Retratos

Instantâneos de realidade do Brasil e do mundo

Eles moram sozinhos em uma ilha deserta em São Paulo

Jorge de Souza

Colaboração para Universa

20/04/2018 04h00

David, há mais de cinco anos, não sabe o que é calçar um sapato. “Não consigo mais andar com isso”, diz. Maria, a mulher dele, não se lembra quando foi a última vez que pintou as unhas. “Acho que foi no Natal”, arrisca. Sem sapato, sem esmalte, sem TV nem geladeira, os dois vivem felizes da vida no lugar que escolheram para morar, depois de uma vida quase inteira nas grandes cidades do Brasil e dos Estados Unidos: a primitiva Ilha das Couves, no litoral norte de São Paulo, onde, é sério, não existe nem luz elétrica.

Mas viver sem energia nem é o que mais chama a atenção na marcante mudança de vida que o casal Maria Miller (uma ex-psicóloga brasileira que viveu 20 anos nos Estados Unidos) e David Ferdinand (um ex-executivo americano do ramo da hotelaria) optou por fazer, quando decidiu se mudar para a deserta Ilha das Couves – e sim justamente o fato de ela ser deserta. Não vive mais ninguém naquela ilha. Só eles dois. E tem sido assim desde que Maria e David chegaram ali, sete anos atrás, vindos de Miami, onde viviam.

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Objetivo: apenas viver bem

A decisão de mudar radicalmente de vida (e ponha radical nisso!) começou quando David passou a visitar o Brasil a negócios e aqui conheceu o caiçara Manuel Gonçalves, hoje com 92 anos, que buscava alguém para tomar conta da ilha que possuía no litoral de São Sebastião. David vibrou com a ideia de virar uma espécie de Robinson Crusoé moderno e não precisou fazer muito esforço para convencer a brasileira Maria a retornar ao seu país de origem.

Tinha tudo para ser uma experiência apenas passageira na vida daqueles dois seres totalmente urbanos, mas se transformou numa definitiva nova forma de vida, em estreito (estreitíssimo!) contato com a natureza. “Hoje, gastamos nosso tempo com o que realmente importa na vida, que é viver bem”, resume Maria. “Na ilha, temos tudo o que precisamos e não sentimos falta de mais nada”, garante.

“Nem de 'electricity'”, endossa, com convicção e forte sotaque americano, David, que se transformou em um improvável “gringo caiçara”, que só anda descalço, mas conversa com a mulher apenas em inglês -- que, por isso mesmo, virou “idioma oficial” naquela esquecida ilha do litoral paulista, embora ela fique bem em frente de uma das praias mais urbanizadas do Litoral Norte paulista, a de Juqueí.

Deserta, mas no Airbnb

Arquivo pessoal
Casal vive na única casa que existe n Ilha das Couves, sem luz elétrica Imagem: Arquivo pessoal

A doce rotina do casal consiste, basicamente, em passar os dias admirando a paisagem, lendo livros deitados em rede na varandinha da casa onde moram (de madeira, com apenas quatro cômodos, banheiro do lado de fora, única “construção” da ilha) e preparando comida com o que existe no pedaço de terra: verduras de uma horta, coco, mamão, manga, banana, goiaba, ovos que uma dúzia de galinhas oferecem e peixes que, quase todos os dias, os pescadores que visitam a ilha em busca de água para os barcos deixam de cortesia para o casal. “Nós só comer fish 100% fresh”, gaba-se David.

Para o “continente”, como eles se referem às praias do litoral de São Sebastião, algumas delas a 15 minutinhos de barco da ilha, só vão bem de vez em quando e apenas para comprar arroz e feijão, que não dependem de refrigeração, já que, sem energia elétrica, não há como ter geladeira, e um pouco de gasolina para o geradorzinho que recarrega a bateria do celular, único contato do casal com o resto do mundo – e que também pouco é usado.

“Usamos para falar com os interessados em acampar na ilha”, diz Maria, numa alusão ao fato de, a despeito do seu primitivismo, a Ilha das Couves fazer parte do portfólio de áreas de camping do site de acomodações Airbnb, segundo eles, “apenas para ajudar a pagar os impostos da ilha”.

Sem dinheiro, nem solidão

Dinheiro para o resto? Eles garantem que não precisam. Só mesmo para pagar as travessias esporádicas ao continente, porque, embora vivam numa ilha, nem barco eles têm. Quando precisam sair da ilha, chamam, pelo celular, um dos barqueiros de Barra do Sahy, a 15 minutos de distância, que cobra R$ 50 pela travessia. “É o nosso Uber”, brinca a culta Maria, que explica que não ter barco próprio foi uma escolha, para poder “interagir com a comunidade caiçara”. “Eu aprender portuguese com 'éles'”, completa David.

Solidão? Eles também juram que não sentem “Temos um ao outro e nos damos muito bem”, diz Maria -- e nem poderia ser diferente numa ilha onde não existe mais ninguém, só o vira-lata Lao e o gato Brad Pitt (“porque, afinal, ele é um gato”, ela explica). “Quando discutimos, nossas brigas duram menos de um minuto, porque logo cai a ficha de que não faz sentido ficar de mal com o companheiro num lugar onde só há nós dois”. E completa, brincando: “a Ilha das Couves faz bem até para o amor”.

Muito verde e uma prainha

Arquivo pessoal
Maria Miller, que vivia com o marido em Miami, agora prefere o sossego da ilha Imagem: Arquivo pessoal

Vista de longe, a Ilha das Couves (não confundir com a ilha do mesmo nome que existe em Ubatuba) não passa de um grande cocuruto de mata densa e fechada, no meio do mar. Mas, uma vez lá, vem a surpresa. Ao contrário do que o seu visual selvagem sugere, a Ilha das Couves nada tem de inóspita. Ao contrário, é muito agradável, com frondosas árvores frutíferas e o intermitente canto de passarinhos, o que explica o sucesso que tem feito entre os hóspedes do seu camping anunciado na internet.

A ilha tem, também, uma prainha — “prainha” mesmo, com não mais que dez metros de largura —, usada pelo casal para se refrescar e curtir o mar, ali costumeiramente frequentado por tartarugas e outras criaturas marinhas. “É o nosso Discovery Channel”, diverte-se David, fazendo graça com uma das dúvidas mais comuns de quem visita a ilha: como alguém pode viver sem televisão? E sem geladeira? E sem chuveiro de água quente?

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"Aprendemos a viver com pouco"

“É tudo uma questão de adaptação”, explica Maria. “Trocamos a televisão pela natureza, a geladeira pelas frutas frescas e o banho de chuveiro pelo de água da nascente. Aprendemos a viver muito bem com pouco, e é isso que quem se hospeda na ilha aprende também”, diz, nem de longe arrependida pela troca de vida que fez. “Aqui, é o nosso paradise”, completa David, que, junto com Maria, está transformando a Ilha das Couves num exemplo de auto-sustentabilidade, já que não extraem nada da ilha, embora vivam apenas dela.

À noite, quando eles sentam na varada da casinha de madeira onde vivem, única construção da ilha, e veem as luzes das ruas, casas e pousadas da Praia de Juqueí na linha do horizonte, sempre vem a mesma pergunta: quem, de fato, evoluiu? Quem trocou as amendoeiras da praia por postes ou a Ilha das Couves que manteve as árvores? E como já sabem a resposta, os dois vão dormir felizes e satisfeitos por viverem num lugar onde Maria não precisa pintar as unhas nem David ter um par de sapatos.

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