modinha", teve atos feministas nos governos de Fortaleza e do Ceará, por exemplo, ao nomear mulheres para a metade dos dois secretariados.

O ex-ministro de Lula considera a legislação a respeito do aborto "anacrônica". Perguntado se concorda com a prisão, prevista em lei, de mulheres que abortam fora das possibilidades constitucionais, Ciro não responde categoricamente. Mas dá um sinal: "O Estado não deveria ser um agravante dessa tragédia (referindo-se ao aborto)".

Casado pela terceira vez - há dois anos, ele mora com a cearense Giselle Bezerra, Ciro afirma ser "oportunismo" relembrar a frase de que o papel de Patrícia Pillar, sua esposa na corrida presidencial de 2002, era o de dormir com ele. Que a frase não pautou sua carreira política, mas que esse foi "um momento muito burro" de sua vida. "Vamos focar no presidente. Primeira-dama a gente conversa depois", diz Giselle, respondendo sobre quais são seus projetos para o cargo. Ela é produtora de TV e teatro, já atuou como atriz em dois filmes e como dançarina no grupo Manos e Minas, do Xou da Xuxa. 

Universa: O senhor concorda com a legislação vigente sobre o aborto?

Ciro Gomes: Não. Eu acho que ela é anacrônica, embora esse seja um assunto muito delicado, porque há um pensamento religioso e moral sobre ele, e não é tarefa do presidente deslindar isso. Talvez seja tarefa do Congresso Nacional. O aborto é uma tragédia emocional e uma tragédia de saúde pública. 

Quais pontos especificamente o senhor considera anacrônicos na lei?
Não sou candidato a guru de costumes. Sou candidato a presidente, num país que é extremamente cristão, católico, crescentemente neopentocostal e que tem uma posição absolutamente intransigente em relação ao tema. O que o presidente da República tem que fazer é ponderar pela tolerância e pelo debate, sem interdição.

Acha que deva ser presa a mulher que faz aborto fora das três previsões; estupro, risco de vida para a mãe e feto anencéfalo?
O Estado não deveria ser um agravante dessa tragédia. 

O senhor conversa com sua mulher sobre projetos que ela desenvolverá enquanto primeira-dama?
De jeito nenhum. Antes de mais nada, é preciso ter humildade para saber que a minha eleição está muito distante de ser um fato. O que posso dizer é que a Gisele é uma pessoa maravilhosa, extraordinária e que tem me ajudado em todos os momentos.

[Para Giselle] Está ansiosa com a possibilidade de ser primeira-dama?
Gisele: O que importa agora é o melhor para o Brasil. Vamos focar no presidente. Primeira-dama a gente conversa depois.

Qual é o peso nesta campanha, da frase que o senhor proferiu na corrida presidencial de 2002, de que a função de Patrícia Pilar, sua então esposa, era o de dormir com o senhor?
Lembrar disso nada mais é do que oportunismo. Essa é uma frase, uma brincadeira de mau gosto que fiz há 16 anos, e da qual me desculpei nela mesmo, na própria fase, apenas uma vírgula depois. Foi um momento muito burro da minha vida. Mas vocês vão ficar encarregados de lembrar desse episódio eternamente. Tenho que ter paciência.

O senhor se considera, em algum grau, machista?
Em nenhum grau. Nunca. Seja pela mãe que tive, pelas parceiras que tive na vida ou pelos governos que exercitei. Vai ver se alguém no Nordeste brasileiro, quando não era modinha ser feminista, deu a proporção de secretarias às mulheres como aconteceu na minha prefeitura de Fortaleza e no governo do Ceará.

Qual era essa proporção?
Quase metade dos dois governos.

Ela vai se repetir nos seus ministérios, caso seja eleito? 
Meu governo será feminista. Evidentemente, os limites políticos disso ainda não estão dados, porque não sei se vou me eleger e nem com que tipo de força. No Ceará, me elegi com força para fazer isso acontecer. Agora, é claro que elas não foram para lá só por serem mulheres. Foram porque eram extraordinariamente competentes. E ocuparam pastas principais, como educação, saúde, desenvolvimento urbano e meio ambiente.

