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Mães e filhos

"Adotei minha filha no Maláui. Ela e sua cultura são lindas"

Arquivo Pessoal
Maria Eva é malauiana e vive há dois meses com os pais, Vanessa e Felipe Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Colaboração para Universa

08/05/2018 04h00

O Maláui foi o país escolhido pelos capixabas Vanessa Rosário e Felipe Tessarolo, ambos de 36 anos, quando decidiram ser pais. Impossibilitada de ter filhos biológicos, a consultora de moda escolheu o país africano por algumas razões específicas, entre elas, o fato de o Maláui ser um dos países mais pobres do mundo. "Além do povo ter uma alegria contagiante", diz Vanessa. Em seu primeiro Dia das Mães, ela está radiante e conta que quer mais filhos. "Se eu pudesse, adotaria cinco". O advogado que cuidou da adoção de Eva, a filhinha de Vanessa, diz que só há mais quatro crianças malauianas no País. 

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“Fui ao Maláui com meu marido em dezembro do ano passado. Entrei em um dos orfanatos e, ao chegar na ala das crianças de zero a dois anos, dei de cara com uma fila de bebês em um cadeirão coletivo. Todas de cabeça raspada, com roupinhas parecidas e muito bem tratadas. Não dava para saber quem era menino e menina. Uma daquelas crianças puxou meu braço. Ela queria brincar com a minha unha, que estava pintada de vermelho. E ela não me largou mais.

Faz dois meses que Eva, nossa Maria Eva Tadala vive sob nossos cuidados, aqui no Espírito Santo. Em 60 dias, foram quatro centímetros de crescimento, três quilos a mais e várias palavras em Português: banana, vovó, mamãe, papai e pula-pula são as preferidas. Quando chegou, ela mal engatinhava. Hoje, anda e quase corre por toda a casa. Eu e meu marido contamos a ela a própria história todos os dias. Falamos sobre como ela, seu cabelo e sua cultura são lindos. Nunca deixaremos que ninguém a desmereça por ter uma história diferente.

Desde a ideia de adotar uma criança estrangeira até a chegada de Eva, se passaram seis meses. Meses de muita tensão, medo e um amor que crescia sem parar. No começo, fiquei receosa com a reação da sociedade. Tinha medo de ouvir que deveria ter adotado uma criança brasileira e que aqui os orfanatos estão cheios. Essa era a minha intenção inicial, mas quando entrei na fila, me deram um prazo de sete anos. Tanta coisa pode acontecer em sete anos... Foi desesperador. Eu já era mãe, eu sentia que era mãe. Não dava para esperar. Minha família nos apoiou. Meu irmão é adotado e há casos de adoção na família do Felipe também. Todos babam pela Eva. 

Conhecia as histórias da Madonna e da Giovanna Ewbank, que também têm filhos do Maláui, mas jamais imaginei que eu, uma pessoa 'comum', conseguiria dar andamento a um processo tão caro — ainda mais com a ajuda do mesmo advogado que cuidou da adoção da Titi (filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank). E foi o destino. Eu não busquei o Rafael Lima [advogado do casal]. O nome dele chegou até mim durante uma conversa com o cônsul do Brasil no Maláui. Ele me passou o contato, liguei e joguei a real: 'Sou de classe média. Consigo dar andamento a essa ideia?'. Ele foi direto: ‘É caro, mas é possível’. Nos desdobramos e conseguimos.

Tivemos que ir ao Maláui duas vezes nesses seis meses. Foi sorte, porque normalmente são três viagens até que a adoção seja concluída. Quando fomos pela primeira vez, nos apaixonamos pela Eva de cara e, por sorte, ela estava apta a ser adotada. O voo era difícil, saíamos de Vitória, parávamos em São Paulo e em Joanesburgo antes de chegarmos em Lilongwe, capital do Maláui. Tínhamos um advogado aqui no Brasil e outro lá. Meu celular não parava de tocar, a burocracia era gigante. Foram noites sem dormir até o dia da audiência, que foi marcada em 21 de fevereiro. O resultado só saiu no dia seguinte, às quatro da tarde. Essa foi a pior noite das nossas vidas. 

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Achamos muito importante que a Eva conheça e conviva com outras crianças malauianas, para que se reconheça, tenha contato com a sua cultura.

O 'Maria' do nome de minha filha tem uma história linda. Esse é o nome da minha mãe e da mãe do Felipe. Antes mesmo de pensar em engravidar, Maria já era, portanto, um nome certo pra gente. Só, que foi depois do meu primeiro contato com a minha filha, ainda sem saber se ela era um menino ou uma menina, que tive a certeza. Perguntei a uma das freiras do orfanato como se chamava aquela criança brincalhona na ala de bebês, e a resposta me fez chorar: era uma menina. E chamava Maria.

O 'Tadala' é um nome do Maláui, que significa ‘nós fomos abençoados’ em chewa, a língua local. E Eva é porque gosto desse nome.

Parei de trabalhar por um tempo para acompanhar esse período de adaptação da minha filha, afinal, faz apenas dois meses que ela está com a gente. Ela já frequenta a creche e ama, é apaixonada pelos amigos e pelas 'tias'. Quando chega, beija e abraça todo mundo. Decidimos que ela iria para a creche após um mês, afinal, ela já convivia com crianças no orfanato no Maláui. Não queríamos tirar isso dela. 

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