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Minha história

Como é ser dependente do crack por mais de uma década: duas mulheres contam

Letícia Rós

Colaboração para Universa

06/05/2018 04h00

Eliene e Rosilene não se conhecem, mas tem algo em comum: as duas foram dependentes do crack por anos e sobreviveram para contar suas histórias de superação. Há seis anos e há pouco mais de um ano, respectivamente, elas estão ‘limpas’ e narram como foi viver mais de uma década sob o efeito da pedra.

“Morei na Cracolândia e hoje cuido de dependentes químicos”

Arquivo pessoal
Antes e depois de Eliene Imagem: Arquivo pessoal

“Eu conheci as drogas quando eu tinha 10 anos. Lembro de querer ser popular na escola e, por isso, imitar algumas meninas de quem eu gostava. Na segunda série do antigo ginásio fiz amizade com uma garota da sexta série. Tudo o que ela fazia, eu imitava – ela tinha tantos amigos! Se ela fumava cigarro, eu também fumava. Se ela bebia, eu também bebia. Ela fumou maconha, eu fiz o mesmo. Quando vi, já estava nas drogas.

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Aos 15 anos eu conheci o crack. Não demorou muito e comecei a roubar e a me prostituir para conseguir pedra. Minha mãe não aprovava que eu bebesse ou usasse drogas, claro, por isso fugi de casa e fui morar na rua. Cheguei a mudar de estado, mas depois voltei para São Paulo e fui para a Cracolândia.

A minha lembrança de lá é de ficar dias sem dormir, usando a pedra. Quando conseguia dormir, eu acordava com a sensação de que alguém tinha abusado sexualmente de mim. Cheguei a ser presa por roubar. Fiquei um ano na cadeia e voltei para a Cracolândia. Eu era um lixo humano.

Aos 27 anos, em 2011, eu passei a ser ajudada por um projeto chamado Cristolândia, que resgatava dependentes químico. Tinha um rapaz lá, um missionário, que todo dia que me dizia que a vida podia mudar - desde que eu fosse para a Casa Rosa, que era um centro de reabilitação. Mas eu só tomava café e banho que eles ofereciam.

Então, em 2012, teve uma ação policial na Cracolândia e eu resolvi me internar. Meu corpo estava cansado demais, de tanta droga que eu consumia. Foram dois anos de tratamento – nunca tive uma recaída.

Aos poucos, retomei a minha vida. Voltei a estudar e arranjei um namorado, o rapaz do projeto que me incentivou a me tratar. Em 2015, quando acabou meu tratamento, nos casamos e fizemos uma passeata na Cracolândia. Foi lindo! Todos os usuários que nos conheciam dali, puderam ver que é possível sair das drogas e ter uma vida diferente, uma vida saudável. Já faz 6 anos que estou livre das drogas. Hoje eu cuido de dependentes químicos.”

Eliene Cardoso da Rocha e Silva, 33 anos

“Foram 23 anos da minha vida usando drogas”

Arquivo pessoal
Antes e depois de Rosilene Imagem: Arquivo pessoal

“Eu comecei a usar drogas com 15 anos de idade por meio de um namorado, que se tornou o pai dos meus filhos. Foi ele quem me apresentou o crack. Viciei logo de cara e ele passou a comprar sempre. Para isso, precisava roubar.

Não demorou muito para que fosse preso. Nós já tínhamos uma filha na época e eu passei a visitá-lo na cadeia. Lá, eu engravidei do meu segundo filho. Eu e ele ficamos oito anos juntos, até ele ser solto e me dar um pé na bunda. Me abandonou com duas crianças.

Me mudei, então, para o interior de São Paulo, para fazer programa. Eu estava tão dependente que todo dinheiro que ganhava, eu gastava em pedra. Meus filhos ficavam com uma babá, mas logo me denunciaram para o Conselho Tutelar, a babá judiava deles e eu não sabia. Tive que fugir para não perder a guarda dos dois.

Voltei para a minha cidade e entreguei meus filhos para um amigo da minha mãe cuidar, porque eu não tinha mais condições de fazer isso. O vício já tinha dominado a minha vida e, aos poucos, eu estava abandonando os dois. O combinado era que eles ficariam lá até eu arrumar uma casa para a gente. Mas a verdade é que eu larguei eles e fugi no mundo. Usando drogas sem parar, eu nem lembrava que tinha filhos.

Fui morar na favela e passei a trabalhar para os traficantes. Fazia papelotes de drogas para ganhar uma ou duas pedras. Num certo momento, me deram um barraco para morar e eu passei a fumar pedra o tempo todo. Ficava de 15 a 20 dias direto usando crack. Eu não dormia, o meu barraco era cheio de homens. Foram três anos nesse esquema.

Vez ou outra, quando ganhava um dinheiro extra, eu ia ver meus filhos. Eu beijava e abraçava eles, que pareciam não ter raiva de mim. Toda vez eu prometia buscá-los, mas nunca ia. Esse amigo cuidou deles por 15 anos, meus filhos hoje estão com 20 e 22 anos.

Quando percebi que meu corpo não aguentava mais usar drogas, eu pedi para a minha filha me internar. Fui para uma clínica, mas cinco meses depois eu fugi. Eu e mais duas meninas. Voltei a usar drogas ainda mais e fui parar no hospital. Acabei ficando doente, peguei tuberculose, quase morri e, mesmo assim, não parava de usar.

Somente na segunda internação eu consegui parar. Passei um ano e dois meses internada. Faz um ano e cinco meses que estou limpa. Saí da clínica e fui morar com aquele amigo da minha mãe e com os meus filhos. Foram 23 anos da minha vida usando drogas. Hoje também não fumo ou bebo. Ainda não posso dizer que não gosto mais do crack, mas eu quero ele bem longe de mim.”

Rosilene Gonçalves dos Santos, 40 anos.