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"Tive um aborto espontâneo. Foi como um parto: dolorido, só que frustrado"

Getty Images
Imagem: Getty Images

Anita Pompeu

Colaboração para Universa

23/03/2018 04h00

A jornalista Anita Pompeu sofreu um aborto espontâneo na oitava semana da gravidez. O que ela não sabia é quão dolorosa pode ser a perda (também) fisicamente quando se opta pela expulsão natural do feto. Além da falta de informação (quase não existe gente falando disso) e das quatro semanas de espera para o corpo reagir, as dores fortíssimas foram comparadas por ela a um parto natural. Aqui, ela conta sua história para Universa.

"Fazia 9 dias que meu filho tinha completado 10 meses quando descobri que aquele único vacilo 15 dias antes tinha gerado uma nova gravidez. Mas como? Foi uma única vez. Eu ainda estou amamentando. Minha menstruação ainda não voltou. Pois é...

'Você está suuuuper grávida. Não há nenhuma dúvida', me disse por telefone minha médica ao ver, no whats app, a foto da fitinha do teste, que eu insistia em não enxergar a segunda marca vermelha.

Saí do ar. Voltei no dia seguinte. Quatro dias depois, uma nova recaída emocional. Culpa, muita culpa, medo, insegurança. Não acredito que deixei acontecer. Não acredito. Uma sessão de reiki deu o 'reset' que faltava à minha mente, e ao meu coração. Pronto, vambora. É vida. E vida é bom sempre!

Todo homem precisa de uma mãe.

Semanas depois, no ultrassom de rotina, o arrozinho lá na tela arrancou aquele sorriso. Na semana seguinte, a sétima, o arrozinho lá, maior ainda, e agora com o tum tum forte e rápido fez a gente entender que vida é sempre alegria. Sempre.

Mais quinze dias e um novo ultrassom. Hora de ver o embrião ganhando a formato de feto. Pai e filho ao lado, mãe na cama do ultrassom, médica concentrada, e o feto, enfim, na telinha. Só faltou o tum tum.

Silêncio. Silêncio na máquina. Silêncio na maca. Silêncio na sala.

Nessa hora, as estatísticas nos ajudam a ver que não estamos só: uma em cada cinco gestações não evolui. Mas onde estão essas 1 em cada 5 mulheres? Não sei. E essa é a resposta que procuro até hoje, dia seguinte ao momento em que vivenciei o aborto espontâneo.

Somos muitas. Todo mundo conhece muitas 'alguéns' que já passaram por isso. Mas muito pouco se fala a respeito. Só um Google muito bem dado e insistente traz algumas informações sobre o que vai acontecer de fato com a mulher que optar por passar pela expulsão natural, em vez de se submeter à curetagem.

Um relato recente sobre a falta de cuidado e preparo para lidar com o assunto - "aborto retido" - da equipe técnica da maternidade, a localização do quarto (em frente ao berçário) da paciente que seria submetida ao procedimento aspiração do útero (técnica usada hoje), e anestesia + internação me fizeram descartar essa possibilidade e optar pela forma natural de expulsão.

Minha médica, a melhor que eu poderia ter, foi, mais uma vez, uma mãe. Ficou à disposição para me esclarecer dúvidas, e me ajudar com o que quer que fosse. Me passou os remédios que eu deveria ter em casa para tomar quando começassem as fortes cólicas e o sangramento que estavam por vir.

Depois de 4 semanas desde que o embrião parou de se desenvolver, comecei a sentir as cólicas. As cólicas fortes, na verdade, eram muito fortes. Muito fortes. Tipo trabalho de parto mesmo - como li, em uma madrugada, em um dos relatos - pesados, tristes e sem filtro - de fóruns do assunto na internet. 

Foram esses fóruns, aliás, os únicos lugares em que encontrei informações mais precisas sobre o processo fisiológico da expulsão do embrião.  

E é por isso que quis fazer esse relato: para contar que passar por um aborto espontâneo, por menos planejada que tenha sido a gestação, é, sim, pesado. É, sim, triste. E dói. Dói muito.

É pesado porque embora o racional soubesse que não era a hora, o corpo ainda achava que era. O cabelo está cheio, a pele mais oleosa, os hormônios a um milhão. Existe um conflito entre o que a cabeça pensa e o que o corpo sente.

Triste porque durante as 4 semanas em que sabia que estava grávida, processei a informação, elaborei a novidade e vibrei com a vida que estava por vir. E que, embora não fosse planejada, era desejada.
Doloroso, porque o processo de expulsão natural dói, e muito. 

O que ninguém fala claramente é que esse processo é como um parto mesmo, só que frustrado. Pelo menos foi isso o que senti e ficou claro para mim.

As cólicas fortíssimas, que me tiraram o fôlego e me faziam quase sair do ar toda a vez que vinham, me fizeram ter a impressão que era o trabalho de parto de expulsão do embrião, rejeitado pelo meu organismo. Foram cerca de 20 horas de muita dor. E, depois de mais 20 horas de trégua, mais 3 horas de muita dor novamente, até que senti, finalmente, a expulsão que estava por vir, e que esperava há dias - em forma de um "sangramento" - sair de mim.

Foi das priores sensações que tive na vida.

Na hora não dói, mas a gente sente e sabe exatamente o que está acontecendo. E, por isso, é triste, é chato, é ruim, é desagradável, é horrível. E dá vontade de chorar. E a gente chora. Depois que a gente chora, daí, sim, vem o tal sangramento. Sabe aquele sangramento do pós-parto? Então, igual. Curioso, né?

Pois é. E daí tudo faz sentido. O ciclo se fecha. E, como num pós-parto natural, a gente se sente nova outra vez. A natureza tem dessas. Assim como nós, ela também é poderosa."

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