E feminista, o senhor se considera? Há quem defenda que um homem não pode se dizer feminista.
Sim. O capitalismo acabou desmontando uma tendência natural da humanidade de devolver às mulheres o protagonismo que sempre foi delas. O capitalismo, quanto mais selvagem, mais relega a mulher ao 'bela, recatada e do lar'. Quando ele é domado e civilizado, essa tendência vai se retomando. 

O senhor disse, no ano passado, que faltava testosterona para a campanha da Marina Silva.

Jura que eu disse isso?

O senhor não disse?
Você me viu dizendo?

Não vi. Li sobre o episódio. O senhor não disse essa frase?
Não, eu disse outra coisa. Eu disse que o momento, portanto, não estava falando da Marina, era muito agressivo, violento e caracterizado por uma certa testosterona. E a Marina é uma pessoa muito doce e avessa à agressividade. Elogiando a Marina. eu disse isso. Denunciando o momento, eu disse isso. O resto é manipulação.

O que a testosterona pode agregar a um presidenciável?
Testosterona não agrega nada. Testosterona, simplesmente, neste contexto que a quem escreve deveria ser muito simples de entender, é um hormônio associado na metáfora à agressividade.

O senhor é agressivo?
Já fui mais. Hoje eu estou suportando com mais calma. Eu convivo pouco e mal com vulgaridade, com desonestidade. Tenho esse problema.

Em palestra na Câmara de Comércio Brasil-Suécia, em Estocolmo, dias atrás, falando sobre um eventual indulto a Lula, o senhor falou palavrões (“Lula could send me to putaquiupariu”).
Não, eu não soltei palavrões. Eu falei um palavrão, mencionando que outrém poderia dizer aquele palavrão. Errei, não sabia que estava sendo gravado. Estava em um momento absolutamente normal de dizer aquilo no contexto. Mas hoje em dia ninguém pode ser inocente, tudo é gravado. Ok, errei, não falei de novo. E por que você só presta atenção nisso?

Não presto atenção só nisso. Minha próxima pergunta é...
Você devia perguntar por que eu renunciei a três pensões mensais vitalícias que me dariam R$ 86 mil reais por mês. Por que quando eu, jovem pai, com três crianças, fui eleito governador e não fui morar no palácio? Isso não interessa?

Nesse momento, não, mas podemos falar disso em outro momento.
Não, você está com uma pauta negativa.

Alguma mulher próxima ao senhor, filha ou esposa, por exemplo, já relatou ter sido vítima de assédio sexual?
Não.

Elas são uma minoria, porque mulheres costumam passar por essa experiência.
Houve lá, um dia, em uma festa de rua... Uma garotada veio e fez o que poderia se chamar de assédio sexual com a minha ex mulher, Patrícia Saboya, e eu fui lá e tal... E a polícia tirou os caras.

O senhor pode relatar esse episódio com mais detalhes e contar como reagiu?
Não, não quero contar, não. Se fosse na iminência, minha, eu faria o que a lei me permite fazer: legítima defesa. Se não fosse, eu chamaria a polícia.

O Brasil é o quarto país que mais prende mulher. E 62% delas são negras. O que é possível fazer, no cargo de presidente, para mudar esse retrato?
E o pior é que essa situação está piorando muito. Aumentou 500% a população carcerária feminina nos últimos 48 meses. Agora, esse não é nenhum papel do presidente da República. A lei de execução penal e as leis são do Congresso Nacional. E essas leis não são sexistas, elas não têm adaptação de gênero. Basicamente, a razão dessas prisões é a posse de pequenas quantidades de drogas. As mulheres crescentemente estão entrando no ambiente de distribuição de drogas. Isso a gente tem que discutir, pouco importa se é mulher ou homem. Pouca importa, porque a tragédia, aqui, é do jovem brasileiro (Ciro refere-se ao fato de que 30% dos presos do país têm entre 18 e 24 anos).

*Colaboração de Marcos Candido

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