Violência contra a mulher

Cinco anos depois, falso produtor da TV Record volta a ameaçar mulheres

Reprodução/Facebook
O suspeito Agnaldo Santos Pereira Imagem: Reprodução/Facebook

Marcos Candido

Da Universa

18/05/2018 04h01

"Sou louco quando eu quero". Frases fortes como essa, ligações insistentes e mensagens de intimidação.

Após cinco anos da primeira denúncia, um falso produtor da Record TV é novamente acusado de ameaçar mulheres, muitas delas de São Paulo. Segundo as vítimas, as perseguições voltaram nas últimas duas semanas. Agnaldo Santos Pereira Junior é conhecido por aplicar golpes, intimidar, e até mesmo tentar sexo com modelos candidatas a vagas em produtora de eventos registrada em seu nome.

Entre as vítimas estão assessoras de imprensa, produtoras e modelos, que pedem anonimato. Elas revelaram à Universa que Agnaldo usa diferentes nomes para se aproximar e se infiltrar em eventos. Ele rebate. "Estou ligando pro trampo dela para parar de me ligar”, disse por telefone à reportagem, em relação a uma das mulheres que o acusa de telefonar no trabalho para intimidar na frente de colegas e superiores.

"Eu disse que ele era insignificante e não perderia tempo com ele. Aí ele disse: será que perderia só o tempo mesmo?"

(Trecho de conversa deste ano relatada por uma vítima)

Agnaldo é alvo de ao menos cinco boletins de ocorrências e inquéritos policiais por ameaça e injúria. As ameaças às mulheres costumam ser feitas por telefone de forma incessante durante o dia e até madrugada. Em tática recorrente, dizem que Agnaldo também telefona em horário comercial no trabalho delas constranger. Todas relevam ter medo de ir a eventos ou mesmo de ir trabalhar.

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Segundo fontes ouvidas pela Universa, num primeiro contato, ele se passava por produtor da TV Record para ter acesso a números de telefones das profissionais e entrada em eventos. Os nomes usados foram Pereira Junior e Junior de França.

A Universa teve a acesso ao histórico de chamadas de uma das vítimas que virou alvo recente de Agnaldo. Em apenas um dia, ela recebeu 15 ligações no número pessoal, além de telefonemas para o trabalho. Também fez contatos por mensagens privadas no Facebook. Ele nega tudo.

"Eu sentia muito medo de sair do trabalho e ele estar me esperando, como prometia. Até hoje tenho receio de encontrá-lo num evento", diz uma outra assessora de imprensa, há 11 anos no ramo.

Em nota, a Record esclarece que fez a denúncia jornalisticamente no seu portal de notícias R7. “Nos posicionamos publicamente dizendo que ele não nos representa. Aguardamos a apuração policial e eventual análise da Justiça sobre o caso.”

Acusações

Uma vítima disse que o conheceu como repórter da Record, supostamente interessado numa entrevista. Ela trabalhava como assessora de imprensa e Agnaldo fazia repetidos contatos, mas sem agendar entrevistas.

Desconfiada, a vítima questionou se ele trabalhava realmente na emissora, o que ela diz ter causado a “fúria” do suspeito, que a xingou e passou a telefonar para os chefes dela. Outras vítimas confirmaram a mesma reação.

"É do tipo de pessoa que tem que fazer o que ele quer, se você não fizer, ele vai te ameaçar mesmo", afirma uma assessora de imprensa de 27 anos, há oito como profissional.

Uma outra vítima, que fez a denúncia no Facebook, disse que Agnaldo prometeu abrir boletim de ocorrência contra ela por difamação. Porém, segundo a Secretaria de Segurança, isso nunca aconteceu. Outras mulheres também revelaram a ameaça de processos judiciais.

A reportagem produzida pelo portal R7 em 2015 contou que o suspeito usava as empresas Absolute Eventos e JRF Produções e Eventos, registradas em seu nome, para também tentar sexo com uma modelo.

“Sou louco quando eu quero. Você toma cuidado! É sério. Você não sabe com quem eu ando”, disse em um telefonema para a modelo, cujo áudio foi obtido pelo site na ocasião. “Para mim, você é merda! Para mim, seu corpo só serve para ser utilizado mesmo para transar.” Na época, afirmou ao R7 que estava de "cabeça quente".

Outro lado

A reportagem entrou em contato com Agnaldo por telefone na terça (16). Ele nega ter feito as ameaças. “O que vocês querem fazer novamente é difamação. Eu vou ter que entrar com ação contra o UOL.”

Segundo ele, é uma das vítimas que está telefonando e não o contrário. “Estou ligando pro trampo dela para parar de me ligar”, disse. Sobre se passar por produtor de TV, afirmou: “Meu assunto com a Record está resolvido”. Quando a reportagem tentou questioná-lo sobre as outras acusações, ele desligou o telefone.

Versão das autoridades

Segundo a Polícia Civil paulista, o suspeito já foi intimado para prestar depoimento. Ao todo, são cinco registros de ocorrência, sendo que dois não tiveram representação das vítimas e mais dois aguardam posição judicial.

Também há um mandado de condução coercitiva após o suspeito não ir à delegacia, mas a Secretaria de Segurança Pública afirma que a ação não foi cumprida pelas autoridades policiais. Nesta semana, foi aberto mais um boletim pelos crimes de ameaça, cuja pena vai de um a seis meses de detenção ou multa.

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