Moda

"Me sinto muito estilosa", diz mulher que usa roupas que encontra no lixo

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

19/03/2018 04h00

Adepta da moda sustentável, a ativista ambiental Greice Reis, 32, foi surpreendida quando, ao procurar materiais recicláveis para uma reforma, encontrou diversas roupas e calçados no lixo. “Fiquei espantada, porque eram peças boas, de marca e algumas até com etiqueta”. Nesse depoimento, a dona do blog “Fala Morgana” fala da sua relação com a moda e o consumismo: 

“Há dois anos moro nos Estados Unidos, em Newark, Delaware. Em julho de 2017, eu e o meu marido, Ismael, compramos um ônibus escolar e tivemos a ideia de transformá-lo num motorhome para dar uma volta ao mundo com nossos três filhos.

Começamos a procurar material reciclável para reformar o ônibus quando percebemos que havia muitas coisas nos lixos que poderiam ser reutilizadas. Encontramos piso, cama, luminárias, madeira para as paredes e até uma máquina de lavar roupa portátil.

Fiquei espantada com a quantidade de peças novas que achei no lixo

Numa dessas buscas, acabei encontrando sacolas cheias de roupas, calçados e acessórios. Fiquei muito espantada, porque eram peças em bom estado, de qualidade e de marcas de fast fashion, como Zara, Forever 21 e H&M. O que mais me impressionou foi a quantidade de peças novas, com etiquetas. Era algo inacreditável porque eu venho do Brasil, um país subdesenvolvido onde as pessoas se esforçam e parcelam, em várias vezes, esses mesmos produtos que eu tinha achado no lixo gringo.

Quando vi tudo aquilo, decidi produzir um editorial no meu blog como um manifesto questionando se aquelas peças eram moda ou lixo. Fui em dois contêineres e achei vestidos, calças, sandálias, casacos. Convidei a minha irmã, Aline, -- que é fotógrafa --, para me fotografar com os looks. Misturei tendências antigas e contemporâneas.

Inicialmente, minha intenção era usar as peças só para o editorial. Tinha preconceito, porque pensava que se aquelas coisas estavam no lixo eram lixo. Foi quando caiu a ficha de que recursos naturais haviam sido utilizados para produzir aqueles produtos. Tinha de reutilizá-los até o fim do seu ciclo.

Aline Maia/Divulgação
Imagem: Aline Maia/Divulgação
Ia uma vez por semana procurar roupa no lixo

Durante uns cinco meses, ia uma vez por semana com o meu marido nos lixos para buscar os materiais para o ônibus. Aproveitava para pegar resíduos têxteis para fazer colares. E também para procurar alguma roupa ou calçado.

Nem tudo o que achava eu pegava para mim. Eu separava o que estava precisando e que combinasse com o meu estilo. Priorizava as peças atemporais, estampadas, retrô e vintage. O que eu não gostava, doava para o brechó ou para outras pessoas.

Já achei casaco, calça, blusa, camisa, camiseta, cardigã, vestido, saia, shorts, meia-calça, echarpe, cinto, bolsa, óculos, sandália, tênis, bota baixinha, bota de salto, coturno... Apesar de estarem em meio a papéis, papelões e vidros, nunca encontrei esses produtos jogados, sujos nem fedendo a lixo, mas sempre dentro de sacolas. 

Aline Maia/Divulgação
Imagem: Aline Maia/Divulgação
Das 63 peças que tenho no armário, 25 encontrei no lixo

Tenho um armário com 63 peças, dessas, 25 são roupas, calçados e acessórios que achei no lixo. O restante é de brechó. Meus xodós que eram do lixo são uma bolsa de couro preta, um óculos de sol Ray-Ban e o único casacão, de lã, que tenho. Vi casacos iguais nos desfiles da Newark Fashion Week deste ano. Tenho uma camisa jeans Levi’s que encontrei no lixo, que no site da marca custa 309 dólares. Também já achei uma sandália da Topshop, que na loja custa 190 dólares.

Me sinto muito bem e estilosa usando as minhas roupas. Algumas pessoas me admiram pela forma como me visto, outras ficam surpresas. Teve um dia que fui jantar com a minha tia num restaurante e ela elogiou meu look, disse que era bonito. Eu estava de cardigã, calça jeans e tênis branco. Agradeci e falei para ela: ‘tia, essas peças são do lixo’. Ela ficou quieta e me olhou com cara de pavor.

Há quatro anos não compro roupas. Tomei essa decisão após assistir a um documentário que faz uma denúncia contra a cadeia produtiva da moda fast fashion às custas do trabalho escravo. Acho que as pessoas entram nesse consumismo desenfreado pela influência da indústria da moda de que é preciso ter para ser. A maior lição que tiro é a de que roupa é só um instrumento para eu me expressar, mas o verdadeiro valor está dentro de mim e na minha essência”.

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