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Como era o sexo na época da novela "Orgulho e Paixão"?

João Miguel Júnior/Globo
O casal protagonista: Elisabeta Benedito (Nathalia Dill) e Darcy Williamson (Thiago Lacerda) da novela "Orgulho e Paixão" Imagem: João Miguel Júnior/Globo

Heloísa Noronha

Colaboração com o UOL

13/04/2018 04h00

Embora seja inspirada livremente na obra de Jane Austen -- em especial, nos livros "Razão e Sensibilidade" (1811), "Orgulho e Preconceito" (1813) e "Emma" (1815) --, com situações e nomes de personagens semelhantes aos criados pela escritora inglesa, a novela global "Orgulho e Paixão" se passa no início do século 20, mais precisamente em 1910.

A história assinada por Marcos Bernstein mostra como cenário o fictício Vale do Café, interior de São Paulo, e tem como ponto-chave os encontros e desencontros amorosos vividos pelas irmãs Benedito e seus amigos e pretendentes. Mas será que os rolos, crushes e as aventuras entre quatro paredes da época, no Brasil, aconteciam como a novela sugere? Vamos aos fatos:

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Uma garota com ideais feministas como Elisabeta, em 1910, seria, de fato, uma mulher bem à frente de seu tempo.

A personagem não só quer trabalhar --no início do século 20, a única carreira viável para uma jovem "de família" era o magistério-- como ainda contesta o casamento e a maternidade como únicos ideais de vida de uma mulher. A maioria das mulheres seguia o status quo. As coisas só começaram a mudar a partir de 1919, quando a bióloga e feminista Bherta Lutz (1894-1976) fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. A entidade lutava pelo voto feminino (a aprovação só ocorreu em 1932), pela escolha do domicílio e pelo trabalho de mulheres sem a autorização do marido.

O sexo no matrimônio era visto como um "direito do homem".

A mulher tinha que "comparecer" e ceder às necessidades do marido sempre que fosse solicitada. A transa deveria ser a mais casta possível --fantasias sexuais, variações de posições, sexo oral e anal eram considerados "aberrações" e reservados às atividades que os "cidadãos de bem" praticavam com prostitutas.

A virgindade era um bem precioso e obrigatório às moças.

Educadas pelos romances açucarados da época, que descreviam a primeira noite de uma moça de uma maneira totalmente romântica e idealizada, as garotas sofriam uma decepção e tanto nas núpcias. Elas eram defloradas por homens cuja nudez não faziam a menor ideia de como era. E, pior, sofriam com a brutalidade de alguns deles. Acostumados à libertinagem dos bordéis e desesperados para aliviar todo o tesão reprimido durante o namoro, muitos machucavam as mulheres. Traumas não eram raros, assim como rancores femininos que perduravam até que a morte os separasse.

A repressão e o recato eram valores comuns entre as mulheres, mesmo depois de casadas.

A palavra "sexo" não era nunca pronunciada. Ter algum tipo de conhecimento sobre o assunto gerava culpa. As mulheres tinham pouquíssima informação --as mães só repercutiam o que tinham escutado em sua fase pré-nupcial. Relações sexuais regradas e contidas eram a lição número 1. A número 2 era satisfazer o marido.

Mesmo descontentes e insatisfeitas, as mulheres não deviam se masturbar.

Nunca, jamais, sob hipótese alguma. E sob o risco de ficarem "nervosas", "murchas" e ganharem irritações na vagina. Não é à toa que muitas se decepcionavam na transa com os maridos.

O orgasmo feminino era tido como um "espasmo venéreo" e objeto de estudo de cientistas e pensadores.

A sexualidade feminina sofria um controle velado: tanto o ardor excessivo quanto a indiferença ao prazer eram tidos como prejudiciais à fecundação. Sim, tratava-se de um período bem hipócrita e contraditório. Médicos e fisiologistas se mostravam obcecados com a higiene dos órgãos genitais masculinos e femininos. Não à toa, o início do século XX marcou a criação de muitos produtos e cosméticos.

Início de um movimento sutil em prol dos casamentos realizados por amor.

Um ponto positivo: começam a ser mais comuns os casamentos por amor, em detrimento das uniões por interesses familiares ou comerciais praticadas no século anterior. O modelo de amor romântico, já perpetuado na Europa, começava a ser adotado por aqui, primeiro pelos imigrantes e migrantes (a camada popular da sociedade), depois, pela elite.

Festas e bailes eram aguardados com ansiedades por mulheres de todas as idades.

Nessa época, festas soavam como uma oportunidade e tanto para as mais jovens arrumarem um namorado. Já as mães, enxergavam nos flertes a possibilidade um casamento e o alívio de não contarem com uma "solteirona" em casa. Olhares, danças e cartões com dizerem galantes constituíam a paquera da época. Os rapazes é que deviam abordar as moças, nunca o contrário.

Muitos homens perdiam a virgindade com prostitutas.

Nas classes mais abastadas, a contratação de governantas e preceptoras estrangeiras tinha dupla função: além de ensinar idiomas e música aos jovens herdeiros, elas tinham como atividade iniciá-los sexualmente.

Fontes: "Amor e Família no Brasil" (Ed. Contexto), organização de Maria Angela; "Histórias e Conversas de Mulher" (Ed. Planeta), de MarydelPriore; "História do Amor no Brasil" (Ed. Contexto), de MarydelPriore; “Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na história do Brasil” (Ed. Planeta), de Mary del Priore; "Uma Breve História do Sexo” (Ed. Gaia), de Claudio Blanc.

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