Minha história

Ela reencontrou o filho 37 anos depois de entregá-lo para outra família

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração com Universa

11/05/2018 04h00

Com 19 anos e um bebê na barriga, a empregada doméstica Helena Zanetti deu o filho Machiel a uma família holandesa quando ele nasceu. “Eu era muito pobre, não tinha como sustentá-lo, fiz isso para ele ter uma vida melhor”. Nesse depoimento, Helena, 58, conta o sofrimento que passou e como ela reencontrou o filho 37 anos depois.

“Engravidei do Machiel com 19 anos. Namorava o pai dele há três, mas quando soube por uma amiga que eu estava grávida, se afastou e nunca mais me procurou. Eu era muito pobre, trabalhava como empregada doméstica na casa de uma família e morava no emprego. Meus pais não tinham condições de me ajudar. Me senti desamparada, não sabia o que fazer com aquela criança.

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“Dei meu filho para uma família holandesa”

No oitavo mês de gestação, um casal de amigos holandeses evangélicos soube da minha situação e me procurou para oferecer ajuda. Eles disseram que conheciam uma família na Holanda que não podia ter filhos e que cuidaria muito bem do meu bebê. Eu não queria dá-lo, mas aceitei a proposta deles.

Meus amigos me levaram para fazer o pré-natal e me deram toda a assistência. A mãe adotiva e a irmã dela vieram ao Brasil uma semana antes do nascimento do bebê, mas não quiseram contato comigo.

Meu filho nasceu no dia 23 de setembro de 1980. Eu o entreguei a uma holandesa, amiga da mãe adotiva, na frente do hospital. Eu pensei em desistir quando ele estava nos meus braços, mas fiz aquele sacrifício para que ele tivesse uma vida melhor. Abracei ele bem forte e o dei. Foi o momento mais difícil da minha vida.

“Aonde já se viu dar um filho?”

Me sentia culpada e fui criticada por algumas pessoas que me falaram: “aonde já se viu dar um filho, isso não se faz”. Dias depois fui ao fórum e passei a guarda para os pais adotivos. Meu bebê foi para a Holanda um mês depois.

Três anos se passaram e eu tive a minha segunda filha, a Ana Elisa. O pai dela também não quis assumir. Entrei em desespero por já ter perdido o Machiel. Naquela época, a família que eu trabalhava aceitou que eu morasse com ela num quarto fora da casa. Quatro anos depois, tive a Ana Carolina. Fui casada com o pai dela por dois anos, mas o relacionamento não deu certo. Nunca mais me envolvi com nenhum homem e criei minhas duas filhas sozinha. Passamos por muitas dificuldades.

Sentia um vazio e uma tristeza. Pensava nele todos os dias.

Durante todos esses anos, nunca esqueci o Machiel. Tudo o que eu tinha dele era uma foto de bebê. Pensava nele todos os dias. Sentia uma tristeza e um vazio muito grande. Meu maior sonho era reencontrá-lo.

Quando o Machiel tinha doze anos, o pai adotivo dele veio ao Brasil e me procurou. Contou que o menino tinha ficado revoltado de saber que era adotado, mas que estava sendo bem criado. Eu perguntei se ele queria me devolvê-lo, mas ele disse que não. Me prometeu que quando ele completasse 18 anos, me daria a oportunidade de vê-lo, mas isso não aconteceu.

Em 2012, a Ana Carolina começou a tentar achar o irmão. Ela foi no cartório e, pela escritura de adoção, encontrou o e-mail da mãe adotiva e mandou mensagem, falando que queria conhecê-lo. A mulher pediu paciência e disse que ele ainda não estava preparado para ver a família biológica. Apesar da negativa, eu nunca perdi a esperança.

Arquivo pessoal
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Voltei a sorrir quando recebi o perdão dele

Em 2017, a Ana Carolina assistiu a uma reportagem na TV de um cantor holandês que havia reencontrado a mãe brasileira. Ela entrou em contato com esse cantor pelo Facebook e pediu ajuda para achar o irmão. Ele divulgou o caso num jornal holandês, o Machiel viu e se manifestou falando que ele era a pessoa que procuravam.

Esse cantor e uma TV holandesa trouxeram o Machiel ao Brasil. Reencontrei o meu filho 37 anos depois, no dia 10 de maio de 2017. Através do tradutor, disse a ele que o amava e pedi perdão. Ele me perdoou e falou que não sentia raiva de mim. Minha tristeza foi embora, voltei a sorrir e me transformei numa outra mulher. Hoje sou mais feliz e tenho paz. Agradeço a Deus por esse presente.

“Ele me chamou de mamãe”

O Machiel ficou três dias no Brasil. Parecia que nós nunca tínhamos ficado longe um do outro. Ele me chamou de mamãe e foi carinhoso e atencioso comigo.

Chorei muito no dia que ele foi embora. Ele me abraçou e prometeu que vai voltar para me visitar e vai trazer a esposa e os filhos para eu conhecer. Não me falou o dia, a hora, nem o lugar, mas eu acredito nele. Depois desse encontro, nunca mais nos falamos. Sinto saudades dele. Nossa maior dificuldade é o idioma, eu falo português e ele holandês.

Só a morte para separar uma mãe e um filho

Eu me arrependo muito de ter dado o Machiel. A lição que eu tiro de tudo isso é que uma mãe, passe o que passar, não dê o seu filho. Se for o caso de passar fome, peça esmola, mas não faça o que eu fiz. Uma mãe e um filho nunca devem ficar longe, só a morte pode separá-los.”

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