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Mulheres inspiradoras

Bruna Benevides: a sargento trans da Marinha luta para voltar a trabalhar

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Imagem: Reprodução Instagram

Natacha Cortêz

da Universa

30/03/2018 04h00

Ser mulher trans no Brasil faz com que Bruna Benevides seja impedida de viver muita coisa que uma pessoa não trans --ainda considerada o "normal" na sociedade-- tem direito de viver. Trabalhar na profissão que escolheu para a vida é uma delas. "Sou a primeira transexual na ativa das forças armadas no Brasil, mas estou proibida de exercer minhas funções", ela diz. 

A coragem de Bruna

Bruna se assumiu como trans, há seis anos, para o seu comandante superior na Marinha, apesar do ambiente conservador. Mas a corporação não a acolheu como mulher. 

O que aconteceu é que ela foi tida como "incapaz para Marinha por ser transexual" e agora está brigando na justiça pelo direito de trabalhar. "Houve uma liminar a meu favor, na qual a justiça proibiu a Marinha de me aposentar. No entanto, não cumpriram e me mantêm afastada. Entramos com uma réplica pedindo inclusive multa diária até eu voltar às minhas funções", diz. 

Bruna aguarda a decisão da Justiça. "A única coisa que quero é poder voltar a trabalhar. Tenho 21 anos de carreira e sou completamente capaz. A Marinha me impôs um diagnóstico, me impôs um afastamento e quer me impor uma reforma [equivalente a uma aposentadoria] por invalidez. Não concordo. Ser uma mulher trans não me faz inválida."

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Bruna em audiência pública contra a violência LGBT, na Câmara de Vereadores de Niterói Imagem: Reprodução Instagram

Para a população trans, há uma extrema carência de políticas públicas fundamentais para uma existência minimamente digna.

Bruna se refere ao acesso à saúde e à educação, a um trânsito fechado no mercado formal de trabalho, ao direito à liberdade e a um direito muito básico para qualquer indivíduo: o de apenas ser. Para ela, “ser” no mundo é um desafio de sobrevivência, que ela tem vencido “dia após dia”. "O Estado brasileiro falha em não reconhecer a nossa existência."

Segundo Sargento da Marinha (assim mesmo, "sem flexionar o gênero", ela avisa), está na diretoria da Antra (Associação Nacional dos Travestis e Transsexuais) e preside o  conselho LGBT de Niterói, onde vive e coordena um cursinho pré-vestibular focado em atender transgêneros, Bruna tem 38 anos e já supera a expectativa de vida atribuída a uma pessoa trans no Brasil: 35 anos, contra 75,5 do restante da população.

Pudera. Somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Como? Basta se lembrar de Dandara dos Santos, espancada até a morte em plena luz do dia. "A violência nos acompanha até a hora de nossa morte, mas vai além dela. Teimam em nos tratar pelo nome de registro na lápide dos nossos túmulos; logo os nomes que rejeitamos a vida toda", diz. 

A caminhada de Bruna

Na infância e adolescência, Bruna sofreu com a exclusão dentro da própria casa, em Fortaleza. “Minha família escolheu me abandonar", conta, ao citar a estatística em que está incluída: a média de expulsão de transexuais brasileiros de suas casas é de 13 anos. Aos 15, ela foi parar nas ruas, onde conviveu com a violência. Mas acabou num projeto de ressocialização e, aos 17, entrou na carreira militar. Lá se vão mais de duas décadas desde que ela passou a vestir farda no trabalho e a morar em Niterói. 

Na cidade, se tornou uma liderança LGBT e foi a primeira trans a ganhar, em 2016, na ALERJ, o Diploma Mulher Cidadã, por sua atuação pelos Direitos Humanos da População Trans e, na Câmara dos Vereadores de Niterói, em 2017, o prêmio Inês Etienne Romeu, concedido pela prefeitura a mulheres que se destacam na causa dos Direitos Humanos.

Sou a primeira transexual na ativa das forças armadas no Brasil, mas estou proibida de exercer minhas funções.

Quem ela impacta

80% dos alunos matriculados no PreparaNem de Niterói foram aprovados em universidades públicas. O cursinho coordenado por Bruna além de preparar para o vestibular oferece acompanhamento psicológico aos estudantes. 90% da população trans no Brasil está na prostituição por falta de oportunidade (o dado é de 2016, da Antra); 72% da população trans não consegue concluir o ensino médio (dado do Projeto Alem do Arco Iris, do Grupo AfroReggae)."Dar a essas pessoas a chance se estudar é, também, dar a elas a chance de fazer o Estado as enxergarem."

Pode parecer absurdo --especialmente para quem não conhece a realidade da população trans no Brasil--, mas Bruna luta para que as pessoas transgêneros sejam consideradas pessoas e que seus direitos sejam garantidos, assim como o dos outros cidadãos deve ser.

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