Autoestima

"Bebia doze cervejas, uma garrafa de vinho e meia de conhaque por dia"

Arquivo Pessoal
Claudia Pessoa Imagem: Arquivo Pessoal

Letícia Rós

Colaboração para Universa

02/05/2018 04h00

A dona de casa e estudante universitária Claudia Pessoa, 52, começou a beber aos 17 anos e só parou 33 anos depois quando, finalmente, aceitou ser dependente do álcool e buscou ajuda. Hoje, com a vida refeita, ela conta sua própria história de superação e de luta diária.

“Eu já tinha contato com a bebida na infância, sou filha de pai alcoólatra, e tinha aquela história de ‘melhor provar com o papai do que na rua’. Eu lembro que nas festas de família era comum dar para a criançada vinho com açúcar, como se fosse suco.

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Mas, oficialmente, comecei a beber aos 17 anos. A primeira vez que me embriaguei foi com espuma de chope. Depois, fui para as bebidas doces: uísque com guaraná e caipirinha. Aos poucos comecei a beber por conta, não precisava mais sair para beber, eu bebia em casa mesmo.

“Como assim eu sou alcoólatra?”

O alcoolismo é a doença da negação, nem todo alcoólatra assume que é. Para mim, foi mais difícil aceitar que era doente, do que parar de beber. É um choque lidar com isso, uma briga interna. Eu dizia: ‘Como assim eu sou alcoólatra? Eu bebo porque eu gosto e consigo parar’. Mas depois do primeiro gole, eu não conseguia.

No meu pior momento, eu já acordava e tomava duas latas de cerveja. Ao longo do dia, bebia uma caixa de cerveja, uma garrafa de vinho e meia de conhaque. Não importava a qualidade da bebida, eu queria quantidade, queria o álcool. Dormia e acordava bêbada.

Quando me separei do meu primeiro marido, já estava viciada. Foram 33 anos bebendo. Uma vez ou duas vezes por ano, eu dizia que ia parar. Parava por três meses, achava que estava curada e poderia voltar a beber moderadamente, tomar apenas uma taça de vinho. Mas bastava um gole e eu caía no descontrole de novo. Sonho de alcoólatra é saber beber, mas isso não acontece.

Crise de depressão e tentativa de suicídio

Desde a infância, eu tinha algumas crises depressivas, mas elas pioraram muito com o alcoolismo. Cheguei a tentar suicídio. Também já saí de casa em meio a uma crise: bati o carro e fui a pé para a delegacia pedir ajuda, como se eu fosse a vítima.

Falam que o cigarro e a maconha são a porta de entrada para drogas pesadas, mas não é verdade. O álcool que é. Depois que comecei a beber, eu provava tudo o que me ofereciam. Só não injetei nada, mas cheguei a cheirar cocaína.

Em 2012 eu comecei a tratar a depressão e parei de beber, porque tomava remédios psiquiátricos. Mas foi só parar a terapia que eu voltei. Eu lembro que o psiquiatra falava que eu tinha outra doença, o alcoolismo. Mas eu não acreditava, não aceitava. Tanto que deixei de fazer terapia.

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Período de provação

Todo mundo sabia do meu vício: meu ex-marido, meus pais, meu filho... E, aos pouco, a família foi se afastando, porque eu me tornei uma companhia chata. Meu casamento acabou, não exatamente por conta disso, mas certamente influenciou. Meu filho foi morar com ele.

Foi no meu segundo marido que eu encontrei apoio. Ele bebia socialmente quando nos conhecemos, mas ao perceber que eu precisava de ajuda, parou de beber totalmente, para me acompanhar. Até hoje, ele não bebe.

Um dia, eu acordei e quis tentar parar pela última vez. Era dia 15 de dezembro de 2015, antes do Natal, Ano-Novo, do meu aniversário e do carnaval. De fato, era um período de provação. Eu descobri uma unidade do AA, em São Paulo, e liguei. Por telefone eles já me deram apoio. Resolvi ir. Ficava ao lado de um bar para onde eu ia muito.

“Ficar sóbria é um desafio diário”

Lembro ter chorado muito lá. Mas também percebi que não estava sozinha. E, contrariando tudo o que eu acreditava, alcoolismo não era coisa de pobre. Foi quando eu descobri que ricos, e até famosos, podem ter a doença.

Só contei para o meu marido sobre o AA depois que fui a primeira vez. Ainda assim, não queria parar logo de cara. Foram 14 dias para me desfazer das bebidas que tinha em casa. Eu e ele conversávamos muito, mas eu precisei do meu tempo para dar esse passo.

Não sei como consegui parar. Para quem tem fé, eu imagino que seja mais fácil. Mas eu não sou apegada a religião alguma. Minha mãe acendia vela para mim, fazia promessa, ajoelhava... nada adiantava, é claro. Eu precisava resolver isso por conta própria.

Ficar sóbria é um desafio, eu comemoro todo mês a minha sobriedade, saio para jantar. É uma luta diária, tinha vezes que eu queria que meu dia acabasse logo só para eu contabilizar mais um dia de sobriedade.

“Hoje convivo bem com gente bebendo ao meu redor”

Já consigo ter vida social, antes ficava reclusa, porque eu não me sentia segura para recusar a bebida se me oferecessem. As próprias pessoas desconfiavam da minha sobriedade. Se eu ia para a cozinha e abria uma latinha de refrigerante, achavam que era cerveja. Foi preciso um tempo para eles entenderem que eu não largaria a sobriedade.

Hoje convivo bem com gente bebendo ao meu redor. Vou em restaurantes e também barzinhos. Só prefiro não ter bebida em casa. Em dezembro eu completo três anos sem beber. Decidi estudar, estou cursando o quarto semestre de Administração de Empresas. Também não uso mais óculos escuros, porque quero ver todas as cores que não via quando estava bêbada.”

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